''''É preciso pensar, não agir de rompante''''

Professor diz que autoridades agem de forma reativa e emocional e não pensam no futuro

Mariana Barbosa, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

Professor de Transporte Aéreo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Respício do Espírito Santo Junior não compartilha do entusiasmo do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que estabeleceu o dia 1º de março como marco do fim da crise no setor aéreo. "Foram sete anos de contingenciamento e investimentos errados. Você não resolve isso em um ano." Cético com relação a uma solução de curto prazo, Respício critica as autoridades do setor por agir de forma reativa e emocional. Em entrevista concedida ao Estado, ele observa que não foram apresentados argumentos técnicos ou econômicos para justificar as limitações ao aeroporto paulistano.O que o senhor acha das restrições de vôo em Congonhas? Qualquer interferência precisa ser justificada, com argumentos econômicos e técnicos. Os motivos técnicos de restringir vôos de mais de mil quilômetros, eu desconheço. Se você não consegue justificar tecnicamente, fica uma decisão política, o que é péssimo. Por isso, as companhias começam a driblar as regras. Elas investem milhões de dólares em aeronaves, pensando numa política, e a regra muda da noite para o dia. São medidas que não servem para nada, não são previamente estudadas. A regulação no setor não é racional, é reativa e emocional. Mudou alguma coisa com a nomeação do ministro Nelson Jobim?Já era assim na época dos militares, criticados por não justificar suas medidas. A agência civil, o Ministério da Defesa, é tudo a mesma coisa. É preciso parar para pensar, não dá para agir de rompante. Restringiu-se em mil quilômetros com base em quê? Por que mil é bonito? E 950 ou 1.500? O sr. acha que o governo deveria definir uma vocação para Congonhas, como, por exemplo, vôos a negócios. Seria uma saída? Não, privilegiar o passageiro de negócios não é uma justificativa econômica. Todos são iguais perante a lei, o turista e o empresário. Um exemplo de boa justificativa econômica foi a transferência de vôos fora da ponte aérea do Santos Dumont para o Galeão. Havia capacidade ociosa no Galeão. Em Guarulhos, não há capacidade ociosa. E para jogar o tráfego para Campinas há um custo social de deslocamento, sem falar no custo ambiental.O ministro Jobim provocou polêmica ao exigir das companhias que aumentem o espaço entre as poltronas. O que o senhor acha disso?No mundo inteiro a configuração interna do avião é de responsabilidade da companhia. Com emoção não se raciocina. Daqui a pouco vão exigir a volta das poltronas executivas nos vôos domésticos. Uma coisa é o passageiro reclamar, outra coisa é a autoridade.A mudança na Anac e a criação da Secretaria de Aviação Civil vão resolver a falta de comando?Só uma diretoria técnica e competente na Anac não resolve. Continua faltando planejamento integrado. A Infraero só olha para os aeroportos, a Anac só cuida de fiscalizar - quando fiscaliza - e a Aeronáutica só olha para o controle. Do jeito que a secretaria foi estruturada, não muda nada. Estou cético. A secretaria foi pensada para arrumar a casa e não para pensar no longo prazo. Mas também era preciso arrumar a casa, não?Para fazer o que estão fazendo não precisava de secretaria. Tem uma diretoria para olhar a Infraero, outra para a Anac, outra para o espaço aéreo. Você tem diretorias dentro da secretaria, pois não confia nos outros braços. É absurdo. Para que serve a Anac se tem uma diretoria que cuida dela? É o órgão para supervisionar o órgão. Se a estrutura é ineficaz, tem de acabar com a estrutura antiga.E como fazer isso? É preciso fazer um estudo sobre as atribuições de cada um e acabar com as sobreposições. Não se sabe quem manda. A Anac, teoricamente, tem de regular e fiscalizar os aeroportos e a Infraero administrá-los. Ela não pode meter o dedo no controle do espaço aéreo. Mas aí tem problema em aeroportos com base aérea. Não se sabe quem manda. A aviação está fragmentada. Agora tem outra fragmentação, na Defesa. Em vez de reduzir o número de caciques, aumentaram.A crise vai acabar em março do ano que vem, como prevê Jobim? No dia 1º de março começa a baixa temporada. Na baixa, tudo melhora. Até a próxima temporada. De novo, o culpado é o crescimento econômico, como disse lá atrás o ministro Guido Mantega. A culpa é do passageiro que quer viajar. Quanto tempo vai levar?A crise aconteceu porque ao longo de 6, 7 anos o investimento foi contingenciado e muito do que foi investido foi em cima de decisões erradas. Não vai ser em um ano que vamos resolver o problema.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.