'Eleitor já sabe que voto muda sua vida'

Responsável por pesquisas eleitorais diz que continuidade de projeto pesou[br]mais que biografias

Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

ENTREVISTA

Márcia Cavallari, diretora executiva do Ibope

Com a autoridade de quem tem instrumentos precisos para observar as tendências e transformações do eleitorado, a diretora executiva do Ibope, Márcia Cavallari, afirma nesta entrevista que os brasileiros aprenderam a usar o voto para transformar sua realidade. A seguir, os principais trechos:

A eleição teve duas variáveis claras na decisão do voto, uma regional e outra socioeconômica. O que pesa mais, o lugar onde a pessoa mora ou o estrato social em que está inserida?

É mais uma questão de pobreza e riqueza que de geografia. Se fizermos o mapa do voto no município de São Paulo vamos ver as bordas da periferia votando em Dilma Rousseff e áreas mais ricas votando em José Serra.

Sempre se criticou no Brasil o fato de se votar na pessoa, no líder carismático, no populista. Essa foi uma eleição sem líderes e sem carisma. É um avanço?

O eleitor está aprendendo o que é democracia com o exercício do voto. Ele foi votando, errando, acertando, e com isso começou a ver que o voto faz diferença na vida dele. As pessoas veem o voto como ferramenta real para melhorar a vida. Isso faz com que haja cada vez mais pragmatismo na hora de escolher um candidato ou outro. O que estava por trás dessa eleição era a continuidade de um projeto de governo.

Daí o insucesso da estratégia da comparação de biografias?

Isso não contou muito. O que contou mais foi o projeto. O candidato que conseguiu convencer o eleitor de que esse projeto iria para frente foi vitorioso. Se não fosse a Dilma, seria eleito de qualquer maneira.

Pessoas que estão ascendendo economicamente votaram no PT. Quando chegarem à classe média, continuarão votando assim ou trocarão de partido?

Isso depende do candidato. Em 2002, o Lula foi votado de forma homogênea por todas as classes. Não teve essa questão de Nordeste, Sul, Sudeste. Em 2006 já houve essa clivagem. Se as pessoas melhorarem de vida e cair a desigualdade social, outras demandas serão colocadas, e os candidatos terão de dar respostas a elas. Mas o que o eleitor já conquistou está conquistado, não se aceita retrocesso.

O Bolsa-Família vai ser sempre uma ferramenta de voto de candidatos petistas ou tende a perder importância ao longo do tempo?

Nas pesquisas, as pessoas dizem que o Bolsa-Família tem papel importante, mas não pode ser eterno, pois as pessoas se acomodam. Com mais oportunidades de emprego, tende a diminuir a importância do programa. Em 2006, a cobertura do Bolsa-Família teve altíssima correlação com o voto no Lula. Depois, mais programas atingiram outras pessoas, como a ampliação do crédito, o ProUni. Essa correlação já não se dá apenas com o Bolsa-Família.

A internet poderá vir a ser o grande canal para avaliar a opinião do eleitorado?

No futuro poderemos fazer pesquisas pela internet. Hoje, a única metodologia que assegura a representatividade de todos os eleitores é a da pesquisa face a face. Nessa eleição, os pesquisadores já poderiam ter inserido os dados em smartphones (celulares de última geração), mas tivemos de usar o papel por conta da legislação eleitoral, pois os partidos querem ver os questionários. Neste ano, o PSDB do Paraná e o PSDB nacional pediram à Justiça Eleitoral para ver nossos questionários. Cobrimos os nomes de milhares de entrevistados, para preservar sua identidade. Mas ninguém do partido apareceu.

Como se explica a diferença de intenção de voto entre homens e mulheres durante a campanha?

Temos visto que as mulheres são muito mais críticas, principalmente em eleições municipais. Talvez porque vivenciem mais os serviços dos municípios, por levar o filho na creche, na escola, no posto de saúde. Na eleição presidencial, as discussões são mais distantes dessa mulher que cuida do dia a dia da casa. Também há uma resistência maior ao PT, ainda associado a confrontos, a movimentos sociais. O próprio Lula, nas eleições de 2002 e 2006, já tinha intenção de voto menor entre as mulheres do que entre os homens. E há o fato de que o fenômeno do voto religioso também é mais forte entre as mulheres.

Debates mudam o voto?

O eleitor quer ver discussão de ideias, mas quando começam os confrontos ele se desinteressa. O formato dos debates deixa os candidatos muito amarrados. Eles acabam respondendo ao que querem, independentemente das perguntas.

Dilma foi eleita com uma imagem própria ou ela ainda será construída?

Ela não tem uma imagem consolidada. O presidente Lula fez com que ela conseguisse se eleger, mas a construção de sua imagem vai começar quando assumir o governo. Só então as pessoas vão conseguir identificar seus atributos e maneiras de trabalhar. Mas, como o próprio exemplo do Lula demonstra, é mais fácil construir uma imagem a partir de uma tela em branco do que mudar uma imagem já estabelecida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.