Ele escreve em todas as linhas

Frederico Barbosa- o poeta da Casa da Rosas, do museu, da biblioteca- continua acreditando na força da poesia

de O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 21h28

O poeta Frederico Barbosa quase não escreve mais. Mas ele continua acreditando na força da poesia. Ele continua poeta. Seu último livro, A Consciência do Zero, foi lançado em 2004. "Aí veio isso aqui", diz, referindo-se à Casa das Rosas – Espaço Cultural Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, sob sua direção desde que foi reaberta há exatos quatro anos. "De lá para cá, devo ter escrito no máximo uns dois poemas. Agora eu faço muita coisa em função da poesia dos outros, do ‘poetariado’ de São Paulo." Ele continua poeta.   Leia abaixo poemas do autor sobre São Paulo:  Do livro Nada Feito Nada (1993) ACONTECE falsa reta instantânea urgenteavenida artéria em curva aprendeem cantar pular pelo canteiroou deitar à noite em pista quentecomo com fome incomum torpedosó a paulista é parte e todo centrolouca completa de tons segredosfala ferve grita abala a gente Do livro Contracorrente (2000) Paulistana de verão brancasegura a saiasurpreendente e mínimacomo quem não se sabe mostrarno calor desacostumadainseguraatravessa a ruarevela-se quasesem quererbeleza ZLdescoladafingida pedradesce da penharetrô querendo-se modernao ventoleva-lhe a quase saiae vê-se a jóiasurpresa lapidada que desaparece na boca quentedo metrô Quando Chove Em São Paulo, quando chove, chovem carros. Tudo pára: pontes, viadutos, Marginais. E a água retoma seu curso original: Anhangabaú, Sumaré, Pacaembu. Ruas onde eram rios, ex-rios, caminhos de rato, canais. Rios sobre ruas, Elevado, Via Dutra, Radial. Em São Paulo, quando chove, chovem apocalipses de quintal. Do livro Brasibraseiro (2004) pernambucano paulistano cada são paulo a que retornotoca tanto que é ruimna marginal eu quase chorosó porque me sinto virpernambucano paulistanocomo tantos por aquitenho-a minha toda e tantoque não a posso possuir mais prazer encontro eu lámorar em são pauloé viver em fugacidade escapista essa sem praiamegavila provincianópoleoxímoro máximo capital do interiora alegria começacomo promessa de norte utópicoquandoa estrada atravessao trópico as cidades e seus donos há cidades desconfiadasimpessoais misteriosas recife são paulo em que se mora por empréstimode aluguel de passagemsem se sentir donocomo inquilino temporáriomas que ninguém tem há cidades que por mistériose entregam por inteirosalvador rio de janeiroem que cada moradoré proprietário verdadeiro em que todo o povo sente-se e afirma-se donoem todo gesto no menor jeito do livro Rarefato (1990) Nudez1984 corpo capaz de revoltaluta fogo fúriafaísca viva:a cidadearquiteta seus planos EP em SPuma traição1982 a aparição dessas multifaces no metrônão como pétalas de chuvamas como arbustos molhados de suor  O ano passado na São Silvestre1986os passos largosjá um tanto lentosna avenida paulistatraduziam em movimentoa agonia final da retafindacírculo sutil fechandoum ciclovento varrendo fermento.  Esquinas das ruas molhadas1984 Do farol,o vermelho se irradiasol.Os olhos fechando na água iluminadafeixes poças poemas. Quasenada.   Av. Brasil, SP1987 flor de farolcolhida às pressasentre o tédio maquinal da marcha lentasinalde diferençaem meio à indiferença metálicadesses corpos impessoaisna agoniada imobilidade densasemáforosigno insanoensaio de abalo sísmicolente de aumentono amor e na impaciência Paralelo enzimático 46o40'nove movimentos pelas ruas de São Paulo1983 I Destes todos poetasde dúvidas e baratosexala um jeito de resto:a gastronomia do gasto.Os que empacam eparam no ato,cortando,retocando o indispensável,cavam a trocado already made (o já era)pelo não desfeito. II noite clara visão subterrâneapenetrantemente longo suoros lábioslambem osbeijos balas e pavorsubvertente corrente paralelacorrida veloz (ruas)cidade rebeldeacabar simcomo camus e james dean III Terroristas em tiroteio:ferida a faca e bala, afala.Poesia em oposição:não maisfrase de efeito sobre o fato,mas fincar, ferir defeitono flagrante da relação.Placa de platina,faca de alumínio,busca de Plutão:deslocar, agravar,falsear. IV quase manhã de dia a dentroreinventandonadaentre memória e lendarespirando rente ao chãopó por entre todos os poroso mau humor deste mundo todosujo e lentofumandobogart e godardentrelaçado inventopaciência de espera lentacético opornadaentre um e outro tempo V Inferir a ordem,inserir, ferir, fincar. VI mundo inundado defilme negro fumaça morcego no arantena de rápido radarandapor ecos ondas e nós VII Incerto errarpor aípercorrendo em paradaseqüidistantes,contínuo equilibrarde inconstâncias.Nada de mágica,muita matemática (furada)forças em fúria ea calma serenado acerto de contas. VIII bocas abertas buracos escurosbecoselos pesadosimpõem lógicaaos sonsordem e revolta atando nóna esperadia áspera visão IX nada de graçagrandes cobrançasmuita memória (depositada)fogos de artifíciogrades, jogos, lembranças, jaulasmultiplicadas feras sonsrotas tiros e metasrajadas faixas quânticaso universoem gotas e comprimidocompreensão nãocorrer sempre percorrernada   De Certa Biblioteca Pessoal 1991 III Volta-me a leituradas placas de rua:"Hospital Infantil""Rua Borges Lagoa".A alegria de lertudo o que passava:luminoso, cartaz, revista,placa de carro, soco de Batman.Independente da voz altado outroque traduziaa voz do heróinos balõesos avisos da cidadenova e embaraçada. Seguir tantas tramasimpressasna rua, nas bancas,nas páginas.Em cada nova leiturauma antiga descobertareverbera.    IV  O menino transplantadoda praiapara um prédio prisãode Niemeyerchora em pânico no cinemacom suas legendas ligeirase sua língua estranha.Ganha sua primeira TV:Lingerie, luta livre, filmes de terror,desenhos dubladossubstituem a liberdadeque ainda não guarda na memória:O mar,o desenho da praia antiga,a casa-navio, o sorvete do Hollidaye o cinema na calçada. V Em Boa Viagem, no Corta-Jaca,a leitura era outra.Dentro do círculo na areiaque meu pai desenhava,eu ficava alegre, obediente.Naquela prisão mentalcercado de sol e vento,o brilho da areia finaera a leitura brancaque hipnotizava.Uma maria-farinha perdidaera o perigo mais temido:o arrecife dobrava as ondase a avenida deserta dormia.Meu pai desenhavaum círculo na areiae ia nadar...Em Boa Viagem, no Corta-Jaca,eu não sabia,a leitura era vasta. VI  Em São Paulo,nem me lembro do frio,aprendi a ler.Aprendi a ficar acordadonoites cobertaslanterna sob o lençol,escondido lendo Dumas,O Pequeno Lorde, de quem será?As aventuras de von Humboldt,Júlio Verne, Lobato,tudo que me escapavada tristeza, da falta do mar,das doenças frias e repetidas.A gota daquele avô,as tolices de Pedrinho,o isolamento de Dantésno meu castelo de If,a voz das tulipas de Dumas,tudo era tão familiar.  VII Certa doença me isolou na biblioteca do meu pai.Lá não havia círculo, nem areia, nem sol,nem arrecife protetor, nem estrela do mar.Havia um livro verde, um livro entre tantosoutros livros ainda distantes, não lidos.Havia um livro verde e grosso, um livroque pedia para ser lido. A lombada convidava:sobre o verde, um arco, branco e promissor.Livro de aventuras de arqueiros vingadores,de damas indefesas, de heróis sobre-humanos.E aquele arco tão bem desenhado, quase harpa,tentando, provocando, tirando o sono no sofá.Ao pegá-lo, o prazer solitário, a esperança.O nome do autor certo cowboy. Três Ys estranhos.Ao abri-lo, a decepção. As letras não batiam.Não formavam palavra. As palavras que nunca vira.A língua era outra e eu não sabia. Não sabianem que havia livros que não podia. Não sabia.Certa doença me isolou na biblioteca do meu pai.  X  E agora era tudo poesia.Poesia em cortesno jornal, nos livros de química,nas aulas maçantes,nos manuais de astronomia.Poesia em coresna caixa preta de tantas viagens,nas ruas de São Paulo,na areia branca de Boa Viagem.Até que o círculo se fechounessa areia transplantada,nesse eco secode nadas.

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