''Ele era um menino bom até domingo à noite'', diz vizinho

Ontem, moradores da CDHU buscavam compreender o ato tresloucado de Alves; cinco bombas caseiras estouraram ao longo do dia na área

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Se ao longo da semana, os vizinhos e amigos do seqüestrador, que morava no bloco 80 do Conjunto de Desenvolvimento Nacional e Urbano (CDHU) Jardim Santo André, o descreviam como um jovem tranqüilo e buscavam compreender seu ato tresloucado, na tarde de ontem, depois do trágico desfecho, os ânimos haviam se invertido. "Ele era um menino bom até o domingo à noite. Depois disso, deixou todo mundo revoltado. Deu a palavra de que não iria ocorrer nada e aconteceu essa covardia", afirmou Paulo Campelo, de 48 anos, rodeado de homens inconformados num bar próximo. "Ninguém mais quer saber dele por aqui. A gente até tentava entender o que se passou: um garoto apaixonado que perdeu a cabeça. Agora que ele fez isso com a menina, vai ter de pagar", disse uma vizinha. Durante o dia de ontem, na frente do bloco 16 do CDHU, a cerca de 300 metros da casa de Alves, ao lado do apartamento onde residia Eloá, de 15 anos, que foi o palco principal do seqüestro de 100 horas, o ambiente estava tenso. Cinco bombas caseiras estouraram ao longo do dia nas proximidades. Uma equipe de TV só permaneceu de plantão no local com o apoio de seguranças privados. Os blocos do CDHU onde viviam Alves, Eloá e Nayara estão localizados em um bairro pobre de Santo André, com ruas estreitas e desestruturadas, repletas de bares no entorno, com um comércio de drogas que fica a poucas ruas de distância de onde os jovens moravam. Neste ambiente, Alves, que trabalhava como funcionário da empresa Cargas e Descargas Alphaville e à noite fazia bicos de entregador em uma pizzaria, não teve dificuldades para conseguir uma arma, mesmo sem nunca ter tido envolvimento com o crime. "Quem nunca pegou uma arma na mão dificilmente pensaria em resolver uma situação à bala. Alguém que já está dentro de uma ambiente violento tem mais probabilidade de fazer algo assim violento", diz a terapeuta de família Lídia Aratangy. Foi a amizade com Douglas, de 14 anos, irmão caçula de Eloá, que permitiu a Alves continuar freqüentando o apartamento da família da menina, mesmo depois do fim do namoro, em agosto. Eloá, porém, recusou todos os últimos agrados feitos por Alves, como o envio de um buquê de flores. "Ele tinha emprego, mas não trabalhava direito havia uma semana. Durante o seqüestro, dizia para a polícia que só confiava no Douglas, mas no fim usou todo mundo", diz o operador de máquina Fernando Pascon Duarte, de 37 anos, que abrigou o pai e a mãe de Eloá durante o cárcere. Além de Douglas, Eloá tem outro irmão, Ronikson, de 19 anos, que serve à Marinha. Os pais de Eloá, aliás, sempre disseram gostar de Alves, mesmo quando a única filha virou refém. Mas viam com ressalvas o fanatismo do jovem pelo São Paulo, time que acompanhava ao lado de torcidas organizadas do ABC. Especialista no comportamento humano, o psiquiatra Jorge Figueiredo acha que o episódio revela um personagem controlador, impulsivo e inseguro. "Eloá tinha 12 anos quando os dois começaram a namorar. Era uma menina, com pouca experiência de vida, numa época em que a personalidade é fácil de ser moldada." A insegurança pode ter aumentado ainda mais o desespero de Alves, quando percebeu que não conseguiria reatar o namoro, e o seqüestro pareceu uma retomada de poder.

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