Elevador quebrado

Para as mulheres brasileiras, o elevador profissional não chega à cobertura. Elas estudam cada vez mais do que os homens, preenchem mais vagas no mercado de trabalho que requerem melhor qualificação, mas são barradas antes de chegarem ao topo salarial e ao comando. Dilma Rousseff é a exceção que confirma a regra.

José Riberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

A mesma eleição que colocou uma mulher na Presidência da República manteve uma baixa ocupação feminina no Congresso, nas Assembleias e nos governos estaduais. A culpa é do machismo das cúpulas partidárias, é certo. Mas o problema se estende a toda a sociedade.

As mulheres são 42% dos 44 milhões de trabalhadores formais do País e ganham, em média, 17% menos do que os homens (Rais 2010). Em dinheiro, a diferença mensal é de R$ 305. Dito assim, o problema parece enganosamente menor. A média escamoteia a crueldade da discriminação.

Se considerarmos apenas os trabalhadores com nível superior completo, descobriremos que 59% são do sexo feminino. É uma recompensa pelo esforço das mulheres, que passam mais tempo estudando e conseguem, mais do que os homens, empregos que exigem diploma.

Só há um problema: a diferença salarial duplica entre os homens e mulheres que fizeram faculdade. As mulheres ganham, em média, 41% a menos do que seus colegas que estudaram tanto quanto elas. São R$ 2.150 a mais para os homens todo mês.

Como a diferença salarial pode ser tão grande se a qualificação é, teoricamente, a mesma?

É que a maioria de mulheres fica confinada à base da pirâmide profissional. Seu acesso aos postos do topo é dificultado por barreiras culturais, preconceitos e até intimidação sexual. Para chegar lá, precisam desalojar concorrentes masculinos. Mas eles não largam o osso.

No topo da pirâmide, 35 famílias ocupacionais pagam mais de R$ 10 mil por mês, em média, para os com-diploma. Os homens são maioria em nada menos do que 33 delas. Eles ocupam 69% dos postos de comando mais bem pagos.

Para piorar, as relativamente poucas mulheres que chegam ao topo geralmente ganham de 20% a 80% menos do que os homens nos mesmos cargos. Segundo estudos norte-americanos, as mulheres reivindicam aumentos salariais muito mais raramente do que os homens.

Mas isso não explica absurdos como este: dois em cada três dos mais de 14 mil diretores empresariais no Brasil são homens, que ganham R$ 16 mil, em média. O outro terço, formado por mulheres, ganha R$ 5,8 mil, ou seja, R$ 10 mil a menos por mês, R$ 130 mil a menos por ano.

Sobram indícios de que isso seja fruto de ação deliberada contra as mulheres nas empresas. Quando a competição profissional é regida pelo mérito, o fosso entre os sexos diminui. Nos cargos públicos bem pagos e preenchidos por concurso, as mulheres avançam à igualdade.

Elas são 41% do Ministério Público, 40% dos magistrados, 45% dos auditores do trabalho, 51% dos defensores públicos e 47% dos procuradores de Justiça. Nessas funções, cujo plano de carreira dificulta a discriminação, os salários de homens e mulheres são parecidos.

Se os juízes ainda ganham, em média, 14% mais do que as juízas é porque há menos mulheres nos tribunais superiores. Apesar de Dilma ter nomeado três barbados para o STJ, há mais ministras e desembargadoras hoje do que em qualquer outra época.

Elas estão chegando lá, mas não sem enfrentar a reação dos homens.

Na quinta-feira, o jornal The New York Times contou como funcionárias do Fundo Monetário Internacional evitam usar saias para não atrair a atenção indesejada dos chefes. Em 2008, o FMI julgou que seu comandante, Dominique Strauss-Khan, não violara nenhuma regra ao levar para a cama uma economista subordinada a ele.

DSK, como é chamado na França, sempre contou com a cumplicidade silenciosa da imprensa francesa para seus casos extraconjugais e assédios a mulheres que se aproximavam profissionalmente. Não é à toa que os franceses ficaram estupefatos com a acusação de estupro contra ele. O chefe do FMI é o lado violento de um comportamento comum.

Na mesma edição, o NY T contava como outro apalpador contumaz, o ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger ocultou por dez anos o filho que teve com a empregada.

Uma terceira reportagem revelava que a fraternidade frequentada pelos dois ex-presidentes Bush foi suspensa pela Universidade de Yale após seus membros brindarem publicamente com ofensas às mulheres. Os alunos cantaram, por exemplo, "No means yes!", uma inversão do refrão antiestupro "No means no!" (não é não).

Pode ser coincidência que nas três histórias homens poderosos (ou futuros poderosos) tenham usado seu status para subjugar, seduzir e ameaçar mulheres. Ou pode ser um sintoma da reação masculina ao "empoderamento" feminino.

À mulher de Cesar se cobra que seja e pareça honesta. Ao marido dela nem tanto.

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