É tempo de hully-gully

O Rio de Janeiro já foi o melhor lugar do mundo para se esconder do carnaval carioca. Era uma saída mais segura do que enfrentar engarrafamentos serra acima, praia abaixo, só para ser recepcionado no fim da viagem pelo ziriguidum que a capital irradiava aos mais remotos vilarejos, como ecos amplificados pela distância.Quem ficava no Rio tinha à disposição por quatro ou cinco dias, dependendo do tempo que os exilados do samba iriam levar para fazem a volta na Quarta-Feira de Cinzas, uma grande cidade coabitada em turnos por duas populações que mal se encontravam durante o dia. A turma da manhã acordava quando a da noite estava começando a curar a ressaca dos bailes e desfiles no Sambódromo. Por longas horas, que entravam tarde adentro, parecia que era tudo seu. Os parques públicos se transformavam em jardins quase privados. Na porta dos restaurantes, as vagas davam sopa. Dentro, garçons se desdobravam em salamaleques ao redor de sua mesa. Tudo porque o carnaval carioca, ao contrário do baiano, ou do voto popular, tornara-se um direito universal de exercício facultativo. Ocorria em circuito fechado. Andava por perto. Mas sabia manter distância. Para vê-lo, ou mesmo para ouvi-lo, era preciso tomar providências. No mínimo, ligar a televisão. Em casa, só entrava pela janela o silêncio insólito da cidade em festa. Na Gávea, um vale da zona sul aos pés da Rocinha, que tem sua própria escola de samba, os tamborins se calavam. O bairro dava a impressão de ainda estar de luto oficial pela morte de seu morador mais ilustre, Auguste Henri Grandjean de Montigny, o arquiteto de D. João VI, abatido em 1850 pelos excessos do entrudo. Nas ruas, era mais fácil topar com pessoas fantasiadas em junho, quando os colégios da Gávea viram arraiais e os alunos vão às aulas uniformizados de caipiras. Havia blocos. Mas raramente cruzavam o caminho de quem não ia atrás deles. Eram raros como micos-leões-dourados e tratados como relíquias pelos cronistas especializados, que escreviam sobre a morte do carnaval de rua.Todos erraram, como costumam errar os jornalistas que se arriscam prognósticos. O que está morrendo agora são os bailes, antes acusados de matar os blocos, que voltaram do passado para botar na moda coisas que não se viam há muito tempo no carnaval. Mulher vestida, por exemplo. Trouxeram de volta marchinhas de época, a sua época. Não se passa mais um dia da temporada sem ouvir em algum canto do Rio o "iê-iê-iê" inconfundível da "mulata bossa-nova, caiu no hully-gully".É obra do compositor João Roberto Kelly, sucesso do carnaval de 1964, às vésperas da queda do governo João Goulart. Tem efeitos instantâneos sobre os cariocas que têm idade para ouvir e entender o que era o tal do hully-gully. Chega a ser golpe baixo. Dá vontade de gritar "e só dá ela". E acabar de uma vez com essa história de o carnaval lá e eu aqui.

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