Eles são as figuras mais conhecidas da Ceagesp

Não tem quem não conheça José Daniel, Osvaldo, Akira e Manelão

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

Como encontrar alguém, chamando apenas pelo nome, entre 50 mil pessoas que circulam diariamente por 46 pavilhões com 2,7 mil estandes? No mundão da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), do tamanho de 70 campos de futebol, isso parece impossível. Que não se despreze, porém, a popularidade de quatro figuras: Akira, da banca de pimentas, Osvaldo, o cenoureiro, Manelão, o "comandante", e José Daniel, o carregador poeta. Lá, para encontrá-los, basta dizer seus nomes.À banca de Mauro Akira, acaba de chegar do interior outra caixa de pimentas. Vem de Piedade, a 99 quilômetros da capital. Akira pega uma faca, parte o fruto ao meio e deixa à mostra a polpa verde brilhante. Estica a ponta da língua e... "Ui!", joga os ombros para cima e contrai os músculos do rosto. "Essa é das ardidas." Aos 55 anos, ele é um homem de olhos baixos, poucas palavras e um tanto mal-humorado. Quer mais é separar pimentas - e só se anima ao falar delas. Nesta época, em sua banca, são 18 variedades, colorindo de verde, amarelo, laranja e vermelho as seis bancadas que mantém há 27 anos. Até dezembro, passam por lá 75 tipos. "Começou como hobby. Achava bonito e fazia coleção. Tá vendo no que deu?"Ele começou a trabalhar ali em 1969, aos 16 anos, na barraca de verduras do pai. E, embora as pimentas sejam apenas o 73º produto no ranking de vendas da Ceagesp, movimentando R$ 6,5 milhões por ano - bem menos que o campeão tomate, que movimenta R$ 370 milhões -, Mauro não troca "suas belezinhas" por fruta ou legume nenhum. "Não vejo nada mais bonito por aqui que elas."A 100 metros dali, num dos pavilhões de legumes, fica Osvaldo Koga, o cenoureiro. Akira o conhece. "Ele é dos novos, né?", pergunta. Depende do ponto de vista. Osvaldo Koga chegou à Ceagesp 27 anos atrás, em 1981. Talvez para Akira, que está lá há quase 40 anos, ele seja "dos novos". Mas, entre vendedores de legumes, já é cenoureiro respeitado.CENOUREIRO FISIOTERAPEUTA"Somos os maiores produtores de cenoura do País", diz, mostrando as fotos da fazenda na qual é sócio do grupo Maeda, um dos líderes na produção de algodão do Brasil, que recentemente entrou no ramo das cenouras. Em uma das fazendas do grupo, em Santa Juliana (MG), são produzidas cerca de 36 mil toneladas de cenoura por ano - 37% das 98 mil vendidas na Ceagesp anualmente.Quando jovem, em São Lourenço da Serra (SP), Osvaldo não imaginava ser agricultor, como o pai. Preferia fisioterapia e chegou a ser aprendiz de ortopedista. Ficou com ele dois anos, mas foi obrigado a mudar de idéia quando o pai morreu, num acidente de trator. "Virei agricultor na raça, para cuidar dos negócios da família. Mas, se um carregador se queixa das costas, deixa comigo que ainda sei fazer massagem", diz, sorrindo - ele, aliás, parece sempre estar sorrindo.No escritório abarrotado de eletroeletrônicos, mostra com orgulho os diplomas pendurados na parede. Comprovam que ele está entre os cinco maiores doadores de alimentos da Ceagesp nos anos de 2005 e 2006. "É um projeto da Ceagesp que dá gosto de participar. Alimenta muita gente carente." O Banco de Alimentos da Ceagesp doa, em média, 120 toneladas de alimentos todo mês a instituições de caridade.Enquanto Osvaldo conta sua história, seus dez funcionários tratam de tocar a banca, carregando e descarregando caixas de cenouras e outros legumes. Fazem companhia a outros 3,5 mil carregadores, cadastrados na administração do entreposto. Dia e noite, eles passam apressados pelas ruas asfaltadas dos 707 mil metros quadrados da Ceagesp. Das 3 às 11 horas, um deles tem tarefa que considera poética - carrega flores, apenas flores. É José Daniel Veloso, não por acaso o único carregador declaradamente poeta da Ceagesp.CARREGADOR POETAEnquanto descarrega um caminhão de margaridas, José Daniel pensa em pontos e vírgulas. Melhor: pensa em como evitá-los. "Para isso existem os poemas. São mais simples, termina a frase e fim, sem ponto nem nada", explica ele, que, até trabalhar na Ceagesp, escrevia apenas um ou dois poemas por ano. "Mas por aqui a inspiração bate muito mais. Não agüento só ver essas imagens. Tenho de externá-las", diz o poeta.É compreensível. A Ceagesp é local de imagens fortes. Certa vez, José Daniel viu um carregador de 80 anos erguer um carrinho de rosas vermelhas "como se tivesse 18". Virou poema. "Escrevi: ?Carregador honesto e respeitado, 28 anos de mercado.? Ele ficou muito feliz. É essa gratidão que move o poeta", diz, humilde, sempre com as mãos para trás, o carregador que muitas vezes interrompe pensamentos para recitar novo poema. E o tema mais presente é sempre o cotidiano do trabalhador. De tanto poetar sobre dia a dia na labuta, virou trovador oficial da Ceagesp. Hoje, declama versos na abertura de qualquer evento no entreposto. "Eu escrevi: O carregador recém-chegado, do Nordeste lá do sertão, dialogando com feirantes, de Portugal e do Japão."Retirante clássico, José Daniel veio de Santo Antônio de Lisboa (PI) em 1973, buscando "vida melhor". "Acho que consegui. Adoro meu trabalho, os amigos que fiz", diz o carregador, que sai de casa, em Osasco, todo dia às 2 horas, para puxar carrinhos de flores até perto do meio-dia. "É duro, mas não reclamo. Melhorei muito a vida aqui."Como deixou a escola na 1ª série, foi por incentivo da administração da Ceagesp que conseguiu diploma do ensino fundamental num supletivo da empresa. Só ficou de recuperação em português. "Nunca entendi direito isso de pontos e vírgulas."COMANDANTECaminhar na Ceagesp com Manelão é parar a cada meia dúzia de passos para cumprimentar alguém. "Fala, comandante", ele diz, a qualquer um que cruze seu caminho. De tanto chamar os outros assim, o apelido acabou se voltando para ele. Em 15 minutos, ao menos 20 pessoas o chamaram assim, em um passeio rápido pelo entreposto.Há quem o conheça de outra forma: "Esse homem aqui é um santo", diz seu primeiro patrão, Antônio Sanches, que empregou Manelão como carregador 37 anos atrás, em 1971. "Um santo safado, mas ainda assim um santo", continua, provocando risadas em Manelão - um homem negro de 1,86 metro e 125 quilos, que certa vez foi apartar uma briga e acabou quebrando os braços dos dois combatentes. "É ou não é de atravessar a rua quando esse cara aparece?", ri Sanches. "Ah, mas o tamanho do coração dele..."A fama de bom moço de Manelão vem da preocupação que demonstra com as pessoas que vivem no entorno da Ceagesp, na Vila Leopoldina. Em 1998, ele teve a idéia de fazer uma escolinha de futebol para crianças. Em pouco tempo, mais de 200 já participavam. Deu tão certo que, em 2001, a Ceagesp resolveu amparar a idéia e fundou a Associação de Apoio à Infância e Adolescência Nossa Turma, que hoje oferece aulas de música, artes, esportes e reforço escolar para 600 crianças. É o maior orgulho de Manoel da Silva Filho, de 56 anos, o Manelão. "Já empregamos 19 jovens na administração da Ceagesp. Ver esse pessoal ter um trabalho sério, saindo de onde saíram, é de molhar os olhos."

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