Eleição mostra que o ´rouba, mas faz´ ainda é aceito, diz ONG

O escândalo do dossiê pode ter prejudicado a votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas os resultados gerais das eleições de domingo indicam que a mentalidade do ?rouba, mas faz? ainda tem uma forte aceitação no eleitorado brasileiro. A avaliação foi feita em entrevista à BBC por Silke Pfeiffer, diretora regional das Américas da Transparência Internacional, organização que se dedica ao combate à corrupção.?Se olharmos o comportamento dos eleitores em relação a deputados, senadores, etc., não podemos dizer que os eleitores puniram candidatos com acusações de corrupção?, diz ela.?Quase 20% de todos os candidatos a deputados federais eram acusados de corrupção, o que é um número dramático?, afirma. ?Esperávamos que os eleitores brasileiros punissem sistematicamente esse tipo de comportamento, mas isso não tem acontecido.?Pfeiffer cita como exemplos os casos do ex-presidente Fernando Collor de Mello, afastado da Presidência em 1992 após um escândalo de corrupção e que foi eleito no domingo ao Senado por Alagoas, e do ex-governador Paulo Maluf, que esteve preso no ano passado acusado de lavagem de dinheiro e corrupção e que foi eleito deputado federal com a maior votação individual do país.?Acho que os eleitores estão cientes dos problemas de corrupção, mas há uma mentalidade muito perigosa de ?rouba mas faz?. Isso é realmente muito perigoso e precisa ser combatido?, avalia Pfeiffer.´Rouba, mas faz miséria´ Para ela, é necessário ?mostrar aos eleitores que a corrupção não é um mal necessário e que pode ser combatida?. ?Temos que mostrar que ?rouba, mas faz? significa na verdade ?rouba, mas faz miséria??, diz.Para a representante da Transparência, o combate à corrupção é essencial para permitir o combate aos demais problemas que países como o Brasil enfrentam, como a pobreza, a violência e a geração de empregos. ?São bilhões de dólares de recursos perdidos. O governo precisa ser pressionado para entender que tem um claro interesse em combater a corrupção se quiser resolver as outras questões?, afirma Pfeiffer.Pressão Para ela, a pressão dos eleitores é importante para mudar a situação, mas também é possível haver pressão externa. ?Várias pesquisas internacionais já mostraram que a corrupção afasta investimentos?, comenta ela.Além disso, avalia Pfeiffer, os organismos internacionais de financiamento deveriam favorecer os atores sociais comprometidos com o combate à corrupção. ?As agências de financiamento deveriam ficar mais atentas a quem emprestam o dinheiro e ter meios de controle. Há muitos meios para moldar a ajuda internacional e recompensar aqueles que realmente têm interesse em mudar alguma coisa. Desta forma, pode-se gerar incentivos para mudanças?, afirma.Para ela, o atual governo não adotou medidas para punir e prevenir a corrupção. ?O combate à corrupção é sempre um grande slogan em campanhas eleitorais e serviu em campanhas eleitorais prévias de Lula?, diz ela. ?Ele até mesmo assinou comprometimentos muito concretos com a Transparência Brasil (seção brasileira da Transparência Internacional), mas implementou realmente muito poucos deles?, afirma.

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