Eleitores do futuro se mostram indignados

Em palestra de juiz eleitoral, estudantes de 14 a 16 anos criticam o nível dos candidatos e a demora da Justiça em afastar os corruptos

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

No começo da tarde de ontem, no auditório do Colégio Rio Branco, um dos mais tradicionais de São Paulo, no bairro de Higienópolis, um juiz eleitoral conversou durante quase uma hora com cerca de 200 adolescentes, na faixa de 14 aos 16 anos. A ideia era prestar esclarecimentos sobre o processo eleitoral e orientar os que vão votar pela primeira vez. Mas o assunto que predominou foi o nível dos candidatos, ou, para ser mais preciso, o baixo nível, especialmente dos que concorrem a vagas no Legislativo.

Os eleitores de amanhã parecem indignados com os candidatos de hoje. E mostram dificuldade para aceitar a demora de Justiça no trabalho de afastar os corruptos da política.

Bem informado, o estudante Henrique Guzman levantou, sem citar o nome, o caso do candidato Paulo Maluf, do PP, que enfrenta processos por improbidade administrativa e já teve a candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), mas ainda assim continua fazendo campanha. Alyne Ferreira, que tem 14 anos e sonha se tornar juíza, quis saber se não é possível estabelecer algum critério para se evitar determinadas palhaçadas que são vistas no horário eleitoral. Nas conversas entre os estudantes, um dos nomes mais citados era o do candidato a deputado federal Tiririca (PR-SP), humorista que se define como "abestado" e cujo slogan de campanha é "pior que tá num fica, vote Tiririca".

O juiz, Aloisio Silveira, da 1.ª Zona Eleitoral, teve de repetir mais de uma vez que os problemas apontados por eles são decorrentes de "uma democracia que ainda está engatinhando". Também falou sobre a Lei da Ficha Limpa e insistiu na questão do voto consciente.

O ar de desencanto reflete-se em parte no número de estudantes de 16 anos que não vão votar neste ano. Giuliana Purceli, que completou 16 no início do ano e já se alistou como eleitora, disse que é uma das exceções no seu grupo de amigos e conhecidos. "Lá em casa conversamos bastante sobre política. Eu acho que não ajudo nada se não participar", afirmou.

Larissa Herrera, que completou 16 em agosto e por isso não pôde tirar o título neste ano, vai além. Quer ser política. "Eu amo o Brasil e acho o máximo poder ajudar de alguma maneira. Estou vendo muita palhaçada nessa eleição, mas acho que dá para melhorar", disse.

O juiz saiu satisfeito do encontro com a turma irrequieta e indócil - como costumam ser rapazes e moças dessa idade. "Essas cobranças me dão esperança. No futuro vamos achar que afastar corruptos da política é tão natural como usar o cinto de segurança. No começo todo mundo achava que não ia pegar."

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