Ele dá mesa farta e cama feita e, em troca, quer ver arte

Mais de 200 artistas de todo o mundo já se hospedaram no ateliê do mecenas Kim Esteve, na zona sul da capital

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

Um dos maiores mecenas das artes plásticas hoje na capital paulista é, na verdade, um grande anfitrião. A partir da década de 1980, mais de 200 artistas já passaram temporadas - sempre a título de gentileza - no ateliê de Kim Esteve, parte de sua propriedade na Chácara Flora, zona sul. Aos hóspedes, mesa farta e cama arrumada, a troco do simples prazer de estar rodeado dos mais talentosos artistas do mundo. "O mecenato pode assumir várias formas, incluindo o incentivo ao artista para vir ao Brasil. É o que procuro fazer, oferecendo um lugar agradável para que se sinta bem aqui", diz Esteve, um dos maiores colecionadores da arte da década de 1980, com representantes como Rubens Gerchman, Maciej Babinski e Keith Haring no acervo. Considerado uma ponte entre o Brasil e a arte internacional, Esteve já recebeu na mansão nomes de peso, como os artistas Neil Williams, Ivald Granato e Ismael Oliveira. Os pintores José Roberto Aguilar e Wesley Duke Lee, nomes importantes na arte paulistana, também eram figuras carimbadas da mansão da Chácara Flora, palco de badaladas festas da sociedade paulistana desde sua construção, em 1937. Na semana passada, chegaram ao ateliê-galeria - projetado pelo arquiteto Charles Bosworth em 1987, para produção e exposição de obras de arte - os mais novos hóspedes de Esteve: o pintor inglês Tobias Keene, famoso por retratos estilizados de figuras famosas, e sua mulher, a atriz canadense Robbi Chong. "Vieram para a Bienal e para alegrar a casa", afirma um bem-humorado Esteve, integrante do Conselho Internacional do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). "Mas o mecenato clássico continua existindo. Sempre vai haver quem conseguiu quantia suficiente de dinheiro para ajudar outras pessoas a se manifestarem por meio da arte." Para o fotógrafo Eduardo Brandão, da Galeria Vermelho, mais do que apoiar um artista pela capacidade técnica, é importante investir em idéias coerentes com as do próprio apoiador. "Se o investimento for numa idéia, o artista não se sente somente ajudado, mas incluído em um sistema com significado maior", afirma. "Também há muita ajuda mútua, com diversos tipos de troca. Em palestras, um artista cita outro que está começando, por exemplo, ou abre espaço para obras de colegas em exposições próprias." Responsáveis pelo aquecimento do mercado artístico brasileiro no exterior nas últimas duas décadas, para alguns, as galerias também desempenham o mecenato. "De certa maneira, funcionam assim", admite Luisa Strina, que mantém estabelecimento próprio desde 1974. "Afinal, compram obras de artistas que podem levar anos para serem vendidas", argumenta.

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