‘É preciso ir além com o gasto social’, diz ex-secretário executivo da Fazenda

Na primeira de uma série de entrevistas do 'Estado' com economistas, Nelson Barbosa diz que o próximo governo deve avançar em habitação, transporte público e inclusão digital

Alexa Salomão e Ricardo Grinbaum, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 17h55

Desde que deixou a secretaria executiva do Ministério da Fazenda, em meados do ano passado, o economista Nelson Barbosa faz aparições públicas esporádicas, ora criticando, ora elogiando a gestão do governo com o qual ainda mantém laços no mínimo políticos. “Apoio o governo atual e a reeleição da presidente”, diz. Barbosa frequenta o Instituto Lula, organização liderada pelo ex-presidente, mas falou ao Estado como acadêmico interessado em contribuir para o debate econômico. Na visão de Barbosa, o mote do próximo governo é aperfeiçoar a estrutura das finanças públicas para que o Estado leve os benefícios sociais a um novo patamar. “Não coloco a necessidade de fazer um grande ajuste em 2015, mas, sim, um grande debate estrutural sobre para onde vão as finanças do orçamento público”, diz.

Aperfeiçoar a política industrial, modernizar a regulação, fomentar o, mercado de capitais e promover a retomada das exportações são outros temas que o economista Nelson Barbosa acredita que devem constar da agenda do novo governo à medida que as condições econômicas internacionais se estabilizarem.

Para o ex-secretário do Ministério da Fazenda, o baixo crescimento do País é conjuntural e não tem relação com o fato de o governo ter apostado no modelo de desenvolvimento baseado no consumo e não no investimento. "O investimento foi o que mais cresceu. O governo não apostou no consumo. Apostou no fim da desigualdade", diz Barbosa.

A seguir, a entrevista completa com Nelson Barbosa, que faz parte de uma série de entrevistas com economistas iniciada hoje pelo Estado. Serão ouvidos especialistas de tendências políticas variadas. Os entrevistados têm como característica comum o perfil de formadores de opinião, com papel de destaque no debate econômico e político nacional. Podem ser especialistas que, eventualmente, sejam ligados a candidatos a presidente da República. Eles darão sua opinião pessoal sobre a economia. Devem tratar dos desafios do próximo presidente, descrever o que julgam ser o melhor modelo de desenvolvimento para o País e apresentar propostas para que o Brasil acelere o desenvolvimento econômico. Eles também deverão falar sobre como o País pode fazer uma travessia segura até a posse do novo presidente, em janeiro de 2015.

Janeiro de 2015, o governo toma posse. O que será preciso fazer?

Nelson Barbosa - Há questões conjunturais a resolver, como a pressão sobre o preço da energia. É o assunto da hora. O governo está absorvendo o custo e avaliando como isso será repassado para o preço - rápida ou gradualmente. Mas há questões estruturais. Avançamos na distribuição de renda e criamos uma extensa rede de proteção social. Isso reduziu o grau de desigualdade, desenvolveu o mercado interno. A construção da rede de proteção social implicou um aumento das transferências de renda como porcentual do PIB. Elas eram da ordem de 6,5% e hoje são de quase 10%. Daqui para a frente o desafio, que não é apenas para 2015, mas para ser cumprindo em vários anos, é manter essa conquista e ir além. Não é não voltar atrás. Pode ter alguém que queira voltar o relógio histórico, mas acho impossível e incorreto. Olhando para frente, é preciso ampliar o programa de concessões - e isso vai acontecer - e promover investimentos em tecnologia. Na esfera social, é necessário ampliar gastos com saúde, educação, transporte urbano.

O senhor se refere a atender às demandas das manifestações?

Sim. Fazer inclusão social com saneamento, habitação, transporte urbano e inclusão digital - que eu acho importantíssima. Lula gosta de dizer que o programa Luz para Todos levou uma grande parcela da população do século 19 para o 20. Para levar essa parcela ao século 21 é preciso inclusão digital. Muitos ganhos podem ser obtidos simplesmente com a adoção aqui de coisas que já são comuns lá fora. Assim como o celular promoveu uma salto de produtividade ao ser difundido, a adoção de banda larga mais rápida pode promover um salto de produtividade nas empresas e nas famílias.  

Mas como arrumar o dinheiro?

Houve queda na arrecadação porque você teve que adotar uma série de desonerações para estimular a economia e absorver o choque da elevação de alguns preços. Mas há uma parada técnica nas desonerações. A receita tributária tende a subir gradualmente. Como estamos conversando sobre médio e longo prazos, teremos a receita do petróleo. A velocidade em que tudo será feito vai depender da parte macroeconômica - quanto a população está disposta a pagar vai determinar como agir.

É preciso elevar a carga tributária?

Não. Temos que manter.

É possível baixar?

Neste momento é difícil, até porque é preciso recompor o resultado primário em bases recorrente para manter a estabilidade da dívida.

Os críticos do governo dizem que estão sendo adiados problemas para 2015, como a inflação de tarifas públicas e o ajuste das contas públicas. Como o senhor vê as cobranças?

Você tem necessidade de obter resultados primários em bases recorrentes que sejam compatíveis com a estabilidade das finanças públicas. Isso implica uma discussão estrutural. Do lado do gasto, significa redefinir abono salarial, seguro-desemprego, regra de salário mínimo, política para o funcionalismo. Na previdência, o grande debate é se vamos ou não avançar. Há propostas de reforma no Congresso e no governo. Na minha opinião, para quem já se aposentou, a regra não pode mudar. Mas essa discussão não amadureceu, apesar de ser muito importante. Previdência e saúde são dois temas que tocam no centro do orçamento público, até por causa do envelhecimento da população. No curto prazo, porém, tem coisa que pode avançar mais rápido, porque sofre menos divergências, como as questão do benefício de risco (criar novos critérios para pensões por morte e invalidez). O avanço na previdência vai ditar a evolução das transferências em relação ao PIB. O reajuste do salário mínimo, por sua vez, vai definir a velocidade de crescimento do valor dos benefícios. A política atual de aumento do salário mínimo cumpriu um papel importante. Elevou o salário mínimo de cerca de 30% para 40% do salário médio - nível de país desenvolvido da Europa. Não falo pelo governo, não falo pelo PT, mas na minha opinião como economista, porque tenho um projeto de pesquisa sobre isso, acredito que no próximo ciclo 2016-2019 o adequado seria aumentar o salário mínimo em linha com o salário médio. O salário médio cresceu 1,8% no ano passado. É menos que o PIB, mas ainda assim é aumento real. Em linhas gerais, o salário médio acompanha o crescimento da produtividade. O mínimo manterá o patamar e passa a andar junto com o salário médio. Isso deixa de colocar pressão sobre o mercado de trabalho e estabiliza a distribuição salarial. Não coloco a necessidade de fazer um grande ajuste em 2015, mas, sim, de fazer um grande debate estrutural sobre para onde vão as finanças do orçamento público. A questão é se deve ser rápido ou gradual. Acho que precisa ser mais gradual. Você não desmonta de uma hora para outra uma série de subsídios criados nos últimos anos. Basta ver o que os países, dos EUA à Europa, estão fazendo.

Para muita gente, a saída é um câmbio mais competitivo.

O câmbio é flutuante e as ações do governo até podem ter um efeito no curto prazo, mas o câmbio é guiado por questões internacionais. Uma frase a mais de Janet Yellen (presidente do banco central dos EUA) tem mais efeito sobre a nossa taxa de câmbio do que uma mudança no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Na questão cambial, o importante é resistir às tentações - de apreciar demais para baixar a inflação ou de depreciar demais para tentar conseguir competitividade no curto prazo.

Você acha que governo precisa ter metas a partir de 2015 para o superávit, para dívida e para gasto público?

A gente precisa evitar a profusão de metas para não dar confusão e manter as que existem: meta de inflação, de resultado primário. Propus um intervalo de flutuação no primário - mais para melhorar a comunicação. Na prática, o governo já faz isso. A ideia é: você coloca um intervalo e deu. O mínimo é esse e abaixo disso não cai. O máximo é tanto, porque tem que ter um máximo. Às vezes a coisa está boa e muito arrocho é desnecessário. A partir do máximo, discute-se desonerações ou a criação de outro gasto. Você precisa ter um cronograma - não é meta - de quanto será aportado em banco público para os próximos anos, sendo decrescente.

Como tratar inflação represada?

Vivemos um paradoxo. A expectativa de inflação não cede porque há incertezas sobre se e quando preços de produtos como gasolina e energia serão reajustados. A melhor forma de fazer o ajuste é rapidamente.

Em ano eleitoral a gente imagina que, se algo for feito, será suavemente.

Não gosto de comentar o que governo pode ou não pode fazer por um motivo óbvio. E essa não é uma decisão trivial. O que posso dizer é que estamos em ano eleitoral e a Selic está subindo. No ano eleitoral de 2010, também subiu. O brasileiro está maduro para separar eleição de ajuste normal de uma economia que está sofrendo pressão de preços. Não seria tão categórico em dizer que nenhum preço se move. Acho que o governo sabe disso e tenta suavizar, mas alguma movimentação ocorre neste ano. Acho que haverá um reajuste dos combustíveis. Não integral, como querem alguns, mas alguma coisa. Na energia está sendo discutido. Como a conta é bem grande, a tendência é que seja distribuída no tempo, com alguma coisa vindo neste ano.

Mas como baixar a inflação para voltar no centro da meta?

Outra questão da inflação é o câmbio. Sofremos uma depreciação forte em 2012 e 2013. E no Brasil, depreciação cambial pressiona a inflação para cima e o crescimento para baixo. Historicamente é assim. Foi assim em 1999, em 2003, em 2009 e está sendo agora. A questão é: o câmbio atingiu o teto ou sobe mais? Acho que sobe um pouco mais, ficará entre R$ 2,40 e R$ 2,50. Passada a turbulência lá fora, o câmbio se estabiliza e cessa a pressão inflacionária. A questão agora é como será a suavização dos preços administrados. Será em 1, 2 ou 4 anos? Qual a melhor convergência de preço do combustível para a Petrobrás?

A presidente Dilma foi muito criticada por ter se distanciado do empresariado, mas recentemente deu sinais de aproximação. Foi a Davos, acenou com ajuste fiscal, privatizou...

Eu não acho que concessão é privatização. Há uma diferença entre alugar e vender. Mas essa é uma discussão semântica.

...fez concessões à iniciativa privada, mas há dúvidas sobre a postura em um eventual segundo mandato.

É equivocada essa visão que o atual governo é contra o mercado. O governo da presidente Dilma não é intervencionista. Nos caso das concessões, é errado o governo querer um serviço com preço mais baixo para o consumidor? De jeito nenhum. Isso é ser intervencionista? Não. É defender os interesses do consumidor num mercado que é naturalmente oligopolizado. É papel do governo fazer isso. A questão foi a forma de fazer. A primeira não deu certo. O governo ajustou e parece que já está no caminho.

O senhor disse que o governo quer evitar a ação de oligopólios, mas do outro lado o BNDES colocou dinheiro nos campeões nacionais. Não são ações contraditórias?

A maior parte do volume de recursos do BNDES foi canalizada para linhas voltadas à infraestrutura e bens de capitais. O banco fez empréstimos para a consolidação de empresas devido à dinâmica do mercado e da economia. Depois, concluiu-se que seria melhor transformar empréstimo em participação acionária. Não tenho informação suficiente para saber se foi mais adequado ou não. O presidente Luciano Coutinho (do BNDES) disse que essas operações não geraram perdas e acredito nele.

O senhor tem conversado com o pessoal do governo e participado de reuniões no Instituto Lula...

Trabalhei no governo, tenho amigos lá e converso com várias pessoas. Apoio o governo atual, a reeleição da presidente, participo de algumas reuniões no Instituto Lula, mas não é nada formal. Não sou de nenhum equipe, apenas dou minhas ideias.

Conversa com a presidente?

Não.

Houve uma frustração no primeiro mandato da presidente Dilma, a inflação veio maior e o crescimento, menor. O que deu errado?

Já escrevi sobre isso. Houve três fatores. Uma mudança no cenário internacional no final de 2011, quando recrudesceu a crise na Europa e a polêmica do orçamento nos Estados Unidos. Aquilo gerou uma desaceleração mundial, que mudou o câmbio e o preço das commodities, afetando vários países. O Brasil foi afetado por vários choques. Teve o choque da energia, o do etanol e teve também a transição, que é natural, de quando o governo mudou de um modelo baseado no investimento público para um modelo baseado em concessões. Por vários fatores, essa transição acabou sendo mais lenta do que se esperava. Houve problemas com licenças ambientais e atraso em alguns projetos, o que acabou prejudicando o investimento. Essa combinação, desacelerou o crescimento. Houve também a estabilização do crescimento. Para crescer, um país de classe média precisa de mais e mais oportunidades. Precisa ser cumulativo, manter o que se conquistou e dar um passo à frente.

Alguns críticos dizem que o problema foi o governo apostar no consumo...

Se você pegar os 12 anos do governo, verá que o investimento foi o que mais cresceu. O governo não apostou no consumo. Apostou no fim da desigualdade. A gente quer crescimento com inclusão social. Um dos efeitos da inclusão é que você transforma as pessoas em cidadãos e elas passam a ter acesso a bens e serviços. E a alta do consumo gera oportunidades de negócio e crescimento. Se você estiver na dúvida, olha o número. Ele mostra que o investimento cresceu mais. Esse preconceito com o consumo na verdade é um preconceito contra a distribuição de renda. É achar que inclusão social não é uma coisa tão boa. Eu penso o contrário.

O governo de Fernando Henrique Cardoso foi o da estabilização, o do Lula foi claramente o da distribuição de renda. Qual seria é cara do governo Dilma e qual deveria ser o mote em uma eventual reeleição?

Difícil dizer. Isso é pergunta para marqueteiro. Tem gente que ganha muito para responder isso. Eu coloco como governo do PT. O mote é crescimento com inclusão. No governo do presidente Lula, você teve uma forte inclusão e no da presidente Dilma você manteve a inclusão, mesmo num cenário mais adverso. É fato que está sendo ampliado, principalmente via educação. Não falo por nenhum candidato. Não sei qual é o mote. Mas justamente porque tivemos sucesso com a inclusão, a linha é desenvolver mais oportunidades - oportunidades para as empresas investirem e para as pessoas se desenvolverem, qualificarem, melhorarem de vida. E isso não é só trabalho da área econômica. Se faz inclusão social além da renda. Do ponto de vista bem economicista, mudou o ciclo mundial. O preço de commodities dificilmente vai voltar ao patamar que teve nos últimos dez anos, muito provavelmente o que vai fazer a diferença é a produtividade.

Em relação à questão do intervencionismo, ele não se limita às concessões...

Você se refere a questão macroeconômica? Também é um exagero achar que houve a tentativa de fazer controle de preços. Durante um tempo as pessoas acharam que o governo queria controlar o câmbio. O câmbio flutuou. Depois disseram que o governo queria controlar a taxa Selic. A Selic subiu. Disseram que o governo não iria deixar a Selic subir neste ano porque tinha eleição. A Selic está subindo. Depois disseram que o governo não tem mais meta de superávit primário. O governo já está sinalizando meta de primário. Não é o resultado primário do passado porque as condições do Brasil e do mundo mudaram. Mas continua tendo meta de superávit primário. Acho que você tem o mesmo arcabouço de política macroeconômica: meta de superávit primário, meta da inflação e câmbio flutuante. Mas isso em uma situação macroeconômica diferente, na qual mudou a taxa de câmbio, a arrecadação do governo caiu e a taxa de juros por questões internacionais caiu e agora subiu. Taxa de juros real também flutua. Ela está subindo agora, mas posso garantir que depois ela vai cair. E quando ela voltar a cair, vai cair a um nível mais baixo do que caiu anteriormente. O que há no Brasil é uma redução da taxa real de juros para padrões internacionais - e essa redução acontece com flutuações. Ora ela cai, ora sobe, mas numa trajetória decrescente. O piso de um ciclo é sempre menor que o piso do ciclo anterior. Hoje nós temos uma taxa de juros de um ano da ordem de 5,5%. É a taxa real de juros que a gente tinha no início da crise. Mesmo com uma flutuação, não voltamos aos patamares de 2007. Fomos abaixo disso.

O senhor sabe como é o debate interno do PT sobre o papel do Estado e das empresas privadas?

Só posso falar por mim. Não sou filiado ao PT e passei pelo governo. Eu tenho amigos no governo e as vezes sou convidado para algumas discussões. Mas eu já fui discutir economia em Campinas (na universidade Unicamp) e na Casa das Garças. Eu discuto com todos os lados. Obviamente, eu me alinho com o governo atual. Apoio o governo atual. Mas só posso falar por mim. Por etapas: todos concordam que o Estado tem um papel importante na estabilidade macroeconômica. Da extrema direita à extrema esquerda. Da Casa das Garças à Campinas. Nem todos concordam, mas eu acho que o governo tem um papel importante na redução da desigualdade e na distribuição de renda. Isso acontece no mundo inteiro. Até nas democracias avançadas, como nos Estados Unidos, o Estado tem papel na distribuição de renda. Tanto nas transferências - seguro desemprego, combate à pobreza e previdência social - quanto em programas que não são ligados à renda, mas melhoram a vida da parcela mais pobre - universalização da educação e da saúde pública. Tem gente que acha que temos de ter igualdade total. Eu acho que temos que ter igualdade e oportunidade. O Estado tem papel regulador, principalmente em mercados oligopolizados, aqueles que pela própria natureza tem poucos ofertantes. Podemos separar o que é objetivo e o que é forma. No caso das concessões é um exemplo claro. O objetivo é claro, mas a forma adotada no início não deu certo e foi ajustada. O Estado também precisa fomentar o desenvolvimento de empresas, setores ou atividades. Vários países fazem isso. Não é um debate novo. Alexander Hamilton falava sobre isso no final do século 18, inicio do 19. O Brasil tem exemplos. A Embraer foi criada com incentivos e proteção e hoje compete internacionalmente de igual para igual com as maiores do mundo. A Petrobrás foi criada com incentivos e proteção e virou a maior operadora offshore do mundo. Há casos que deram errados? Claro. Mas isso não quer dizer muito. Você precisa ter política industrial - todo mundo precisa - a questão é saber quando parar com os benefícios. Você não pode ter uma política que ofereça benefícios permanentes. Você dá benefícios por um tempo, mas depois a empresa precisa andar com as próprias pernas. Escolher os vencedores é saber eliminar perdedores. Dar incentivo por um período - dois, cinco anos. É preciso ter um prazo. Mas não pode ser permanente. Caso contrário, deixa de ser política industrial para ser política de proteção. São muitas nuances. Mas eu coloco que o Estado no Brasil tem o papel de fomentar, não as empresas, mas atividades. Por empresa é mais complicado. Mas há setores que se não tiverem ajuda do Estado não vão se desenvolver.

O governo Dilma foi o que teve o maior número de medidas protecionistas e menos acordos. Como deveria ser um segundo mandato?

O primeiro mandato de Dilma teve mais proteção porque em 2010 a taxa real de câmbio estava no nível mais baixo em 15 anos. Teve uma abertura comercial, via depreciação cambial fortíssima. O governo tentou compensar isso adotando medidas tarifárias. À medida que a taxa de câmbio mudou, retira-se a pressão por políticas tarifárias e podemos ampliar o número de acordos. O Brasil ainda tem um grande potencial para exportar para a América Latina e países em desenvolvimento, como na África. Infelizmente, nosso principal cliente, a Argentina, está com problemas, mas ouvi alguém dizer que a Argentina agora vai resolver o problema. Se deixar o câmbio flutuar, vai ser bom para eles e para nós. A história mostra que quando Brasil e Argentina estão com a taxa de cambio alinhada é bom para os dois países. A situação da Argentina vai levar um tempo para se normalizar - uns dois anos. O grande potencial de expansão do comércio exterior do Brasil está no mundo emergente. Isso não quer dizer que não se possa ter alguns acordos com os Estados Unidos e a União Europeia, mas acho que dependem mais deles do que da gente.

Como fazer isso na prática? Esse câmbio e as medidas concessões são suficientes para fazer o País crescer mais?

O câmbio é flutuante. Você não toma uma medida direta sobre o câmbio. Você toma medidas para evitar uma volatilidade maior da taxa de câmbio. A principal maneira de fazer isso é com política de estimulo ao investimento. Você garante que o câmbio vai ficar num patamar mais competitivo indiretamente, com uma política fiscal que seja capaz de manter a estabilidade da inflação. A política de juros mantém a estabilidade da inflação e, indiretamente, o câmbio estável em certo patamar - depende dos fundamentos, tanto do lado monetário quanto fiscal. Então, tem que atuar do lado do investimento para aumentar a produtividade e desenvolver o que eu chamo de novas frentes de expansão da economia brasileira. O País teve inclusão via renda. As pessoas estão tendo mais acesso a bens de consumo, bens duráveis e estão se alimentando melhor. Agora precisamos avançar em outras áreas, como habitação. O investimento habitacional vem crescendo no Brasil e ainda tem muito a crescer. Essa é uma área que pode ser uma fonte tanto de investimentos quanto de crescimento, tanto de demanda quanto de oferta muito forte nos próximos anos. Também temos de investir mais na expansão da educação e da inovação. Seria possível ampliar as possibilidades de investimento para capital nacional e internacional.

O que mais há na sua agenda de reformas?

Há questões ligadas à regulação. Para continuar ampliando o investimento em concessões, é preciso ter uma discussão de cunho financeiro. Não nesse momento, em que a taxa de juros não está baixa. Mas no momento em que a inflação voltar a cair e a curva da taxa de juros voltar a ser negativa - o que os economistas chamam de inverter a curva - você tem possibilidade de desenvolver o mercado financeiro por meio de títulos privados. Os bancos públicos podem ter um papel importante pare que eles tomem direto do mercado. Ao invés de o Tesouro tomar emprestado para o BNDES, o próprio BNDES pode ir a mercado. E, teoricamente, vai tomar o dinheiro à mesma taxa do Tesouro, que é a menor taxa da economia. Ele empresta e dinamiza o mercado privado de longo prazo. Empresta com uma taxa um pouco maior e pode subsidiar aquelas linhas são mais prioritárias - como é feito no resto do mundo. Banco de desenvolvimento foca muito em infraestrutura, micro e pequena empresa e inovação. Áreas que têm um retorno social maior, o que justifica algum subsídio. Não seria uma grande reforma. A maior parte do arranjo o governo fez. Aqueles títulos privados de longo prazo, debêntures de infraestrutura, títulos de "duration" com mais de quatro anos não pagam imposto de renda. Isso não se desenvolveu muito porque a taxa de juros subiu, a inflação está volátil e o investimento está retraído. Mas em condições normais, essas medidas que já foram tomadas podem ter mais efeito. Outra discussão importante, mas não acho que tem possibilidade de avançar, é a questão trabalhista - terceirização, simplificação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).

Como o senhor vê isso?

Esse é um assunto muito polarizado. Não sei se é possível chegar a um consenso. Mas existe a possibilidade de melhorar muito a produtividade da economia com algumas medidas que sejam boas para os dois lados - dos trabalhadores e das empresas. Recentemente, houve uma iniciativa, acredito que do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em conjunto com algumas empresas e apoio da Justiça do Trabalho - que defende a implantação do acordo coletivo de trabalho com propósito específico. É um instrumento que existe na Alemanha. Aqui é flexibilização, mas se você vai perguntar para os alemães, eles dizem que é muito rígido. Esse debate ainda está muito verde. Só retomar o debate já seria uma avanço.

No caso da Previdência, o principal seria limitar o benefícios para os herdeiros.

Eu nem chego a esse ponto. O congresso precisa discutir muito, mas colocar princípios nessa discussão. No caso do benefício de risco: se vai para um cônjuge, precisa ser proporcional ao tempo de relacionamento, ao número de filhos que tiveram, e à idade da pessoa. Não quero brincar de Deus - definir se o benefício é para 40, 45 anos. O que temos que estudar são as regras de outros países e olhar qual é a realidade do Brasil, Mas normalmente a regra diz que se o cônjuge morreu ou ficou desabilitado, e você está casado há 30 anos, o seu benefício é diferente de quem está junto há um ano. Se está casado há um ano, mas você tem 70 anos, seu benefício é diferente de quem 18 anos. Se está casado há um ano, mas tem três filhos, o beneficio é proporcional ao número de filhos. Já existem regras e sistemas dos mais variados. Acho que temos de analisar o que é feito no resto do mundo e ver o que é adequado para o Brasil.

É para a Previdência em geral?

Nesse caso, as centrais sindicais, de um lado, querem acabar com o fator previdenciário. De outro lado, o governo tem restrição a isso - o que eu acho correto. Se acabar com o fator previdenciário e não colocar nada no lugar, você pode criar um desequilíbrio previdenciário muito grande. Algumas lideranças querem acabar não apenas com o fator previdenciário. Querem acabar com ele de forma retroativa, o que seria desastre. Seria injusto. As pessoas que se aposentaram com fator previdenciário sabiam qual era a regra quando se aposentaram. Então não pode aposentar com o fator, ter um rendimento e depois de tomar a decisão de se aposentar mais cedo, o rendimento é muito baixo e quero voltar. Isso é muito injusto. Se for para eliminar o fator previdenciário é preciso colocar outra coisa no lugar. Essa é uma discussão que precisa envolver a questão da idade mínima. Sempre para nova geração.

À princípio o senhor está satisfeito com atual fator previdenciário, mas se tiver que mudar, tem que trocar pela idade mínima, é isso?

Essa é uma discussão de idade mínima. A discussão que apareceu, não dentro do governo, mas no Congresso e nas centrais sindicais, era fazer um sistema misto, em que você adotasse aquela regra 8575 - uma versão atual daquela proposta dos anos 90, para os jovens. Para quem entrou no mercado de trabalho agora. Para quem já se aposentou, a regra não muda. A discussão não amadureceu.

Há economistas que dizem que o Brasil está preso numa armadilha de baixo crescimento. O senhor concorda com esse ponto de vista?

Não. Acho que vivemos uma mudança forte em alguns preços relativos, como câmbio, o que tem impacto destrutivo no curto prazo. Também sofremos, vou usar uma metáfora, uma mudança de marcha no crescimento. O País teve um forte crescimento baseado na forte expansão da transferência de renda e na inclusão social. Quando você sai de 6% de transferência para quase 10% você dá um impulso ao consumo e à demanda. No momento em que estabiliza, os ganhos sociais se mantêm, mas não há mais aquele impulso no crescimento. O impulso agora precisa vir de outro lugar. O próprio sucesso da política faz com que ela tenha menos efeito. A forma de estimular o crescimento pelo lado da demanda é o investimento. Nesse caso, é preciso esclarecer um ponto: a taxa de investimento no Brasil, considerando o conceito relevante para os economistas, que desconta a variação de preço, subiu. Foi de 16,5% para 20% até 2010. Desde então ela está a 20% do PIB em preços constantes. Por um lado o copo está meio cheio, por outro, meio vazio. Houve um recrudescimento da crise mundial e a taxa de investimento no Brasil parou de subir, mas continua em 20%. Não caiu. Tem gente que prefere ser pessimista e dizer que ela parou de subir. Mas ela também não caiu. O desafio agora é retomar o investimento. Para mim está claro, pelas ações do governo, qual é a prioridade - crescimento puxado pelos investimentos e a recomposição das exportações. Isso não será de imediato porque a Argentina está com problemas, mas o mundo está se recuperando e com o câmbio mais competitivo, as exportações vão voltar a contribuir para o crescimento.

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