Eleição opõe esquemas políticos atrasados no Estado mais novo do País

Exército tenta conter tensão entre aliados de Carlos Gaguim, suspeito de corrupção, e do 'eterno' Siqueira Campos

João Domingos, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

Mesmo na condição de mais novo Estado do País - acabou de chegar à maioridade de 21 anos -, Tocantins continuará a ser governado por um esquema político atrasado, qualquer que seja o vencedor das eleições deste domingo. Outra certeza é a de que a disputa acaba hoje: há apenas dois candidatos ao governo.

Se o vitorioso for Siqueira Campos (PSDB), voltará ao poder pela quarta vez um político que mistura coronelismo e messianismo. Se for Carlos Gaguim (PMDB), Tocantins corre o risco de ter um governador cassado - ele é suspeito de ligação com um grupo envolvido com desvio de verbas em prefeituras. Segundo a pesquisa Ibope divulgada ontem, tudo indica que Siqueira deve ser o vencedor, com 52% dos votos válidos - Gaguim deve ficar com 48%.

Com tropas do Exército em nove municípios, entre eles Palmas, o Estado vive um clima de radicalização. A tentativa de apreensão da revista Veja da semana passada por parte do governador e a ameaça cada vez mais presente de confronto entre cabos eleitorais foram os fatores que mais pesaram na decisão do Tribunal Regional Eleitoral de solicitar tropas federais. Em alguns locais, como Araguaína (a 380 quilômetros de Palmas), as tropas farão papel de polícia, com ocupação das ruas, segundo o 22.º Batalhão de Infantaria.

Crimes eleitorais. A Polícia Federal também foi acionada. Desde quarta-feira 20 equipes percorrem o Estado, para prevenir crimes eleitorais. Proporcionalmente, segundo a PF, Tocantins é o Estado com maior número de indiciamentos por esse tipo de delito no País. Também é líder em porcentual de filiados a partidos. Um em cada quatro eleitores é filiado a alguma legenda, o que estimula a radicalização.

Os candidatos só contribuíram para aumentar a tensão no último debate, na terça-feira. Trocaram acusações pessoais e de desvio de dinheiro público. Nos momentos de calmaria, Gaguim chamou Siqueira Campos de "ditador"; este respondeu que o adversário "não é uma pessoa honrada".

Siqueira governou o Tocantins de 1989 a1990, de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002. Com exceção de Moisés Avelino (PMDB), eleito em 1990, todos os outros governadores contaram com seu apoio, mesmo que tenham virado desafetos, como Gaguim e Marcelo Miranda (PMDB), cassado no ano passado por compra de votos. Avelino, que quase foi cassado, hoje está com Siqueira.

A influência do ex-governador é tamanha que o senador João Ribeiro (PR) precisou compor com ele para ter chance de reeleição. De acordo com o Ibope, deve ser reeleito com 31% dos votos, ante 27% de Miranda.

Nascido no Crato (CE), Siqueira, de 82 anos, construiu sua base política em Colinas do Tocantins, 270 quilômetros ao norte de Palmas. Foi deputado federal por Goiás de 1974 a 1989, quando se elegeu o primeiro governador do Estado. A criação do Tocantins foi sua grande bandeira na Assembleia Constituinte, durante a qual fez até greve de fome.

"Os líderes políticos de maior expressão do Tocantins que nascia eram políticos enraizados em Goiás. Eles tiveram mais condições de disputar e vencer as eleições, organizar a infraestrutura jurídica e legal e estabelecer suas bases", diz o médico Eduardo Manzano, que se mudou de São Paulo para Porto Nacional (a 50 km de Palmas) em 1978 e se envolveu nas questões relativas à luta pela criação do Estado.

História. O movimento separatista remonta a quase 200 anos, quando a Província de Goyaz tinha capital em Vila Boa (hoje, Cidade de Goiás), de acordo com documento do Tribunal de Justiça do Tocantins. "Atribui-se esse movimento à insatisfação do norte com o governo e os homens de Vila Boa. Eles cobravam impostos no norte e os gastavam no sul, sem fazer nenhuma benfeitoria na região", diz Manzano.

Havia grande distância entre o norte - a parte que formou o Tocantins é do tamanho da Alemanha - e o sul. Com isso, os nortistas se identificavam mais com Bahia, Maranhão, Piauí e Pará. A população era diferente até na cor: pardos ou pretos eram maioria entre nortistas; sulistas tinham predominância branca.

Em 1821, um movimento proclamou em Cavalcante (que fica em Goiás, perto do Parque da Chapada dos Veadeiros, a 500 km de Goiânia) e depois em Natividade (a 230 km de Palmas), um governo autônomo do norte do Estado, que não prosperou.

Passados 52 anos, surgiu a proposta de criação da Província de Boa Vista do Tocantins, rejeitada pelo Império. Em 1956 um Manifesto à Nação lançado em Porto Nacional revigorou a luta separatista. Em 1972, foi apresentado à Câmara dos Deputados o Projeto de Redivisão da Amazônia Legal, do qual constava o desmembramento do Tocantins. Mas foi só em 27 de julho de 1988 que a Constituinte criou o Estado.

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