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Eles importam

Consequências da relação pai-bebê não interessavam à ciência, mas isso vem mudando

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 03h00

A relação dos humanos com suas crias é uma das coisas que mais nos diferenciam dos outros animais. Nem precisa chegar aos barbados de mais de 30 anos que ainda dependem dos recursos dos pais (fenômeno tão comum que já não será um assunto para a próxima geração) – basta entrar numa maternidade. A diferença chega a ser engraçada. Enquanto outros mamíferos defendem seus filhotes da aproximação de estranhos com agressividade, a primeira coisa que os pais humanos fazem é lançar a criança no colo dos visitantes. “Não quer pegar um pouco?”, indagam, enquanto passam o rebento de braço em braço. Esse impulso por compartilhar o cuidado deve ter sido muito vantajoso a nossos antepassados para ter ficado gravado tanto tempo em nosso cérebro.

As diferenças não param por aí, claro, porque nós nascemos com um dos cérebros mais incompletos do reino animal. Até os filhotes de cangurus, que nascem imaturos e precisam amadurecer do lado de fora, saem da barriga sabendo ao menos rastejar até a bolsa da mãe. Já nós, só sabemos dar sinal de fome. Requeremos cuidados intensos durante anos até podermos nos virar sozinhos. E esses cuidados fazem toda diferença. 

A relação mãe-bebê é muito estudada – há muito tempo – e não faltam evidências de que os impactos são bilaterais. A mãe influencia e é influenciada pela criança. Já as consequências da relação pai-bebê não interessaram tanto à ciência por muito tempo. Mas isso vem mudando.

Por muito tempo se considerou que o filho é da mãe. Talvez por conta das nossas origens longínquas, quando obter comida e segurança requeria mais força física, o trabalho devia ser mais claramente dividido. O macho ia para briga, a fêmea cuidava da cria. Esse arranjo permaneceu mais ou menos assim até meados do século 20, quando as mulheres passaram também a ir cada vez mais para a briga. Mas continuaram cuidando da cria. Não precisa ser feminista para saber que é muito conveniente para os homens e bastante injusto para as mulheres. 

Acredito que essa ficha vem caindo – ok, devagar. Bem devagar. Mas progressivamente vejo movimentos em direção à real divisão de trabalho dentro do casal. Na geração dos meus pais tinha mérito o homem que “ajudava” em casa. A obrigação era feminina e se ele a ajudasse ia além do esperado. Hoje esse é um discurso que não prospera. Creio que nossa geração tenha evoluído um pouco, mas ainda precise caminhar. Explico. Ajudar em casa já não é mérito algum – todo mundo tem de pôr a mão na massa –, mas ainda tendemos a ver a divisão igualitária como mérito masculino. A esposa que tem um marido que divide com ela o cuidado com os filhos ainda é vista uma felizarda. Mas isso vai continuar mudando. 

Primeiro porque a ciência também descobriu o pai. Estudos recentes mostram que uma boa relação de afeto entre o pai e a filha, por exemplo, é capaz de interferir em seu desenvolvimento biológico e psicológico, adiando a idade da menarca, o início da vida sexual e também reduzindo o risco de gravidez na adolescência. Homens com boas lembranças da relação com seus pais têm melhor habilidade para lidar com os fatores que diariamente causam estresse da vida adulta. Pais afetuosos (de forma até mais intensa do que mães) criam filhos com maior empatia. Pai é importante. 

Como poderemos saber que essa mudança se completou? Eu sugiro um sinal, tão simples quanto gigantesco. Quando ninguém mais estranhar um menino brincando de boneca. As brincadeiras infantis são ensaios para a vida adulta. Brincar de boneca é se preparar para cuidar de uma criança – dar de mamar, trocar fralda. Enquanto não acharmos natural um menino fazer isso é porque no fundo ainda acreditamos que o filho é da mãe.

Mas, mais do que isso, contudo, creio que a situação vai mudar porque nós estamos descobrindo que mais feliz do que a mulher casada com alguém disposto a dividir os filhos é o homem que descobre as dores e os prazeres de padecer no paraíso. Pois só se envolvendo de verdade, pagando o preço de sentir na pele todo o trabalho que dá criar alguém, é que podemos alcançar a recompensa da alegria que esse trabalho traz. 

Feliz Dia dos Pais a todos.

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