Janete Longo / AE
Janete Longo / AE

'Ele dizia que o toque despertava os sentidos', diz sentença que determinou prisão de Nuno Cobra

Preparador físico famoso por ter treinado atletas como Ayrton Senna foi condenado por violação sexual

Julia Affonso, Fausto Macedo e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2017 | 22h17

A Justiça Federal determinou nesta segunda-feira, 11, a prisão do preparador físico Nuno Cobra, de 79 anos, famoso por ter treinado atletas como Ayrton Senna. Ele foi condenado no último dia 6 por violação sexual e foi detido à tarde por policiais federais.

Segundo decisão da juíza Raecler Baldresca, da 3.ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Cobra tocou nos seios e nas pernas de uma mulher com quem dividia um voo da Gol em 19 de janeiro de 2015, em uma viagem de Curitiba para São Paulo. 

A pena, inicialmente, era de 3 anos e 9 meses de prisão em regime aberto. Mas o Ministério Público Federal pediu a prisão do preparador físico “sob fundamento da garantia da ordem pública” após colher informações que, mesmo após a audiência judicial sobre o caso, Cobra “teria continuado a praticar os mesmos atos pelos quais foi acusado e condenado”: um novo crime chegou ao conhecimento do MPF, que relatou as informações à juíza. “Entendo que a ousadia do réu não tem limites, o que exige sua retirada do convívio em sociedade até que os fatos narrados sejam apurados”, anotou a juíza.

O caso. A vítima, identificada nos autos como R.C.S., relatou à Justiça que conheceu Cobra no ônibus que a transportou do terminal do aeroporto à aeronave. Ela viajava para o Rio, com escala em São Paulo. No início, o preparador fez elogios aos olhos da vítima. Já no avião Cobra foi reconhecido por um homem que se sentaria ao lado de R., e assim conseguiu trocar de lugar e viajar ao lado da vítima. 

Ainda segundo o relato colhido pela Justiça, Cobra passou parte da viagem falando sobre cuidados com o corpo o e sobre “energia” relacionada a partes corpóreas. “Nuno (Cobra) disse que quando a viu subir as escadas sentiu uma energia tão forte em seu corpo que despertou pontos que não sentia há anos”, diz o relato. A vítima, a essa altura já bastante incomodada, afirmou que, após isso, ele começou a tocá-la. “Ele dizia que o toque despertava os sentidos”, diz a sentença. “Nuno também falava da importância do coração e punha a mão em seus seios”, informa outro trecho. 

Assim que o avião se estabilizou, a vítima se levantou e, chorando, foi buscar ajuda com os comissários de bordo - que testemunharam no processo. O rapaz que havia trocado de lugar com Cobra viu a mulher chorando e se desculpou com ela, dizendo que havia feito a mudança porque achou que eles eram conhecidos. 

Depoimento. À Justiça, Cobra reconheceu que tem hábito de tocar nas pessoas enquanto conversa e chegou a se desculpar pelo ocorrido. Mas ele negou a “finalidade libidinosa” de sua conduta, segundo a juíza. 

Cobra disse ser uma “acusação absurda” a afirmação de que ele teria tocado os seios e as pernas da vítima e declarou que R. “estava apreciando muito todo o seu contato porque ela sorria, achou interessante e também tocou nele”. 

A sentença informa ainda que, durante o depoimento, Cobra teria sido alertado sobre como deveria se comportar pelo próprio advogado, porque disse para a juíza “olhar para o lado” enquanto falava, porque “não consegue olhar uma menina, que não tem interesse de conquista”. 

O preparador físico apresentou quatro testemunhas de defesa que atestaram seu hábito de tocar nas pessoas enquanto fala. O delegado da PF que presidiu o inquérito contra Cobra afirmou que não indiciou o preparador físico porque não viu fraude ou impedimento de defesa por parte da vítima. 

Durante a tarde desta segunda, o Estado tentou contato com o criminalista Sergei Cobra Arbex, defensor de Nuno Cobra no caso, mas ele não atendeu o celular nem retornou recado deixado em seu escritório.

Fama após trabalho com Senna. Nuno Cobra foi o primeiro preparador físico de um esportista a se tornar famoso. A profissão de importância fundamental nos bastidores ganhou relevância pela história de transformação construída na década de 1980 com o piloto Ayrton Senna. De um homem franzino e com dificuldades para aguentar uma corrida inteira, o piloto se transformou em um tricampeão mundial de Fórmula 1 com obsessão pela forma física de atleta.

Antes de começar o trabalho com Senna, Cobra já era uma referência na área da preparação física pela aplicação de um método desenvolvido há mais de 60 anos, com base em convicções diferentes das usadas em cartilhas tradicionais. O preparador, por exemplo, prega a execução de trabalhos graduais, sem dor, sem sofrimento, sempre com base na mudança de mentalidade do aluno.

Senna recorreu ao trabalho do preparador no começo da década de 1980 ao entender que precisava melhorar o desempenho físico para conseguir os resultados esperados nas competições. 

Ao estrear na Fórmula 1, em 1984, o piloto precisou ser levado a um hospital após a prova de estreia, na África do Sul. A corrida – mais longa do que as disputadas em categorias anteriores – e a força necessária para guiar um carro mais potente deixaram o brasileiro sem forças para sair do carro.

O incidente serviu para Senna aprimorar o preparo físico, uma decisão repetida por muitos pilotos depois dele. Com o trabalho de Cobra, o tricampeão se transformou em um atleta também fora das pistas, graças à rotina de exercícios e a uma alimentação regrada. 

O trabalho levou outros pilotos a procurarem o preparador, incluindo Rubens Barrichello e o finlandês Mika Hakkinen, bicampeão mundial de Fórmula 1.

 

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