Ela, uma menina. Ele, um homem. Isso dá certo?

Para especialistas, relacionamento entre adolescentes e homens mais velhos não é saudável

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

Amanda* tem 12 anos e desde o ano passado namora Fernando*, de 23. Rosana* começou a namorar Eduardo* quando tinha 12 - ele, 18. Era seu segundo namorado. "Não achei estranha a diferença de idade", conta. "O meu primeiro tinha 22 anos." Sara*, aos 16, é mãe da pequena Soraya, de 2 - e vive com o pai dela, Eliseu*, seis anos mais velho. O namoro se iniciou em 2005. São casos que podem ser comparados ao início do relacionamento de Eloá Pimentel com Lindemberg Alves - quando ela era uma menina de 12 anos e ele, um homem de 19. O que não significa, é claro, que acabem em tragédia. "Cada situação tem sua singularidade", lembra o psicólogo Carlos Eduardo Carvalho Freire, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC). O que os especialistas afirmam, entretanto, é que nem sempre uma relação assim é saudável. "Quando uma menina dessa faixa etária se envolve com alguém mais velho, a relação é baseada em poder, dominação e submissão", diz o psicólogo Ailton Amélio da Silva, autor do livro Para Viver Um Grande Amor e professor da Universidade de São Paulo (USP). No caso de Rosana, moradora de Sapopemba, isso é bem claro. Ela não teve acompanhamento dos pais durante a infância - sua mãe morreu quando a menina contava 6 anos; seu pai se mudou para o Ceará. Vivia na casa da irmã mais velha, casada e com a própria família. Sete meses depois do começo do namoro com Eduardo, engravidou. Acabou indo viver com ele e hoje, aos 16 anos, tem dois filhos. Eduardo, que ganha a vida fazendo bicos como pedreiro, costuma controlá-la com mãos de ferro. Proíbe que saia de casa e não gosta de vê-la conversando com ninguém. Entre um filho e outro, chegaram a se separar. "Trabalhei como marreteira, vendendo doces em ônibus", lembra. Amanda, que vive em Perus, diz que "faz de tudo" pelo namorado. A relação tem a aprovação da família. "No começo, minha mãe achou ruim. Mas agora ele vem em casa e até dorme aqui às vezes." Vêem-se diariamente. Eliseu e Sara, que moram em Sapopemba, se conheceram por meio de uma amiga. "Fiquei com ele para que largasse do meu pé. Ele insistiu por três semanas, dando em cima de mim." Onze meses depois, aos 13 anos, teve de abandonar a 7ª série por causa da gravidez. "Sentia enjôo, mas não achei que estava grávida. Minha mãe armou um barraco e me bateu." Ela não tomava pílula. O casal não se preocupava com camisinha. "Tinha vergonha de ginecologista." Para o psicólogo Ailton Amélio da Silva, a bronca da mãe de Sara veio tarde demais. "Numa situação dessas, os pais têm de conversar. E depois proibir. Elas ainda não têm discernimento. As meninas estão artificialmente sexualizadas por causa da mídia. Aí encontram um adulto com tendências pedófilas e está feita a desgraça." Para ele, nessa fase, "a diferença de idade viola o mundo da criança". Mas por que esses casos parecem mais comuns na periferia? "A classe média é mais controladora com relação a isso", afirma o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, autor do livro O Adolescente em Desenvolvimento e professor da PUC. "Está mais presente na vida dos filhos." E famílias estruturadas tendem a proteger mais os filhos. Ele lembra que amores platônicos de meninas pré-adolescentes por homens mais velhos são comuns. "Um ator, um cantor e até um professor", exemplifica. "Mas são casos que ficam na idealização, apenas." Cruzar essa barreira pode representar um perigo, já que a menina ainda está na fase do "ficar". "Ela não está pronta emocionalmente para uma relação sexual", diz o psicólogo. Programas sociais mantidos por ONGs ajudam a conscientizar adolescentes na periferia. "Aqui a gente fala a língua deles, sobre temas que os pais muitas vezes não conversam", diz a instrutora de jovens Jessica Regina de Oliveira, da Sociedade de Amigos de Bairro do Conjunto Habitacional Jardim Sapopemba. Além de promover discussões sobre métodos anticoncepcionais e doenças sexualmente transmissíveis, a associação, que atende 100 jovens e 136 crianças, distribui preservativos. A gerente do programa de crianças, Elisângela Pereira de Melo, diz que a sexualidade é discutida desde cedo. "Felizmente nunca tivemos adolescente grávida aqui." (* para preservar identidade dos entrevistados, os nomes são fictícios).

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