Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Eleitor das cavernas

Nosso cérebro não consegue rodar softwares sofisticados que dão conta da realidade

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2018 | 06h51

É difícil ser essa espécie de macaco civilizado. Nós passamos centenas de milhares de anos como caçadores-coletores antes de - muito recentemente - desenvolver a agricultura e chegar à complexidade do mundo de hoje. Por causa disso, nosso cérebro continua sendo praticamente o mesmo dos homens das cavernas. E, sem upgrades, não consegue rodar os softwares muito mais sofisticados que seriam necessários para dar conta da nossa realidade.

Isso afeta desde problemas como obesidade até questões geopolíticas. A xenofobia é um excelente exemplo. Imagine um pequeno grupo de seres humanos continuamente buscando comida e abrigo de lugar em lugar. Os vínculos entre eles tinham de ser fortes, tanto em termos de cooperação como afetividade, sob risco de extinção do grupo. É bem provável que houvesse alguns clãs de egoístas desalmados - eles só não sobreviveram para deixar descendentes.

Mas, para a sobrevivência, ficar perto dos seus parentes era importante na mesma medida que ficar distante de grupos externos. Outros hominídeos no mesmo espaço representavam competição por recursos escassos, para começo de conversa. Mais do que isso, como não interagiam muito, as pessoas carregavam carrapatos e parasitas próprios - entrar em contato com os outros representava também ameaça à própria saúde. E, assim como os desalmados foram extintos, não é impossível imaginar que nossos antepassados que não tinham essa aversão ao diferente também foram prejudicados na luta pela sobrevivência. Sim, somos descendentes de rematados xenófobos. Mas não desista de ler nesse ponto, imaginando que eu esteja assim justificando o preconceito, fechamento de fronteiras ou banimento de imigrantes.

Ao contrário, esse mecanismo, que fazia muito sentido no contexto daquelas eras, hoje não tem razão de ser. Na aldeia global que construímos, o mais vantajoso tornou-se o contrário: interagir e colaborar não só com os do nosso grupo próximo, mas com a multiplicidade de pessoas que constituem nossa rede chamada humanidade. Apenas que para tanto é preciso fazer força e pensar além dos instintos, colocar a parte mais sofisticada do cérebro para funcionar.

Um estudo publicado ano passado mostrou que fenômeno semelhante ocorre com a desigualdade. Quando somos perguntados diretamente, todos condenamos a desigualdade, claro. Conseguimos refletir sobre os recursos existentes, sobre as carências das pessoas, temos empatia por elas e somos praticamente unânimes em advogar por sociedades mais igualitárias. Psicólogos da Universidade de Yale se perguntaram, então, porque, apesar disso, o mundo - e a maior parte dos países - é tão desigual.

Eles descobriram que, na verdade, não existe um instinto humano que condene a desigualdade, e sim a injustiça. Nós só nos incomodamos com cenários em que os recursos são distribuídos de forma desigual se achamos que não existe motivo. Mas os experimentos mostram que desde crianças acreditamos que deve haver justiça no mundo - o que poderia justificar a desigualdade. Se meu amiguinho foi mais generoso comigo do que os outros no passado, tudo bem dividir minhas figurinhas de forma desigual, privilegiando-o.

Na minúscula sociedade de caçadores-coletores era mais fácil, quando a desigualdade era quase uma forma de fazer justiça. Não seria certo dividir a comida com quem nunca ajudava na coleta, por exemplo.

Em nosso mundo mais complexo, no entanto, as coisas não são mais tão simples. Por várias razões, nem sempre as pessoas - mesmo querendo - serão capazes de contribuir igualmente. Nosso impulso nos leva a querer tratá-las de forma desigual, restaurando a justiça. Mas, assim como no caso da xenofobia, nem sempre o que era bom para nossos antepassados é bom para nós.

Pensei que seria importante dividir essas reflexões no dia da eleição. A estratégia mais eficaz para angariar votos, afinal, é driblar nosso custoso raciocínio apelando a medo, preconceito, escassez, injustiça. Vale acionar qualquer sinal de alerta e se mostrar como um antídoto. Porque no fundo de cada eleitor mora um homem das cavernas pronto para obedecer aos seus instintos mais primitivos diante das urnas.

*É PSIQUIATRA

Mais conteúdo sobre:
eleições 2018

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.