Egotrip presidencial

O presidente Luiz Inácio da Silva pede calma aos correligionários prometendo entrar em campo depois da Copa do Mundo para dar uma "virada" na campanha de Dilma Rousseff e passa a ordem unida a milhares de trabalhadores reunidos para comemorar o 1.º de Maio: "Vocês sabem quem eu quero."

, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

Não obstante o discurso ao molde de código para fugir à vigilância da Justiça Eleitoral - em tempos distantes Lula nessa data afrontava a durindana -, chama atenção nos dois atos descritos acima a centralidade exclusiva que o presidente atribui ao seu papel no resultado dessa eleição.

Substituindo-se à candidata e ao livre arbítrio de seus admiradores. "Eu quero" tanto pode ter sido uma licença inadequada de linguagem como uma manifestação até involuntária daquela viagem aludida por Ciro Gomes quando, no auge da irritação por ter sido preterido sem aviso prévio, disse que o presidente navegava "na maionese", se sentindo o "todo-poderoso", capaz de simplesmente ungir sua escolhida.

Não há novidade no comportamento autorreferido do presidente Lula, cujo bordão "nunca antes neste País" não só foi incorporado à cena como, a julgar por seus altos índices de popularidade, é muito bem aceito pela maioria.

Isso diz respeito a Lula e ao exercício de seus dois mandatos presidenciais. Um sucesso de bilheteria, nem tanto de crítica, mas questão vencida e resolvida.

O ponto em aberto passou a ser a sucessão. Como Lula escolheu disputar de novo por intermédio de candidata sem histórico político, eleitoral ou partidário, o problema posto inicialmente foi a sua capacidade de transferir votos para Dilma Rousseff.

Lula precisou tomar a frente do processo a fim de transmitir ao eleitor o recado de que era ela a escolhida. Fez isso durante dois anos, desde fevereiro de 2008 quando do batizado da "mãe do PAC", e conseguiu tirar Dilma de 2% para a casa de 30% de intenções de votos nas pesquisas.

Não adianta discutir os métodos. Nessa altura trata-se de examinar os fatos. E estes expõem o seguinte: a oposição à frente nas pesquisas, com uma situação política mais favorável inicialmente, sem que isso tenha tido reflexo comprovado nas intenções de voto. Ainda não saíram novas pesquisas.

Portanto, a vantagem que se observa agora para a oposição pode ou não ter ultrapassado do campo político para o terreno eleitoral.

Ou seja, o presidente se baseia na realidade quando pede que seus correligionários não se deixem tomar pela ansiedade.

Conviria, porém, que ele também contivesse a ânsia do ego inflado e deixasse algum espaço para que as qualidades de Dilma Rousseff aparecessem.

Evidente que o presidente como principal arquiteto da própria sucessão precisa ter papel ativo na campanha. O problema é a calibragem. Saber o momento em que essa atividade ultrapassa o limite e passa a ser uma arriscada hiperatividade.

Por exemplo, quando diz que depois da Copa do Mundo ele entra em campo e tudo se resolve, Lula praticamente está dizendo que Dilma sozinha não dá conta do recado.

Outro exemplo: no afã de ganhar terreno em relação ao adversário - contrariando o apelo à serenidade - acaba criando oportunidades, como aconteceu no 1.º de Maio, de a oposição recorrer à Justiça Eleitoral. E é claro que o risco para o governo é sempre maior, porque se de um lado em tese a posse da máquina pública possa favorecê-lo esse é um fator que o deixa mais vulnerável nos julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral.

Esse tipo de contestação na fase atual, se aceita, no máximo rende multa. Depois do início oficial da campanha pode significar cassação do registro de candidaturas.

Além disso, há carência de celebração à candidata. Até agora não se ouviu de Lula uma explanação séria e fundamentada sobre as razões pelas quais os brasileiros deveriam escolher Dilma para presidir o Brasil.

Seu último pronunciamento sobre isso foi artificial - "se eu soubesse antes que ela era tão boa não teria sido candidato" -, quase jocoso. Seria um bom começo: parar de falar de si, que deixará a Presidência e logo será passado, e começar a falar dela que sinaliza uma representação do futuro.

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