AFP PHOTO / Gustavo GALEANO
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‘Elite’ do crime, quadrilhas de grandes assaltos têm como marca ‘empreendedorismo individual’

Bandos fixos com lideranças definidas deram lugar a grupos temporários e especializados que veem menor risco de serem pegos, explica professora. Facções como o PCC facilitam o crime e se favorecem dos seus resultados

Entrevista com

Jânia Perla Diógenes de Aquino, antropóloga e professora da Universidade Federal do Ceará

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Pode ser dito com certeza que o roubo de cerca de 720 quilos de ouro no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, foi um assalto vultoso, já que a estimativa de prejuízo é calculada em R$ 110 milhões. O que ainda não se sabe é quem estava por trás do planejamento e da execução do crime; a Polícia Civil de São Paulo investiga o caso e já fez algumas prisões.

O que a observação de grandes crimes cometidos anteriormente ensina é que as estratégias das quadrilhas se repetem em alguns pontos. A antropóloga Jânia Perla Diógenes de Aquino, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisa o assunto desde o início dos anos 2000. Recentemente, ela publicou o artigo intitulado “Pioneiros: O PCC e a especialização em grandes assaltos”, no Journal of Illicit Economies and Development. 

Nele, a professora, a partir de entrevistas realizadas com detentos e da sua pesquisa, traça a evolução desse tipo específico de crime. Para ela, há uma mudança na forma de executar grandes assaltos, que na década de 1980 estavam mais ligados a grupos fixos com lideranças definidas, mas que agora são realizados por quadrilhas interestaduais em que se destaca o “empreendedorismo individual” de cada criminoso. 

“Cada assaltante tem sua rede de contatos, convidam e são convidados a participar de investidas criminais as mais diversas, tendo liberdade para aceitar ou não”, disse a professora em uma entrevista ao Estado. Essa horizontalidade encontra ambiente fértil nos quadros do Primeiro Comando da Capital (PCC), que com frequência auxilia a execução do crime e se favorece dos seus resultados. 

Leia a seguir a entrevista que a professora concedeu ao Estado

Qual a relação histórica entre facções criminosas organizadas e a prática de grandes assaltos no País?

Durante os anos de 1980, os protagonistas mais notórios de assaltos de grande porte no Brasil foram integrantes Comando Vermelho. Naquela década, o CV empreendeu roubos contra bancos, carros fortes e joalherias em diversas regiões do Brasil, canalizando o dinheiro obtido para organizar fugas de detentos e otimizar o tráfico de drogas nas periferias do Rio de Janeiro. Consolidando-se na distribuição e tráfico de drogas, as cúpulas do Comando Vermelho pararam de organizar assaltos contra instituições financeiras, estes deixaram de ser uma atividade relevante na facção.

O PCC, desde seu contexto fundacional tem organizado grandes assaltos, muitos dos quais ganham repercussão midiática e são classificados como “cinematográficos”. São ações que envolvem elevados investimentos em infraestrutura e resultam em quantias milionárias. No assalto contra o setor de cofres privados da agência do Banco Itaú localizada na Avenida Paulista, em agosto de 2011, o valor roubado em dinheiro e joias foi estimado em R$250 milhões.

Como as facções facilitam esses crimes e como elas se favorecem do resultado deles?

É recorrente que as facções forneçam as armas que são utilizadas nos roubos e até promovam o contato de assaltantes com gente de outros ramos de mercados ilegais que subsidiam grandes assaltos, como o de carros com placas adulteradas ou de venda de documentos falsificados. As facções se fortalecem com a organização de grandes assaltos, não só pelas altas quantias que seus integrantes obtêm, mas também porque expandem seu raio geográfico de atuação, contatos e, mesmo, novos integrantes.

Vou dar um exemplo, em Fortaleza, assaltantes do PCC realizaram um assalto contra a CORPVS, empresa de guarda valores, no ano de 1999. Eles firmaram relações com assaltantes locais e comerciantes que lhes concederam apoio logístico, no ano seguinte retornaram à capital do Ceará e efetuaram outro assalto contra outra empresa, a Nordeste Seguro de Valores. Nessa ocasião uma parte dos assaltantes paulista, foi capturada e permaneceu em cadeias locais por alguns anos.

Desde então, o PCC marcou presença nas prisões cearenses, detentos foram batizados, a facção expandiu a distribuição de droga na cidade e passou a atuar no tráfico de varejo local. Alguns deles chegaram a participar do planejamento do assalto à agência do Banco Central Fortaleza, no ano de 2005, de onde foram roubados R$ 164 milhões. A partir de um conjunto de relações construídas por assaltantes, que passaram a atuar na distribuição drogas na cidade enquanto estavam presos, o PCC inseriu a orla cearense na rota de exportação de cocaína para diversos países do atlântico. Situações similares ocorreram em outros estados brasileiros e em países vizinhos. Ou seja, os assaltos, de modo direto ou indireto, fortaleceram a facção expandindo suas redes de relações, raio geográfico de atuação, mercados e lucros.

A senhora lembra casos praticados por integrantes do Comando Vermelho em que o dinheiro roubado era canalizado para organizar fugas de detentos e otimizar o tráfico de drogas, isso no início dos anos 1980. Por que, então, o título de pioneiro nesse ramo de grandes mercados é dado para o PCC, cuja atuação mais vigorosa passa a acontecer no final dessa década?

Sim, no início dos anos de 1980 o CV realizou dezenas de assaltos contra agências bancárias no Rio de Janeiro e outros estados do país, nesse período também organizou roubos contra joalherias e sequestros. Mas depois que se estruturou no controle do tráfico de drogas nas favelas cariocas, os assaltos deixaram de ser uma atividade importante na facção.

No PCC tem sido diferente, mesmo com a expansão dos mercados de droga, assaltos de grande porte continuam tendo relevância e realizados continuamente por integrantes deste coletivo criminal. Nos últimos anos, o PCC tem organizado assaltos também em países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia.

Então analisando os mercados ilegais da América do Sul, o PCC pode ser pensado sim como “pioneiro” em grandes roubos, não por ser primeira facção numerosa a realizar assaltos contra instituições financeiras  no Brasil, mas pelos quantias obtidas nessas ocorrências, que atingiram somas jamais vistas em assaltos no continente, pela sofisticação no planejamento e infraestrutura destas ações criminais, pela elaboração de novas técnicas e aprimoramento no modus operandi à medida que os sistemas de segurança das instituições financeiras se aperfeiçoam, assim consolidando os grandes assaltos como um atividade contínua, um ramo relevante das economias ilegais na América do Latina. Se antes da atuação do PCC, as somas obtidas em grandes assaltos no continente não ultrapassavam seis dígitos, depois dele chegaram a atingir nove.

Qual papel a organização descentralizada do PCC exerce na continuidade da prática desses crimes? 

Pesquisas como a de Karina Biondi e Gabriel Feltran indicam que, ao contrário do Comando Vermelho e outras fações atuantes no país, cujas estruturas de poder são hierarquizadas, o PCC não possui dono ou chefe, constituindo uma irmandade do crime, organizada a partir de “sintonias” ou núcleos encarregados de funções específicas. Assim, seus integrantes usufruem de considerável autonomia na condução de “negócios”.

No caso de assaltantes, impressiona-me a liberdade que têm para escolher alvos, elaborar planos e estratégias, como também para gastar ou investir as quantias obtidas provindas de suas ações ilegais. Não há ordens ou decretos vindos de cima definindo a atuação desses homens ou reivindicando parte considerável das quantias que obtêm. Além de um valor pago mensalmente, como fazem todos os integrantes do PCC, meus interlocutores não efetuam outro tipo de pagamento à facção, apenas quanto extraviam ou danificam armas que pegaram de empréstimo. Esse tipo de socialidade criminal no PCC, permite que diferentes nichos e atividades criminais tenham relevância no coletivo criminal, sua expansão no mercado de drogas não resultou no enfraquecimento ou extinção da atuação de seus integrantes na organização de grandes assaltos.

A senhora fala em “socialidades” e reconhecimento que esses integrantes têm entre os pares. Como são vistos o que se envolvem nos grandes assaltos? 

No Brasil, os participantes de assaltos de grandes assaltos, assim como grandes traficantes, estelionatários e sequestradores, compõem uma espécie de “elite” no universo criminal, dentro e fora das prisões. Costumam ser vistos como inteligentes, endinheirados e “bem-sucedidos” por seus pares, devido a elaboração destas ações e das altas quantias que resultam. Na perspectiva moral são avaliados positivamente, os que são discretos e não comentam sobre planos de assaltos em andamento, os que não levam vantagens sobre colegas na divisão do dinheiro roubado, os que demonstram lealdade e solidariedade a parceiros que acabam de sair da prisão e estão sem recursos, dentre outras atitudes que constituem capital simbólico positivo no universo social do crime.

É na década de 1990 que ocorre uma mudança, que a senhora classifica como significativa, no modelo de se planejar e executar os grandes assaltos. Como isso se dá?

Nos anos de 1980 predominavam entre as quadrilhas de assaltantes, grupos fixos com lideranças definidas, com poder de decisão e resolução de conflitos entre comparsas. Estes grupos se tornavam conhecidos pelo nome e a coragem do líder e apresentavam semelhanças com outras modalidades de coletivos criminais, como os “bandos de cangaceiros” atuantes no sertão nordestino no início do século XX, dentre os quais o de Lampião foi o mais conhecido.

Na década de 1990, passaram a predominar no planejamento e realização de ações contra instituições financeiras um tipo de agrupamento, que delegados de polícia no País têm chamado de “quadrilhas interestaduais” por aglutinarem assaltantes procedentes de variadas regiões do Brasil. Em vez de pré-formados, tais coletivos têm a composição definida nas etapas de elaboração do plano e viabilização da infraestrutura de cada ação criminal. Trata-se de agrupamentos temporários que costumam se desfazer depois que um assalto é realizado e seus ganhos divididos.

Laços de amizade, quando ocorrem, tendem a envolver dois ou três componentes, não se estendendo aos demais. Cada assaltante tem autonomia para utilizar a parte do dinheiro que lhe cabe, sem dar satisfações ou dividendos a um líder. Acredito que essa socialidade mais desatada e igualitária que passou a ter lugar no universo dos grandes roubos, durante os anos de 1990, teve influência nas mudanças ocorridas no PCC no início dos anos 2000, quando Marcola prevaleceu sobre Césinha e Geleião, os antigos chefes, dissolvendo lideranças e hierarquias entre os integrantes da facção.

A senhora argumenta que o empreendedorismo individual está na base dos grandes assaltos a bancos e financeiras no Brasil. O que caracteriza esse empreendedorismo em relação às práticas criminosas que o antecederam? O empreendedorismo individual também pode ser entendido como coletivo temporário?

Há toda uma relação entre empreendedorismo individual nos grandes assaltos e os agrupamentos temporários que se formam para organizá-los. Estas ações passaram a ser articuladas por assaltantes agrupados, graças a suas redes de contatos, assim atingindo novos patamares de organização e retorno monetário. A efetivação de grandes assaltos passou a envolver elevados investimentos em infraestrutura e conexões com outros mercados legais e ilegais, como o tráfico de armas e a construção civil, no caso dos assaltos viabilizados pela construção túneis.

A imaginação de cineastas desprendida em filmes começou a modelar planos inusitados e ambiciosos destes roubos e furtos da vida real. Assaltantes ampliaram saberes e aperfeiçoarem técnicas, tornando-se “profissionais especializados”, puderam obter maiores quantias, adquirir bens e investirem em atividades econômicas legais, como lojas, farmácias, transporte coletivo, dentre outras. Deste modo, conseguem pagar advogados e custear despesas de familiares enquanto estão presos. Parte dos meus interlocutores explicaram que a atuação em grandes assaltos, possibilitada pela inserção em quadrilhas temporárias, tem se mostrado um “caminho” exitoso, mesmo quando capturados pela Polícia. Os períodos em penitenciárias seriam compensados pelas altas somas conquistadas, em muitos casos suficientes para custear suas despesas e de familiares próximos, por toda a vida.

Quais são as razões, apresentadas pelos próprios suspeitos em entrevistas à senhora, para que eles prefiram esse método de atuação? 

Quando lhes pergunto se a ausência de lideranças nas chamadas “quadrilhas interestaduais” não traz desorganização aos preparativos dos assaltos, todos têm discordado. Afirmam ser melhor “trabalhar sem chefe” e que “ser líder” de outros assaltantes envolve responsabilidade e alto risco. Alguns me colocaram a situação hipotética de um líder de quadrilha optando por um plano de assalto que venha se mostrar mal sucedido, levando comparsas a perder o dinheiro investido, perder liberdade ou a vida. Segundo meus entrevistados esse líder hipotético teria morte sumária.

Por outro lado, colocavam como vantagem dos agrupamentos temporários, a possibilidade de selecionar continuamente os parceiros com quem atuar em conjunto. Cada assaltante tem sua rede de contatos, convidam e são convidados a participar de investidas criminais as mais diversas, tendo liberdade para aceitar ou não. Outra vantagem das quadrilhas se desfazerem depois realizado o assalto e dividido o dinheiro seria a de empreender fuga individualmente. Tomando destinos diferentes, os assaltantes dificultam o trabalho das polícias de localização e prisão das quadrilhas.

E que influência exercem os filmes sobre essa temática na modelagem de planos reais executados pelos criminosos? 

Os filmes inspiram planos de ações criminais e alguns personagens chegam mesmo a inspirar trajetórias de assaltantes. Um dos meus interlocutores se diz fã da trilogia O poderoso Chefão, pelo estilo de vida requintado da família Corleone. As vestimentas, os carros e as mulheres dos personagens de Brad Pitt e George Cloney no filme Onze homens e um segredo também costumam elogiados nas entrevistas e apresentados modelo de foras da lei bem sucedidos.

Em se tratando da inspiração do cinema nos planos criminais, um caso interessante é do assalto à agência do Banco Central de Fortaleza, já mencionado, aquele em que foram roubados R$ 164 milhões. Segundo parte dos meus interlocutores, foi inspirado em Os trapaceiros, de Woody Allen. Neste longa metragem do ano 2000, dois personagens decidem assaltar uma joalheria, no intuito de cavar um túnel para viabilizar o crime, abrem uma loja nas proximidades do alvo. Mas a loja faz sucesso e passa a dar muito lucro, levando “os trapaceiros” a desistirem investir contra a joalheria.

No assalto ao Banco Central, a quadrilha “interestadual” montou uma loja de grama sintética, de onde partiu o túnel que acessou o cofre. Em 2006, poucos meses após entrar em cartaz  O Plano Perfeito, filme do diretor Spike Lee, um assalto contra uma agência bancária no estado de São Paulo recorreu ao modus operandi encenado no filme: assaltantes e reféns foram vestidos com roupas idênticas e, quando a polícia chegou ao local, não conseguiu diferenciar quem era quem. O assalto fictício contra a Casa da Moeda da Espanha, que movimenta a série A Casa de Papel, uma das séries de maior sucesso em 2018, também reproduz a técnica das vestimentas uniformizadas para “vítimas” e participantes do crime.

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