Ele não tem hora para cobranças

Obstinado, detalhista e pessimista, mas não controlador. Solidário, porém ríspido, quando contrariado por opiniões pouco fundamentadas. Manifesta aversão - de maneira explícita - quando os interlocutores não estão preparados para o debate, tentam argumentar e ele fica diante da situação que mais detesta: sendo enrolado.

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

É dessa maneira que aliados, colaboradores e amigos de longa data de José Serra definem o candidato à Presidência da República pelo PSDB no ambiente de trabalho. A maioria também diz que o tucano é extremamente preocupado com a imagem pública.

Durante os 15 meses em que esteve na Prefeitura de São Paulo e nos mais de três anos no Palácio dos Bandeirantes, Serra imprimiu seu modo de gerir não só no andamento da máquina governamental, mas também na relação com os funcionários. Parte desse modus operandi entrou para o folclore político, como os atrasos nas reuniões e os e-mails na madrugada cobrando providência dos assessores.

Na rotina do governo, o tucano demonstrou características herdadas do tempo em que foi secretário de Planejamento de Franco Montoro (1916-1999), como as reuniões em pequenos grupos, sempre em torno de temas específicos. Quando prefeito de São Paulo, comandava reuniões praticamente mensais com os subprefeitos. Em uma delas, logo no começo da gestão, os presentes reclamavam da falta de interlocução com a secretária de Serviços, Maria Helena Orth, que fora chamada às pressas por Serra para responder às reclamações.

Ao término do encontro, os subprefeitos pediram a ela o celular para tratar dos assuntos pendentes. Ela se recusou a dar. Foi a deixa para Serra: "Ela não pode dar? Então anota o meu aí." Constrangimento geral. "Ele cobra, mas dá autonomia também. Quer que as coisas aconteçam", disse Laert de Lima Teixeira, ex-subprefeito de Itaquera.

"Não aprendeu?". Em uma das reuniões de emergência que convocou discretamente no Palácio dos Bandeirantes para tratar de enchentes, cobrou a implementação de um projeto rápido de drenagem. Ouviu de uma secretária que o processo estava em curso, mas demorava um tempo em razão da burocracia. Rebateu: "Contrata por emergência, ou você não aprendeu a fazer isso?"

O governo Serra foi amparado por dois "generais": o então secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, no front político, e o de Planejamento, Francisco Luna, no técnico. Na composição do secretariado no governo paulista, ele mesclou técnicos e aliados de longa data com indicados políticos, deu poder aos secretários para escolher os subordinados, inclusive diretores financeiros de empresas. As cúpulas, no entanto, foram submetidas a ele e a Aloysio.

O uso do gerúndio, contam secretários, tirava Serra do sério. "Gerúndio, comigo, não dá certo", respondeu ao receber como resposta um "está sendo providenciado", contou um assessor.

Hoje, na campanha, um colaborador do candidato admitiu que "pouca gente, temendo a reação, fala a verdade para o Serra". Quem conhece o tucano há mais tempo diz, porém, que, "diferentemente do que as pessoas imaginam, ele acata novos argumentos quando bem fundamentados."

Comparação. Alguns servidores que conviveram com ele nos ministérios, em Brasília, fizeram para o Estado uma comparação entre Fernando Henrique Cardoso e Serra. "Na convivência e discussões administrativas, Fernando Henrique dava mais liberdade de dizer as coisas", afirmou um ex-assessor do Planejamento. "Ele (Serra) tende a inibir os interlocutores, mas, quando sente firmeza na fundamentação, vira aliado da proposta, por mais desafiadora que seja", resumiu outro ex-assessor, mas do Ministério da Saúde.

Nas reuniões palacianas, Serra costumava dizer que sua equipe era composta pelo grupo dos "otimistas" e pelo dos "pessimistas", do qual fazia parte. Não era raro o ex-governador jogar um balde de água fria em algum secretário, soltando um "não vai dar certo", diante de determinada proposta. Assessores e secretários são unânimes em dizer que Serra não é centralizador - quando acredita no projeto, dá autonomia.

Durante as reuniões no palácio ou na prefeitura, o tucano pedia para chamar quem pudesse ajudar a resolver um problema.

Muitas vezes, um secretário que não estava no palácio era convocado às pressas. E uma reunião que começava com oito pessoas terminava com 16.

Notívago. Serra costuma dizer no Twitter que faz parte da "Liga dos Indormíveis". Ainda assim era raro, como governador, ligar para um aliado depois da meia-noite. Os e-mails, no entanto, eram enviados a noite toda, por ele mesmo. Se percebesse a presença online, aí, sim, não hesitava em ligar.

Serra chega a telefonar diretamente para um assessor ou parlamentar para reclamar de declaração lida na imprensa. No governo, com frequência, elogiava secretários que estavam aparecendo bem nos jornais. E também cobrava os que não mostravam jogo de cintura. / COLABOROU RUI NOGUEIRA

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