Elias Oliveira/Jornal do Tocantins
Elias Oliveira/Jornal do Tocantins

'É tudo uma grande armação política'

ENTREVISTA

Fausto Macedo, Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2010 | 00h00

Carlos Gaguim, governador do Tocantins

O governador Carlos Henrique Gaguim (PMDB), do Tocantins, disse ontem ser alvo de "armação política", que, em sua avaliação, o aniquilou na corrida pela reeleição. Ele atribui a seu antagonista, Siqueira Campos (PSDB), e à senadora Kátia Abreu (DEM-TO) plano para alijá-lo da disputa.

O Ministério Público de São Paulo cita seu nome 66 vezes em relatório sobre as atividades de organização criminosa para fraudes em licitações. Os promotores afirmam que contratações à margem da lei tiveram participação direta de agentes políticos do Tocantins e incluem Gaguim nesse rol.

No Palácio Araguaia desde setembro de 2009, ele afirma que todas as contratações de sua gestão têm a marca da probidade. Por telefone, o governador falou ao Estado.

O que o sr. diz sobre a apuração da promotoria de São Paulo que liga seu nome a integrantes de organização criminosa?

Não chegou a mim nenhum documento nesse sentido. Estou sabendo pela imprensa. Oficialmente, nada. O que sei é pela TV que bate em mim 24 horas.

Sua administração fechou contrato de R$ 13,8 milhões com empresa do Grupo Cepera que é alvo da devassa da promotoria?

Não pagamos nada, nenhum centavo para essa firma (O. O. Lima Limpadora). Não recebeu nenhum centavo do governo do Estado. Não pagamos nada.

Mas existe o contrato?

Essa licitação foi há sete meses, tem um contrato. Aqui eu determino que todas as contratações sejam examinadas rigorosamente por advogados do Estado. Tudo é submetido ao crivo do Tribunal de Contas do Estado. Aqui as coisas são absolutamente legais, é tudo rigorosamente analisado. Só sai quando está tudo em cima de uma auditoria.

Seu nome é citado 66 vezes no relatório da promotoria e nas interceptações telefônicas. Como explica?

Eu não posso mandar nas palavras das pessoas. O que as pessoas falam sobre mim eu não tenho como evitar. Eu não tenho essa autoridade sobre as pessoas. Um dos motivos da cassação do governador Marcelo Miranda foi a contratação de 35 mil funcionários públicos comissionados. A Justiça cassou. Eu era presidente da Assembleia quando cheguei ao governo. Eu não fui eleito governador, entrei sem conhecer nada do governo. Chamei a equipe, chamei a Fundação Dom Cabral para me orientar. Tirei da folha do Estado quase 10 mil pessoas, eu exonerei 10 mil. A qualquer momento poderiam ser demitidos 22 mil pais de família. Fui orientado a fazer concorrência para terceirização de alguns serviços essenciais. O Estado não podia contratar mais, a Justiça não permitia.

Se é tudo legal, por que seu nome aparece em investigação sobre fraudes em licitações?

Esses comissionados são da época do Siqueira Campos que governou por três mandatos e depois do Marcelo Miranda, por dois mandatos. Veio estourar tudo em cima de mim. Abri licitação e mais de 20 firmas se habilitaram. Eu não quis saber de quem eram as empresas.

O sr. é amigo do lobista Maurício Manduca?

Esse Manduca é de família tradicional de Porto Nacional, a 50 quilômetros de Palmas. Eu não tinha amizade com esse rapaz. Por ele ser de Porto Nacional lógico que teve acesso a mim, mas não acesso comercial para favorecer.

Como a empresa O. O. Lima ganhou a licitação?

Mandei puxar em outros Estados quem tinha condição de participar. A primeira licitação que teve o Tocantins não deu conta de pagar. Era muito caro, nosso povo não suporta isso. Cancelamos. Enquanto isso os contratos desse pessoal, auxiliares gerais e assistentes, foram vencendo. As escolas e o Ministério Público me cobrando, tem que contratar. Eu não tinha como contratar.

O que o sr. fez?

Chamei nossos advogados e disse: aqueles que estão saindo vamos ver se tem jeito de reaproveitá-los nessa mesma firma que está terceirizando. Mas não queriam pagar plano de saúde para os funcionários. Eu não aceitei. Aí deu o problema com o tal Cepera. Não acertei nada com o Cepera. Entrou o Siqueira Campos na história. O filho dele procurou o deputado (Chico Uejo, PSB, de Minas) e disse que se o pai fosse eleito ia rever o contrato, melhorar o contrato. Eu tenho responsabilidade.

A que atribui as acusações?

Armação desses grupos, desse Siqueira Campos, da senadora Kátia Abreu. Vamos pedir via judicial a abertura do sigilo telefônico dela. A verdade vai ser descoberta. Estão tentando denegrir a imagem do Tocantins.

Por que a armação?

O grupo queria que eu contratasse 5 mil pessoas, contratei 462 e o pagamento nem foi efetuado. Tudo com relação ao Tocantins está tendo armação de gravação, armação de mudar a voz, de colocar trechos. É armação de Siqueira Campos e da senadora. Eles me aniquilaram. Eu estava com 60% das pesquisas, eleição ganha. Os poderosos não querem aceitar. Eu cheguei aqui no Tocantins em um fusquinha.

Como surge Siqueira Campos nesse caso?

O filho de Siqueira Campos entrou em contrato com esse grupo faz uns dois meses. Eles ofereceram vantagens, que iam melhorar o contrato porque eu não estava cumprindo. Eu quero a coisa justa, dentro da lei. O filho do Siqueira é um descontrolado. A própria senadora Kátia Abreu o denunciou como maconheiro e safado. Ela é quem diz. Ela tem gravado. Ele foi concorrente dela na eleição passada e colocou um vídeo da Kátia, ela de pernas abertas.

Conhecia Manduca ou o conheceu depois do contrato?

Eu já tinha ouvido falar do Maurício Manduca, mas vim a conhecê-lo logo depois dessa licitação. Ele veio e se apresentou. Só nesse sentido, mas nenhum negócio com ele.

Em diálogos interceptados integrantes da organização dizem que "vão fazer um bilhão no Tocantins". O que é isso?

Ele (Manduca) se aproximou. Porto Nacional tem uma jazida de ferro e manganês que vale um bilhão de reais. Daí essa coisa de vai fazer um bilhão.

O sr. levou o lobista à China?

Esse Manduca perguntou se podia ir à China. Eu disse a ele: você pode ir, mas por sua conta. Eu fui para um lado, ele para outro. Nos encontramos na China para falar com o presidente da Vale mundial, para falar da exportação do ferro e do manganês aqui de Porto Nacional, que é uma das maiores jazidas do mundo.

Mas há fotos do sr. com o lobista na China.

Nos encontramos lá, foi coisa comercial. Me reuni com mais de 50 empresários chineses. Eles já estão investindo no Tocantins que é a bola da vez, para investimentos. São as melhores terras do mundo. Como vou desenvolver o Estado se eu não for atrás?, se eu não sentar com os empresários? Agora, se empresário faz a coisa mal feita o problema é dele.

O sr. é amigo do empresário Carlos Cepera?

Eu o vi uma única vez e por apenas cinco minutos. Ele saiu zangado comigo porque eu falei que aqui no meu Estado é desse jeito. Aqui eu não faço coisas que não estejam dentro da lei. Só o que está dentro da lei.

Por que o lobista pagou suas despesas de hotel em São Paulo para assistir a corrida da Fórmula Indy?

Eu não dormi no hotel, dormi na casa de um amigo. No outro dia meu ajudante de ordens foi fechar a conta no hotel que já tinha sido paga (no cartão de crédito de Manduca). Meu ajudante brigou com ele porque não foi autorizado. Eu nunca pedi nada a esse Manduca. Ele não me buscou no aeroporto.

Ele mandou garota de programa para o seu apartamento?

Não tem vínculo nenhum, não conheci, nunca fiquei. As pessoas podem falar qualquer coisa sem minha autorização para fazer média com empresário. Eu sou um homem bem casado graças a Deus. Sou casado há 13 ou 14 anos. Aqui no Tocantins não tem uma secretária, uma funcionária pública, não tem um nada nem na Assembleia Legislativa onde fui deputado 12 anos que me acuse de assédio, que diga que o governador Gaguim estava aliciando ou tentando usar poder para alguma coisa. Não sou dessa índole.

O relatório da promotoria fala em remessas de valores para o procurador-geral do Estado do Tocantins, Haroldo Carneiro Rastoldo. O sr. também recebeu?

Nada, nada. Em relação ao governador Gaguim não tem nada. Não respondo pelos outros.

QUEM É

Goiano da cidade de Ceres, Carlos Henrique Gaguim tem 49 anos, é casado e pai de quatro filhos. Administrador de empresas e pós-graduado pela Escola Superior de Guerra e pela Universidade Federal do Tocantins, dedica-se à vida pública desde 1986. Foi vereador, deputado estadual e presidiu a Assembleia Legislativa do Estado duas vezes. Como parlamentar, participou da industrialização do Estado.

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