Eles têm samba no pé e no coração

Filho, mulher e trabalho ficam em segundo plano em fevereiro: esses malucos não trocam a festa por nada

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Assim como o futebol tem torcedores fanáticos, o carnaval conta com foliões que sofrem, brigam e dão até a última gota de suor por essa festa. Conhecido como Teta na quadra da Camisa Verde e Branco, Alexandre Cabrino Salomão, de 40 anos, é um desses foliões apaixonados pelo samba. Tão apaixonado que, no carnaval passado, foi parar no hospital com princípio de enfarte, logo depois que sua escola desfilou em São Paulo. "Foi muita emoção, muita adrenalina. Meu coração não aguentou", conta. Para ele não há nada mais importante na vida do que o carnaval. Por isso, já passou por três divórcios e há um ano não vê Luiza, sua filha, de 7. O motivo? Ele diz que se trata de uma retaliação da ex-mulher por ter perdido o aniversário da menina. "Mas não dava para ir. Caiu justamente no dia do desfile da Camisa." Dicas a quem quer cair no samba antes do carnaval O mapa da folia no Rio e em São Paulo Cobertura dos ensaios e preparação para desfilesMorador da zona norte, ele carrega no braço direito a tatuagem de um trevo verde, símbolo de sua escola, por quem trabalha quase o ano todo. Teta passou por todas as alas e hoje é uma espécie de consultor. Seu acervo de fitas VHS e DVDs, com mais de dez anos de desfiles, serve de apoio para a equipe ensaiar e evitar erros. E, mesmo assim, sempre algo dá errado. Há dois anos, com a ajuda de mais um integrante da escola, ele carregou o carro alegórico nas costas, porque um eixo quebrou. "Não tínhamos escolha. Perderíamos muitos pontos."O nervosismo de Teta com o carnaval começa no meio do ano, quando as escolas escolhem o tema. "Nessa época, ele já começa a ficar insuportável", diz a amiga Aline Amizen, de 26 anos, que desfila na Camisa Verde. "Quando chega fevereiro, jogo tudo para cima", diz ele. Quem quer continuar na vida do folião tem de aderir ao samba. "Minha mãe é evangélica e sai na ala das baianas, cheia de contas no pescoço."TRIO ELÉTRICOTeta não é o único louco por carnaval. Imagine toda essa paixão na Bahia, terra em que o carnaval dura seis dias, e não apenas as duas noites de desfiles das escolas do primeiro grupo, como em São Paulo. "Os baianos são muito animados desde pequeninos. Os pais enfeitam seus filhos e os levam para verem os trios", diz a engenheira Silvia Lima, de 41 anos, baiana, que mora em Brasília. "Todo ano as pessoas esperam as novas músicas, as novas danças, os novos cantores e novos blocos." Todo ano, Silvia vai a Salvador abrir sua casa para os amigos que também amam o carnaval. Lá, ela organiza a festa de esquenta, que começa cedo, com feijoada. "Antes do meio-dia, vamos para a rua." Ela sai no bloco do Camaleão, em que toca a banda Chiclete Com Banana, uma das mais disputadas pelos paulistanos. Depois, fica na avenida para ver trios passarem, os amigos que saem em outros blocos, a ginga do povo, os dançarinos dos blocos afro e os Filhos de Gandhy. Só à 1 hora da madrugada põe o pé em casa, onde é esperada com mais feijoada, ou seja, a festa continua. "O som do trio elétrico arrepia. As pessoas se abraçam, pulam, vibram", diz Silvia, tentando explicar tamanha animação. Enfim, esse é seu ritmo nos seis dias de festa. A paixão de Silvia também tem a ver com as lembranças dos bons momentos que passou como foliona. "Primeiro vem a infância, quando o carnaval da Bahia era diferente. Assistia aos blocos sentada num banquinho com meus pais." Em 1984, quando saiu sozinha num bloco pela primeira vez, começou a namorar seu marido, Felizardo. "A gente não sabe quem é mais apaixonado pelo carnaval. Ele começou a sair no Camaleão em 1978, no primeiro ano do bloco." Quando Silvia volta para Brasília, ela ainda conta com sua coleção de CDs de bandas baianas. "Se fico triste, coloco uma delas para ouvir. Começo a sentir o mesmo arrepio que tenho na avenida. Espanta qualquer sentimento ruim. É muito bom."METALEIROHá casos em que a paixão desenfreada aparece em tribos inesperadas. Em Santos, no litoral paulista, Maurício Lopes de Magalhães Marques era um adolescente metaleiro quando começou a passar as noites de carnaval em claro na frente da TV, anotando por quesito as notas que os jurados davam para as escolas. "Na época, não existia ainda a internet. Então esse era o único jeito de saber em primeira mão quem estava na frente e entender o porquê", diz Marques, hoje com 39 anos. Advogado e historiador, apesar de continuar curtindo rock, mergulhou com tudo no mundo carnavalesco. Já foi jurado nos desfiles das escolas de sua cidade e até saiu na avenida tocando na bateria. Em 1992, começou a desfilar no Rio, primeiro nas grandes escolas que passam pelo Sambódromo da Marquês de Sapucaí, até que experimentou sair em blocos tradicionais, como o conhecido Cordão da Bola Preta, que todos os anos parte da Avenida Rio Branco em direção à Cinelândia, no centro. "É mais divertido do que vestir a fantasia de grandes escolas. Os blocos saem na rua e participa quem quer. Além disso, não tem tanta disputa. As pessoas estão interessadas apenas em brincar."Marques terminou recentemente um livro sobre a Mocidade Independente do Padre Paulo, uma das mais tradicionais escolas de Santos. Paralelamente, começou a fotografar os carros alegóricos ainda na concentração da Sapucaí, com o objetivo de tentar mostrar a riqueza plástica de cada um deles. "Em 2005, por exemplo, a Caprichosos de Pilares exibiu um carro com cogumelos gigantes, construídos com milhares de copos de plástico", explica. Em casa, Marques ainda guarda uma coleção de 600 LPs de samba-enredo. O mais antigo é o da Mangueira, gravado na década de 50. "Antigamente, cada escola registrava seu samba-enredo num disco independente. Não saíam num único exemplar", explica. "Virei colecionador porque sei que essa é uma cultura que se acaba. O samba-enredo é como um carro alegórico. Enquanto este dura uma noite, o samba é válido por um carnaval, porque não é relançado pela gravadora."FRASESTetaFolião da Camisa Verde e Branco, de São Paulo "Foi muita emoção. Fui parar no hospital com princípio de enfarte" Silvia Lima do Bloco Camaleão, de Salvador "O som do trio elétrico arrepia" Maurício Marques colecionador, de Santos"Os blocos de rua divertem mais que as grandes escolas do Rio"

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