Ele destruiu a própria vida, diz vizinho do tenente Ghidetti

Militar que entregou jovens mora em casa que surpreende pela pobreza

Marcelo Auler e Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

21 de junho de 2008 | 00h00

A última vez que o casal de aposentados Luzia Ghidetti Moraes de Andrade e Clóvis Antônio de Andrade passou o Natal com os filhos foi em 2006. Pais de militares, eles têm tanta dificuldade para encontrar os rapazes que os freqüentadores da Igreja Matriz de Cobilândia, em Vila Velha (ES), não sabiam que eles tinham dois filhos. O encontro dos quatro pode demorar a se repetir. O tenente Vinicius Ghidetti Moraes de Andrade, de 25 anos, um dos filhos, foi indiciado por homicídio triplamente qualificado, por ter entregue a traficantes do Morro da Mineira três moradores da Providência, onde o tráfico é controlado por facção rival. Está preso numa unidade militar. Desde o episódio, que levou o tenente e dez praças à prisão, Luzia e Clóvis não aparecem na rua de casas humildes, que são inundadas a cada chuva mais forte. Nem mesmo a inquilina, que mora no mesmo terreno de Luzia, sabia que o tenente Vinicius, acusado de ter oferecido os jovens da Providência como "um presentinho" para o tráfico, era o filho de Luzia. O casal é descrito como "muito reservado". Vinicius repete o comportamento dos pais. Ghidetti saiu de casa muito novo - aos 6 anos, diz o advogado João Carlos Figueiredo da Rocha, que o defende, ou aos 14, conforme a memória dos vizinhos de Cobilândia. Mudou-se para a casa de parentes no Rio, a fim de estudar. Em 2002, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, sul fluminense, depois de ser reprovado no vestibular para Direito, na Universidade Federal do Espírito Santo. Escolheu como arma a infantaria. Sua turma de formatura, em 2006, ficou conhecida como Treme Terra. Em 2007, ainda como aspirante, fez o curso de pára-quedista na Vila Militar, em Deodoro, zona oeste do Rio. Em agosto daquele ano, foi promovido a 2º tenente. POBREZAGhidetti ganha cerca de R$ 4 mil, incluindo os 20% a que tem direito por ser pára-quedista. Mas a casa em que ele vive com a mulher, Aline, e o filho, um menino de 2 meses, chamou a atenção dos policiais que cumpriram mandado de busca e apreensão pela pobreza. O militar mora numa meia-água, nos fundos da casa do sogro, numa travessa em Inhaúma, zona norte, entre as favelas Águia de Ouro e Fazendinha. No terreno, ainda estão os tijolos comprados para a reforma da residência do militar. Estacionado junto ao portão, o Celta vermelho 2006, que o tenente comprou financiado. Há roupas penduradas no varal, mas ninguém atende aos chamados. Portas e janelas estão trancadas. "Aline está com medo de reação contra ela e o filho. Eles correm risco de vida", disse o advogado Rocha. "É uma casa muito pobre. Não tem móveis nem mesmo mesa para as refeições. É difícil acreditar que ali vive alguém que recebe R$ 4 mil", comentou um dos policiais que estiveram lá. Na casa, a polícia apreendeu manuais de guerrilha e de montagem de metralhadora ponto 50. E está investigando se ele, em algum momento, deu treinamento a traficantes. Os vizinhos dizem que Ghidetti mudou-se para lá há menos de seis meses. Pouco viam o militar, que se ausentava por conta dos plantões. Vascaíno, vestia o filho com o uniforme cruz-maltino e levava o bebê para tomar sol, quando estava em casa. "É um garoto bacana, calmo, responsável, que acabou cometendo uma bobagem que destruiu a vida dele. É um rapaz muito educado. Chegou aqui na rua há pouco tempo, mas logo fiz amizade com ele. Dizia que o filho também seguiria carreira militar", resumiu o aposentado Agenor Martins, de 76 anos, que mora na casa ao lado.

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