''Ele não suportou a perda de poder na relação''

Especialista afirma que, no amor, ninguém está imune a cometer um ato extremo, como o de Lindembergue Alves

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

16 Outubro 2008 | 00h00

A terapeuta de família e escritora Lídia Aratangy diz que o seqüestro de Eloá nada tem a ver com amor, mas com o vínculo patológico que ela estabeleceu com o namorado. Vai além: "Todos têm probabilidade de cometer uma loucura." Segundo ela, os solitários correm mais riscos. A seguir, trechos da entrevista que concedeu ao Estado. Cobertura online e todas as notícias sobre o seqüestro Podemos chamar isso (o crime) de uma loucura por amor? Já não é uma reação amorosa, mas uma reação à ferida narcísica. Ele não suportou a perda do poder que tinha na relação. Então ele não está sofrendo por uma perda amorosa? Não era a primeira vez que ele rompia, mas desta vez Eloá cortou o círculo vicioso da relação, que parecia um ioiô. Ela não aceitou voltar. Pior, colocou alguém no seu lugar. Ele não soube lidar com a perda? Romper e reatar pode ser normal. Mas cinco vezes não é. O que lhe dói é se ver rejeitado e não ter poder para reatar. Esse casal já estava num jogo de poder que introduz uma patologia no vínculo amoroso. Qualquer um pode chegar a isso? Quando se fala de amor, somos todos malucos. Qual é a diferença? Há canais mais elaborados para expressar as dores. Tem gente que fica com raiva do chefe e dá um soco na mesa. Outros, na cara dele. Depende da história de vida e das oportunidades que cada um teve para desenvolver esses canais. Como eles são desenvolvidos? Ter uma auto-imagem positiva ou ampliar o repertório emocional pelo contato com a arte (romances e peças de teatro). Quando não se desenvolvem canais elaborados, o extravasamento se dá por canais primários. E isso significa atitudes extremadas como esse seqüestro. Indivíduos com melhor preparo emocional são menos propensos a esses rompantes? A cultura não garante canais adequados, que têm a ver com a história de cada um. Quem vive num ambiente de violência está mais sujeito a dar respostas violentas. Quem nunca pegou uma arma dificilmente pensaria em resolver a situação à bala. Probabilidade de cometer loucura todos têm, maior ou menor. Trate de se cuidar. Não tenha arma em casa, por exemplo. Não me refiro a casos de psicopatologias genéticas. Então, qualquer um pode tomar uma atitude extremada? Todo mundo tem um pouco de loucura. Tem o louco manso, que acha sempre que a crise vai passar. Tem o raivoso, que só vê dois caminhos: fica comigo ou morre - ele desconsidera a realidade do parceiro. Esse moço nega que a namorada é um ser à parte, com desejos e interesses próprios. Todos fantasiam um pouco a vida. Inventamos que o parceiro é nossa metade da laranja e isso dificulta a cicatrização da ferida. Há jeito de se prevenir? É importante conhecer suas fraquezas e recursos. Saber que há uma besta primária lá dentro ajuda a evitar que ela assuma o comando. Pessoas solitárias ficam mais vulneráveis a cometer loucuras. Os amigos ajudam com críticas. Será que ninguém sinalizou a Eloá que um relacionamento que se rompe tantas vezes tem algo errado e já ultrapassou o universo do amor?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.