Leonardo Augusto
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'É uma dor que não vai passar', diz pedreiro que perdeu mãe e três irmãos na chuva em Minas

Familiares de Gilberto do Carmo Silva morreram em um deslizamento de terra durante as fortes chuvas que ocorrem em Belo Horizonte desde sexta-feira

Leonardo Augusto, Especial para O Estado de São Paulo

26 de janeiro de 2020 | 17h06

BELO HORIZONTE - Gilberto do Carmo Silva, de 41 anos, falou pela última vez com a sua mãe, Marlene do Carmo Silva, de 58 anos, por volta das 20h de sexta-feira, 24. "Conversamos por telefone. Me falou que estava tudo bem", lembra o pedreiro. "Minutos depois, um amigo me ligou, dizendo que precisavam de mim no bairro, que havia acontecido uma tragédia. Não passou pela minha cabeça que era isto", rememora, emocionado.

O relato foi feito por Gilberto na tarde deste domingo, 26, logo depois de o Corpo de Bombeiros localizar os corpos de sua mãe e de três irmãos, que moravam juntos no bairro Vila Bernadete, no Barreiro, em Belo Horizonte. Os quatro morreram em um deslizamento de terra durante as chuvas de sexta-feira (24). "Quando o colega ligou e disse que havia ocorrido uma tragédia, eu não imaginei que era isso. Tinha acabado de falar com a minha mãe", lamenta.

Os três irmãos mortos são Edvânia Rodrigues Silva, de 17 anos, Luiz Augusto Rodrigues Silva, de 19 anos, e Edmar Rodrigues Silva, de 25 anos. O padrasto de Gilberto escapou por pouco. Estava no portão de casa, olhando a chuva. "A terra desceu na casa onde estava a minha mãe e meus irmãos e o empurrou. A única coisa que teve foi um dedo quebrado", diz Gilberto, que mora em bairro próximo, com outra irmã.

Os dois estavam neste domingo próximo ao local do deslizamento de terra que matou a mãe os os irmãos. Amigos e parentes de vítimas, além de moradores que tiveram de sair de casa, ficam por ali. Muitos negociam com a Defesa Civil voltar à residência para pegar documentos. Moradores não atingidos pelas chuvas se organizaram e fizeram um almoço. Todos comiam de pé enquanto conversavam com agentes da Defesa Civil e bombeiros.

O pedreiro, enquanto recebia o conforto de amigos, afirmou ser difícil saber o que vai fazer daqui pra frente. "Não sei. Minha mãe era o nosso suporte. Todos nós nos ajudávamos. Só Deus. É uma dor que não vai passar".

Pânico

Também no grupo de moradores que estavam próximos ao local do desabamento estava a auxiliar de almoxarifado Valdirene Aparecida Diniz, de 49 anos, que morava na Vila Bernadete com o marido, três filhos e uma neta. Parte da casa da família foi destruída pelo deslizamento de terra. Todos saíram momentos antes. "Quando fiquei sabendo que casas caíram, entrei em pânico", diz.

Valdirene afirma que chegou a ligar para a Defesa Civil na noite do deslizamento de terra. "O telefone só dava ocupado. Aí ligamos para a Polícia Militar. Os guardas chegaram e nos falaram para sair. Sou nascida e criada aqui. Nunca aconteceu nada parecido".

Viagem e inspeção não realizada

O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, estava em viagem quando as fortes chuvas começaram a atingir Belo Horizonte. Os primeiros registros de córregos transbordando e fechamento de vias na capital são de 14 de janeiro. Kalil viajou no dia 15, uma quarta-feira, e voltou no domingo, 18. As mortes em Belo Horizonte aconteceram na sexta-feita, 24.

A assessoria de comunicação da prefeitura afirmou que o prefeito "tem direito a 30 dias de férias como qualquer servidor e nunca utilizou todo o período nesses três anos". Disse ainda que, "além disso, nunca recebeu um terço de férias" e que "a viagem foi paga com recursos próprios".

O bairro Vila Bernadete, que fica às margens do Anel Rodoviário de Belo Horizonte, não era considerado uma área de risco pela prefeitura da capital. O bairro surgiu no início dos anos 70. O subsecretário de Defesa Civil de Belo Horizonte, Waldir Figueiredo, afirma que não havia registro de deslizamento na área.

"Foram 137 milímetros de chuva em menos de 24 horas no Barreiro. Isso potencializa os riscos de deslizamentos. Nós, nessas últimas horas, alertamos as pessoas porque Belo Horizonte tem uma característica de ser uma cidade com topografia acidentada, e logicamente as topografias acidentadas predispõem a ocorrência de deslizamentos de encostas", explica Figueiredo, na manhã de sábado, dia seguinte à tragédia, em rua próxima ao local da tragédia.

O responsável pela Defesa Civil municipal acredita que obras podem ter sido a causa do deslizamento. "Intervenções humanas não adequadas, não planejadas no ambiente, é o que pode ter ocorrido. É um fenômeno natural não previsível, esperado, mas não previsível nessa magnitude, nesse local", aponta.

Sobre o fato de moradoras como Valdirene, que não conseguiram falar com a Defesa Civil, o prefeito Alexandre Kalil, também no sábado, afirmou ter ocorrido uma pane no sistema de telefonia. O responsável pela Defesa Civil afirmou, porém, que uma chamada da Regional Barreiro com pedido de vistoria da corporação foi feita por volta das 16h30 de sexta-feira.

O pedido, porém, não foi atendido. "Não viemos em razão do acúmulo de chamadas e da priorização. Não temos condição de avaliar simplesmente pela comunicação telefônica a situação de risco. Atendemos de acordo com a criticidade que se verifica na chamada e, logicamente, na cronologia nas entradas de chamada na Defesa Civil", justifica. Conforme Figueiredo, no dia foram feitas cerca de 500 ligações para a Defesa Civil.

Conforme o representante da corporação, foi dada prioridade a outras regiões. "Existem áreas na cidade que chamam atenção, que já são monitoradas pela Defesa Civil. Nós deslocamos todos os esforços da Defesa Civil para aqueles locais sabidamente que poderiam causar vítimas. Felizmente, a ação preventiva foi efetiva nesses locais. E lamentamos o que ocorreu aqui".

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