Em 16 dias, morre a quarta criança vítima de bala perdida no Rio

O corpo de Renan da Costa Ribeiro, de 3 anos, foi enterrado na tarde desta segunda-feira, 2, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele foi assassinado na Favela Nova Holanda no domingo. Em 16 dias, o garoto é a quarta criança vítima de bala perdida durante confrontos entre policiais militares e traficantes.O caso de Renan guarda semelhanças com os demais: eleestava numa rua movimentada, com a avó, quando levou um tiro de fuzil na barriga. "Eu ia deixar o Renan com a mãe, para ir votar. Ele estava de mãos dadas comigo. Mas quando deram o tiro, nem percebi que ele tinha sido baleado", contou Zenilda Ribeiro, de 43 anos, a avó. "Vou processar o Estado (do Rio de Janeiro). Não pelo dinheiro, mas para que não morra mais criança. Isso acontece todos os dias. Meu neto é só mais um". InvestigaçõesPessoas que estavam com celulares dotados de câmeras filmaram o crime, o que poderá ajudar nas investigações da Polícia Civil. Renan chegou a ser socorrido, mas morreu pouco depois de chegar ao Hospital Geral de Bonsucesso. Rafael de Brito, de 21 anos, morador que ficou ferido no pé, já está em casa.Nesta segunda, crianças e adultos, vizinhos e parentes do garoto, acompanharam o sepultamento, no Cemitério São Francisco Xavier, sob fina chuva. Eles levaram cartazes, mostrando sua revolta. Num deles, junto a fotos de Renan ainda bebê, sorridente, lia-se: "Não é a primeira vez. Queremos solução". "A gente não agüenta mais viver assim", desabafou um morador, quando o caixão foi fechado.O comandante do batalhão da PM da Maré, tenente-coronel Rui Laury, disse que os policiais que estavam na Nova Holanda no domingo foram atacados por dois homens, numa moto. "Não sabemos quem disparou o tiro. Mas vamos apurar; não há corporativismo", afirmou. Todos os moradores que presenciaram os fatos são enfáticos: afirmam que os PMs chegaram num carro em alta velocidade e atiraram sem que tivessem sido alvejados antes. Sete pistolas e dois fuzis deles foram guardados no batalhão para perícia. Vítimas de armas de fogoSegundo estudo do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser), publicado no ano passado, duas crianças são internadas todos os dias em hospitais do Rio vítimas de armas de fogo. O levantamento se baseou em dados de 2002 do Ministério da Saúde. Mostrou que crianças, adolescentes e jovens de comunidades pobres são mais vulneráveis ao cotidiano violento do Rio. A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio, Ester Kosovsk, disse que casos como os de Renan correspondem a uma grande parte das denúncias apuradas pelo grupo. "As balas perdidas estão por toda parte, mas, nas favelas, acontece com mais freqüência. É absolutamente lamentável constatar que crianças estão perdendo suas vidas logo no começo".No último dia 21, o menino Guilherme Custódio Morais, de 8 anos, morreu atingido por bala perdida também na barriga, na Favela Guarabu, na zona norte. Ele jogava bola. No mesmo dia, Paulo Vinícius Chaves, de 7 anos, foi atropelado por um carro da PM que tinha ido à Favela de Vigário Geral (zona norte), para procurar uma carga roubada. Paulo brincava com a irmã na rua. Lohan de Souza Santos, de 9 anos, teve o rosto desfigurado por uma bala de fuzil, no Morro do Borel (zona norte), no dia 16. Estava perto da casa do avô. Moradores do Borel organizaram uma passeata dias depois de sua morte. Resignada, a família de Renan não pensa em fazer o mesmo, diz a avó do menino: "Não adianta nada. Quando protestamos, eles dizem que temos ligação com bandidos. Voltam lá e matam mais meia dúzia. E fica o dito pelo não dito".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.