Economista enxerga limites para lua de mel com os petistas

Há limites para a lua de mel da classe C com os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, na opinião do economista Samuel Pessôa. Próximo aos tucanos, e atualmente na consultoria Tendências, Pessoa escreveu recentemente um capítulo para um livro que o economista Edmar Bacha e o sociólogo Simon Schwartzman estão organizando, em que afirma que a classe C vai exigir dentro de alguns anos melhorias na infraestrutura urbana que o atual modelo econômico não está em condições de oferecer.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

Segundo Pessôa, os altos gastos de transferência do governo, aliados à desconfiança do PT em relação ao papel do setor privado na infraestrutura, impõem limites à melhoria do ambiente urbano onde a nova classe média popular leva a sua vida. Assim, se agora a classe C ainda se esbalda dentro de casa com o salto de consumo, com sua TV de tela plana, celular sofisticado e eletrônicos, melhores roupas e até o eventual carro na garagem, em um segundo momento ela pode se irritar com o que vê ao pôr o pé na rua: asfalto esburacado, calçadas imundas, péssimo sistema de transporte, saneamento deficiente - a típica paisagem urbana das cidades brasileiras.

Pessôa cita um levantamento do economista Claudio Frischtak, de 2009, que contabilizou investimentos anuais médios em infraestrutura, públicos e privados, de 2,11% do PIB entre 2001 e 2007. Entre 2008 e 2010, ele foi de 2,18%. Apenas para se manter o estoque de capital dos investimentos já concluídos, acompanhar o crescimento demográfico no consumo dos serviços de infraestrutura e universalizar o saneamento básico em 20 anos, seria preciso elevar o investimento anual em infraestrutura para 3% do PIB. Se, no entanto, a ideia fosse passar a limpo a infraestrutura urbana onde habita a maioria da classe C, especialmente na área de transportes, com a expansão do metrô e melhoras nos transportes rodoviário e ferroviário, a conta subiria para 4% a 6% do PIB.

Ele acrescentou outros pontos em que antevê a possibilidade de insatisfação futura da classe C. Com a ascensão social, o cidadão da classe média popular tende a chegar a um estágio em que já está muito longe do Bolsa-Família e seus rendimentos estão desvinculados das altas do salário mínimo. Por outro lado, essas pessoas não vislumbram muitas chances de que seus filhos passem em concursos cada vez mais concorrido. Assim, o típico cidadão de classe C pode vir a enxergar o setor público como um custo que não o beneficia e desenvolver posições conservadoras.

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