Edifício Ariona cede lugar ao progresso

Aproveitem, é a última. A frasegrafitada e assinada por Alain Del Court, Philippe Fabre eBertrand De Gouttes, na parede do apartamento que dividiram pordois anos, era endereçada aos convidados de uma festa. O eventoencerrou o ciclo de um dos mais charmosos edifícios de São Paulo o Ariona, no número 1.793 da Avenida Paulista. Os amigos, todosfranceses, foram os últimos a abandonar o prédio, que em brevedará lugar a uma moderna torre de escritórios. A festa foibadalada. Mais de 200 pessoas, de várias nacionalidades,dançaram sob o comando de dois DJs. No fim, elas tambémdecoraram as paredes, acrescentando ao primeiro grafite centenasde mensagens em inglês, francês, português e indiano. Uma belacomemoração, mas em estilo diferente das que marcaram a épocaáurea do edifício, nos anos 60. Naquele tempo o Ariona era puroglamour.Projetado em 1953 pelo arquiteto Marjan Ryszard Glogowski econcluído em 1956, o Ariona abrigou a nata da sociedadepaulistana. Famílias tradicionais pagaram o equivalente hoje aR$ 1 milhões, por 1 dos 11 apartamentos de 450 metros quadradoscada. A cobertura, no 12.º andar, era um duplex de 900 metrosquadrados.Ali, quem reinava, ao lado da mulher Antonieta, era Leon Feffer,que foi fundador da Companhia Suzano de Papel e Celulose e líderda comunidade judaica e cônsul honorário de Israel. Suas festasno Ariona entraram para a história por terem convidadoselegantes e serviço impecável. Uma dessas recepções homenageou oentão ministro da Defesa de Israel, Yitzhak Rabin, morto em1995.Felizarda Moraes de Oliveira, de 77 anos, é uma das que nãoesquecem os bons tempos. Ela conta que mudou para o apartamento2 em 1956. "Trabalho para a família Sandoval e vim para cájunto com eles." O jardim na frente do edifício era um dos locais preferidos deFelizarda. De lá ela via os bondes na Paulista, então ocupadapor casarões, enquanto os filhos dos patrões brincavam. O jardimera maior e repleto de ipês, substituídos por concreto nos anos70. "Depois que a avenida cresceu, aumentou a violência e apoluição."Com o tempo, os Sandoval se mudaram e Felizarda ficou só noapartamento de três salas, cinco quartos, uma suíte e trêsbanheiros. "Tomei conta até acertarem a venda." Foi uma esperade dez anos até que surgisse um interessado em pagar R$ 10milhões pelo prédio. No caso, a incorporadora Serplan, quemarcou para 31 de dezembro a saída dos remanescentes.Felizarda, que agora ocupa um apartamento na Vila Nova Conceição diz que não se entristece por saber que o Ariona será demolido."A vida é assim. O prédio envelheceu e os moradores morreram. OAriona estava abandonado. É bom que seja substituído por umedifício mais alegre."Dona de um bufê, Ashraf Klink, irmã de Amyr Klink, tem opiniãosemelhante à de Felizarda. "Todas as coisas tem um tempo certo.O Ariona deixou de ser um prédio feliz, está na hora dedescansar." Ashraf morou 12 anos no edifício. Quando soube queo prédio seria demolido, pensou em tirar algumas fotos pararecordação, mas desistiu da idéia. "Tenho tudo na memória."Os natais em família estão entre as melhores lembranças deAshraf, mesmo porque o prédio era um dos únicos onde se podiaexperimentar os brinquedos sem sair de casa. "Os cômodos eramtão grandes que dava para andar de bicicleta."Notoriedade - Pouco mais velho que Ashraf, Amyr estava maisvoltado para os estudos náuticos do que para as brincadeiras.Uma de suas aventuras rendeu ao Ariona um dos momentos de maiorpopularidade. Foi em 1984. Após concluir a travessia a remo doAtlântico Sul, Amyr tornou-se celebridade, assim como o pequenoParatii, que passou bom tempo na garagem do Ariona. "Vinha gentede todos os lugares querendo ver o barquinho", conta Ashraf.Apesar do pouco tempo no prédio, Alain, Phillipe e Bertranddificilmente esquecerão o Ariona. Lá, o grupo sentia-se a salvoda violência. A fechadura do apartamento 11 quebrou há um ano edesde então a porta ficava aberta. "Vai ser difícil encontraroutro lugar assim", diz Bertrand. A convivência também ficarána saudade. Bertrand está morando com a família, Alain foi parao Itaim e Philippe voltou à França.Tristeza mesmo quem está sentindo é o porteiro Natanael Trajanoda Silva. Após nove anos no Ariona, ele agora está desempregado."Tenho experiência e fé. Acho que logo vou encontrar um novotrabalho. Será meu presente de ano-novo."

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