Eleição da web não rolou

A "eleição da internet" não aconteceu. Quem sabe em 2012, quiçá 14. A rede teve atuação periférica durante a campanha política e não houve assessor do presidente Barack Obama que desse jeito. De surpreendente, na web, só a atuação de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL).

PEDRO DORIA, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

Mas, para entender o porquê, é necessário antes compreender em que a campanha presidencial de Obama, em 2008, foi excepcional. Naquele pleito, o candidato republicano da situação, John McCain, tinha poucas chances. A economia emburacava - fatal para qualquer candidato governista - e George W. Bush já acumulava a impopularidade por conta do Iraque. A campanha decisiva não foi a travada entre Obama e McCain. Decisiva foi a disputa interna do Partido Democrata que decidiu o candidato.

As eleições primárias de ambos os partidos, nos EUA, seguiam uma mesma fórmula fazia quase um século. Quem controlava a máquina partidária nos Estados conseguia levar mais militantes às urnas. Num país em que o voto não é obrigatório, convencer eleitor a votar em pré-eleição é arte que só poucos caciques locais dominavam.

A então senadora Hillary Clinton tinha a máquina nas mãos. Foi uma relação costurada com benesses desde os tempos em que o marido foi presidente. E, se as regras de sempre tivessem valido, Hillary hoje sentaria à cadeira do Salão Oval. Essa era a aposta da imprensa americana.

A equipe digital de Obama, vinda de uma derrota com o candidato Howard Dean, em 2004, conseguiu perturbar esse processo. Tinha nas mãos um imenso banco de dados com os contatos de cidadãos que, embora não militassem no partido, manifestaram de alguma forma interesse em participar.

De posse de dados demográficos, compreendiam onde Hillary era mais forte e, portanto, em que condados deveriam mobilizar mais gente. Não foi uma campanha feita na base de mensagens no Twitter. O jogo com redes sociais era sofisticado, por vezes caótico. Mas eles conseguiram mobilizar, via internet, gente o suficiente para garantir a vitória decisiva contra a atual secretária de Estado. Vitória por um triz.

Nada do tipo ocorreu no Brasil em 2010. Um dos motivos é que a penetração da internet de banda larga, aquela que as pessoas realmente usam, é muito menor. Não há eleitores o suficiente online para fazer uma grande diferença.

Ainda assim, poderia ter sido diferente. A internet exige espontaneidade e é da sua natureza que, vez por outra, candidatos saiam do script. A candidata Dilma Rousseff (PT) chegou a dar uma entrevista em vídeo online, o mesmo foi feito pelo vice de José Serra (PSDB), Índio da Costa (DEM). Em ambos os casos, a turma do marketing entrou em pânico e tratou de calar a voz digital. Depois, nunca mais.

Num tempo em que câmeras digitais que filmam são baratas o suficiente para se espalhar por todo o País, havia a perspectiva de que flagrantes ocorressem. O vacilo de um candidato em discurso, um raro momento de franqueza flagrado por eleitor anônimo. Nada do tipo, no entanto, ocorreu.

Quando não foi convidado para o debate entre os presidenciáveis de um portal da internet, o socialista Plínio Sampaio soube usar a rede. Mobilizou seguidores via Twitter para seguirem seus comentários em vídeo para o debate que ocorria ao vivo. Plínio resmungou, foi sarcástico, agiu como hacker no sentido original do termo. Ou seja: aquele que consegue perturbar a ordem estabelecida sendo engenhoso tecnicamente.

Nas últimas semanas, a rede também serviu para a circulação de vídeos via YouTube com depoimentos de pastores evangélicos contra Dilma. Podem ter contribuído para sua queda nas pesquisas.

Foram pontos fora da curva.

O Twitter foi a ferramenta mais badalada, e marcou a campanha por pelo menos um furo. O presidente do PTB, Roberto Jefferson, anunciou por ali que Serra havia escolhido o senador tucano Álvaro Dias para seu vice. Deu em crise com o DEM.

Mas o Twitter terminou se mostrando uma boa ferramenta informativa dominada por um pequeno grupo de militantes engajados, políticos e jornalistas profissionais. A exceção foi o rapaz anônimo que tinha acesso e divulgava a audiência de TV durante os debates. É pouco.

Quem sabe na próxima.

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