Ele escreve em todas as linhas

Frederico Barbosa, o poeta da Casa das Rosas, do museu, da biblioteca...

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

O poeta Frederico Barbosa quase não escreve mais. Mas ele continua acreditando na força da poesia. Ele continua poeta. Seu último livro, A Consciência do Zero, foi lançado em 2004. "Aí veio isso aqui", diz, referindo-se à Casa das Rosas - Espaço Cultural Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, sob sua direção desde que foi reaberta há exatos quatro anos. "De lá para cá, devo ter escrito no máximo uns dois poemas. Agora eu faço muita coisa em função da poesia dos outros, do ?poetariado? de São Paulo." Ele continua poeta. Leia poemas do autor sobre São PauloNão é pouca coisa. Os cursos realizados até hoje na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, somam um total de 9 mil inscritos. Por ali, saraus e lançamentos de livros são constantes - na última terça, a entidade inaugurou uma livraria especializada em poesia. A Poiesis, organização presidida por Frederico, também administra o Museu da Língua Portuguesa, sucesso de público e de crítica, na Luz; a Casa Guilherme de Almeida, que deve ser reaberta no ano que vem como museu literário, em Perdizes; e o projeto cultural São Paulo: Um Estado de Leitores. Há dois anos, o poeta foi curador da Biblioteca Alceu de Amoroso Lima, em Pinheiros - transformou-a na primeira das bibliotecas temáticas da Secretaria Municipal de Cultura, um espaço dedicado à poesia. "Acredito realmente que a literatura pode ser boa para a vida das pessoas", afirma. Ele continua poeta. Um fabricante de poetas. Nascido no Recife em 1961, Frederico Barbosa sempre viveu no meio dos livros. Seu pai, João Alexandre Barbosa (1937- 2006), foi um importante crítico literário brasileiro e tinha uma biblioteca particular de cerca de 20 mil títulos. "Ele era uma das pessoas mais cultas que este país já teve", elogia Frederico. "A literatura esteve presente até na escolha de meu nome, uma homenagem ao poeta Federico García Lorca." Em 1967, convidado pela Universidade de São Paulo (USP), mudou-se para a capital paulista."Foi um choque. Lá eu morava de frente para o mar. Aqui fomos para a Avenida São Luís", lembra, contando que depois se mudaram para a Vila Madalena e, em 1971, para a Rua Monte Alegre, em Perdizes, onde sua mãe mora até hoje. Adolescente, foi um fanático torcedor do Palmeiras. E assim, entre idas ao Parque Antártica e a adoração aos livros do pai, fez-se poeta. Era década de 70 e o alviverde desfilava em campo sua "segunda academia", um time regido pelo talento de Ademir da Guia. "Meu maior ídolo na face da terra", exagera. Em 1975, o poeta João Cabral de Melo Neto (1920- 1999) publicou um poema chamado Ademir da Guia, no qual exaltava o ritmo próprio do craque. "Achei aquilo maravilhoso. O cara reproduziu direitinho o movimento do Ademir", recorda-se, recitando-o ("Ademir impõe com seu jogo/ o ritmo do chumbo (e o peso),/ da lesma, da câmara lenta,/do homem dentro do pesadelo..."). "Eu ia para o estádio, via o Ademir jogar e me lembrava do poema. Foi aí que comecei a escrever também."Mas até o primeiro livro ainda haveria muito. Frederico foi estudar Física na USP e ensinava Matemática no Colégio São Domingos, em Perdizes, quando, em 1981, decidiu largar a faculdade. "Continuei dando aulas à tarde, mas comecei um projeto pessoal de ler uma peça de teatro por dia", relata. Acabou não embarcando no teatro. Preferiu cursar Letras, no ano seguinte, especializando-se em Grego. O jovem professor de Matemática mudou de time e abraçou a Literatura. Passou pelos colégios Equipe, Logus e Anglo, em 20 anos de magistério. Em 1990, lançou Rarefato. Depois vieram Nada Feito Nada (1993), vencedor do Prêmio Jabuti, Contracorrente (2000), Louco no Oco Sem Beiras (2001), Cantar de Amor Entre os Escombros (2002), Brasibraseiro (2004) - em parceria com Antonio Risério, terceiro colocado no Jabuti - e o já citado A Consciência do Zero (2004). Quando foi convidado para dirigir a Casa das Rosas, em 2004, precisou deixar de lado a carreira de professor. O desafio de reorganizar o espaço e transformá-lo em um centro cultural dedicado à poesia era maior ainda a ele, pela ligação afetiva com o poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003) - a biblioteca de 20 mil volumes que pertenceu ao intelectual acabou cedida à instituição. "Ele freqüentava a minha casa desde que eu era pequeno", lembra, com voz indisfarçavelmente comovida. Quatro anos depois, a Casa das Rosas se tornou ponto de encontro de poetas e o acervo de Campos está totalmente catalogado e informatizado. Apesar de não ter nascido na capital paulista, Frederico se considera um legítimo paulistano. "Sou absolutamente apaixonado por São Paulo", não se cansa de repetir, com a autoridade de quem viveu a maior parte do tempo aqui e o conhecimento de quem passou algumas temporadas no exterior. "Aqui é a metrópole da diversidade no mundo. Não existe cidade mais plural do que esta."Desde 1988, mora em um apartamento na Rua Caetés, em Perdizes - de 1993 para cá, com sua segunda mulher e a filha dela. No tempo livre, passeia pelo bairro: Parque da Água Branca, restaurantes das redondezas e um cineminha no Shopping Bourbon Pompéia - de madrugada. "Gosto de pegar a sessão da meia-noite", conta. "Qualquer filme, só pelo prazer de ir ao cinema."Ele já exprimiu o amor por São Paulo em diversos de seus poemas. Em Pernambucano Paulistano, por exemplo, escreveu: "cada são paulo a que retorno/ toca tanto que é ruim/ na marginal eu quase choro/ só porque me sinto vir". Referia-se a uma vez que voltava, de carro, de Tamandaré, cidade litorânea de Pernambuco onde havia passado as férias. "Quando cheguei à Marginal, senti aquela poluição fedorenta e vi aquele tempo horroroso", lembra. "Liguei o rádio e começou a tocar Sampa, de Caetano Veloso. Meus olhos ficaram marejados." Ao lado, sua mulher - paulistana - perguntou se ele estava chorando de tristeza por voltar ao caos. "Não", respondeu. "É emoção. Esta é minha cidade. Que cidade linda!"E é com essa devoção que ele diz, discreto, em tom de confidência, que a única honraria que gostaria de ganhar é o título de "cidadão paulistano". "Nenhuma outra comenda. O resto é tudo uma grande bobagem."

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