DIDA SAMPAIO/AE
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É Weslian, mas pode chamar de Joaquim

Candidata, que assumiu no lugar do marido, promete governar com 'amor, carinho e assessores técnicos' se eleita no DF e vira hit na internet

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

Tudo passou muito rápido para Weslian Roriz (PSC). Em nove dias, a mulher de Joaquim Roriz foi catapultada à corrida ao Palácio do Buriti, assumiu a campanha do marido, ganhou fama, participou de debates - quer dizer, tentou participar -, virou "hit" na internet, faturou 440 mil votos e empurrou para o segundo turno a disputa pelo governo do Distrito Federal que já parecia definida. Por pouco a candidata do tripé "amor-carinho-assessores técnicos" não roubou do palhaço Tiririca (PR) o posto de "sensação destas eleições".

O plano original era botá-la como vice, e não no lugar do marido, barrado pela Lei da Ficha Limpa. A ideia, no entanto, foi rejeitada pelo aliado Jofran Frejat (PR), que compõe a chapa. A poucos dias das eleições, seria difícil montar uma nova estrutura de campanha - bandeiras, jingles, programas - e mobilizar o eleitorado de Joaquim Roriz com outra figura à frente da coligação.

A saída improvisada estava logo ali: trocar apenas o nome do candidato, deixando a força, simbolismo e "capital político" do sobrenome Roriz. A absoluta falta de experiência administrativa de Weslian seria compensada pelo carimbo de "responsabilidade social" e a garantia de seguir com o "jeito Roriz de governar". Truque mágico.

Discreta, mas de personalidade forte, Weslian é uma católica convicta, daquelas que colocam um painel com imagem da Nossa Senhora do Sagrado Coração no portão de casa. "Sempre que estou sozinha não me esqueço de Deus", diz ao Estado. Entre os seus destinos turísticos favoritos estão Jerusalém e o Vaticano, para onde viajou mais de uma vez. Comemorou 68 anos no último dia 7, na mesma igreja onde se casou com Joaquim Roriz, meio século atrás. Na ocasião, vestiu até um chapéu sertanejo com a cor vermelha do arquirrival PT, mas não chegou a perceber o ato falho.

Colunas sociais. Weslian não gosta de holofotes, colunas sociais, álcool, nem de jornalistas - embora tenha passado a conversar mais com a imprensa. É mãe de três mulheres - duas delas, Liliane e Jaqueline, foram eleitas para a Câmara Legislativa e a dos Deputados, respectivamente. A mais velha, Wesliane, cuida dos abundantes e milionários negócios da família. O marido, com patrimônio declarado de R$ 5,2 milhões, governou o DF por quatro mandatos, renunciou depois ao cargo de senador para fugir de um processo de cassação e foi alçado ao papel de cabo eleitoral-mor da mulher. O clã Roriz já prepara as próximas gerações, garantindo-lhe sobrevivência política - a novidade, aqui, é a figura da mãe, sempre deixada no papel de coadjuvante.

Apesar da diferença de 220 mil votos entre Weslian e o petista Agnelo Queiroz (ela obteve 31,50% da fatia do eleitorado, contra 48,41% dele), coordenadores da campanha avaliam que, de agora em diante, o cenário é outro. O resultado parcial, acreditam, pode ser contornado com o programa de TV, que terá o mesmo tempo de duração que o do concorrente - no primeiro turno, a vantagem de Agnelo era superior a dois minutos.

A equipe será reforçada pelo marqueteiro Dimas Thomas, que, antes de 3 de outubro, moldava o discurso anti-Roriz e anti-PT de Toninho do PSOL.

Também não será mais necessário explicar ao eleitor da família Roriz, formado em boa parte por pessoas de baixa renda e escolaridade, os imbróglios jurídicos em torno da Lei da Ficha Limpa. "Perdemos boa parte dos programas desmentindo boatos de que Roriz não era candidato", lembra o coordenador de comunicação, Paulo Fona. "Podemos desta vez apresentar mais as propostas e a trajetória de Dona Weslian." A ex-primeira-dama voltou na quarta-feira a fazer campanha pelas ruas do DF - desta vez, sem a presença do marido, o que causou estranhamento entre populares. Assessores garantem que o ex-governador, ocupado na costura de alianças políticas nos bastidores, vai voltar, como deseja a dona de casa Carminha Araújo.

"Roriz é o Jesus Cristo dos pobres", diz Carminha. Assim que soube do evento, saiu de casa e enfrentou o impiedoso sol brasiliense para acompanhar a carreata de "Dona Weslian" pelas ruas da Vila Planalto.

Roriz deu-lhe um lote. Foi o único governador que recebeu a comunidade dali na sede do governo, afirma Carminha.

Para ela, "eles nunca imaginavam que Deus mandaria uma luz para Weslian". "Eles" são os petistas, explica. "O PT é o capeta que está na Terra para atormentar os filhos de Deus", diz. Nervosa, a mulher de 64 anos passou mal durante a caminhada, teve a pressão medida e tomou um tranquilizante. "Não esperava uma felicidade dessas", justifica-se, antes de mostrar ao Estado o relógio da sala de casa, com a foto do ex-governador.

Casamento. Weslian e Joaquim conheceram-se em uma festa de casamento, em 1959. Depois, se reencontraram em um baile à fantasia - ela estava vestida com roupas japonesas, ele veio de Roriz mesmo. "Eu a vi, achei muito bonita, flertei e nos casamos nove meses depois", conta o galanteador. Os pais da candidata, exalta o material de campanha, eram donos de vastas terras na região. "O pai de Dona Weslian Roriz foi responsável pelo plantio de grama e flores dos jardins do Palácio da Alvorada", afirma um panfleto.

Segundo Liliane, o único momento de abalo da mãe veio com a morte do último e quarto filho, Ricardo. Hemofílica, a criança morreu aos 3 anos. "Ficamos todos arrasados", conta Liliane. Além dos filhos biológicos, a matriarca do clã Roriz ajudou na criação de um menino de rua e de uma garota com paralisia infantil.

Nos tempos de primeira-dama do DF, Weslian fundou a ONG Integra, que desenvolve uma série de ações voltadas para pessoas de baixa renda, jovens e portadores de deficiência. Um dos carros-chefe da entidade é o projeto Cão Guia de Cegos, referência nacional no treinamento de labradores para essa função.

Cansada. Se dependesse dela, o marido nem teria concorrido ao Senado, em 2006, antes de estourar o escândalo da bezerra, que o levaria à renúncia. A mulher de Roriz queria que ele se aposentasse; estava cansada dos "ataques da imprensa", das "injúrias" e acusações envolvendo o nome da família, que não são poucas. "Eu quero defender toda aquela corrupção", disse Weslian no debate da TV Globo, para logo depois corrigir-se. "Tudo que for de corrupção eu não vou aceitar."

Weslian se acostumou com a rotina de candidata, embora não tenha mais tempo para assistir à TV Canção Nova, fazer pilates pelas manhãs ou cozinhar para a família. Depois da antológica performance na Globo, deixa no ar certo suspense em torno de uma nova participação em debates. "Da primeira (vez), eu fui segura. Agora se eu for, vou tirar de letra", avisa. A conferir.

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