Em 2º dia de ataques, bando abre fogo em mercado e fere 2

Desde segunda-feira, foram feridos 5 civis em investida de criminosos contra a polícia

Tiago Décimo, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Criminosos intensificaram ontem em Salvador os ataques a bases da Polícia Militar. Até as 19 horas de ontem, haviam sido atacadas 6 das 81 unidades de segurança da capital baiana. A Secretaria de Segurança Pública decidiu tirar os policiais das bases e transferi-los para rondas pela cidade, a fim de localizar os bandidos. Os criminosos ampliaram também os alvos - incendiaram mais três ônibus (sete, no total) e abriram fogo em um supermercado público do Estado onde trabalham dois PMs, deixando dois civis feridos. Os ataques começaram na madrugada de segunda-feira em retaliação à transferência de um líder do tráfico para presídio federal.

A base desativada de Valéria, na periferia, virou alvo de tiros de criminosos e foi metralhada na tarde de ontem. Durante a noite de anteontem, uma unidade desativada havia mais de seis meses, no bairro de Fazenda Grande 2, foi atacada. No lugar de metralhadoras e pistolas, os criminosos usaram pedras e dois coquetéis molotov para destruir a base. Apesar dos ataques, 55 unidades funcionavam até a noite de ontem.

Durante a tarde de ontem, 12 criminosos invadiram, atirando, uma loja da Cesta do Povo - rede popular de supermercados, mantida pelo governo estadual -, no bairro de Periperi, para atacar dois policiais. Os PMs conseguiram se proteger, mas dois clientes, homens de 21 e 50 anos, foram feridos no ataque. Um deles foi atingido de raspão e o outro, baleado na perna. Ele teve de ser transferido para o Hospital Geral do Estado, onde foi submetido a uma cirurgia. Seu estado de saúde é considerado estável.

Com essas duas vítimas, o número civis feridos nos ataques chegava a cinco até ontem à noite. Ontem, um cobrador de ônibus teve queimaduras quando o veículo no qual trabalhava foi atacado. Em todos os três ataques a ônibus de ontem, grupos de pessoas encapuzadas e armadas invadiram os veículos quando eles estavam parados no fim de linha, ordenaram que os ocupantes descessem e, usando gasolina, atearam fogo.

Na segunda-feira, duas mulheres que dormiam ao lado da base policial da Ribeira haviam sido atingidas por pedaços de vidro e de alvenaria que se soltaram da construção quando ela foi atingida por mais de 40 tiros. Além dos civis, três policiais ficaram feridos nos ataques contra as bases na segunda-feira. Nenhum corre risco de morte. Três acusados de participar dos ataques foram mortos em confronto com PMs, depois de atacar a viatura na qual estavam os policiais.

AÇÃO ORGANIZADA

Segundo o secretário de Segurança Pública da Bahia, César Nunes, todos os ataques às bases policiais e alguns dos atos de vandalismo contra ônibus foram articulados pelo traficante Cláudio Eduardo Campanha, apontado como principal líder do tráfico na Bahia. Mesmo preso desde o fim do ano passado no Presídio Salvador, ele teria coordenado as ações antes de ser transferido para o Presídio Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, na sexta-feira passada.

"A polícia, por meio de informações da Inteligência, tinha conhecimento de que poderiam ocorrer atentados na cidade a partir do sábado", disse Nunes. "Reforçamos o policiamento na cidade desde o fim de semana por isso." De acordo com o secretário, 12 guarnições da PM que atuam no interior do Estado foram escaladas para ampliar o policiamento ostensivo em Salvador, onde a onda de ataque ocorre.

"Estamos focando as operações em 24 eixos viários da cidade, que consideramos estratégicos", disse Nunes. De acordo com ele, três acusados de envolvimento nos ataques foram presos - um deles em flagrante, quando tentava jogar um coquetel molotov na base policial de Cajazeiras.

INVESTIGAÇÃO

A investigação sobre os atentados, segundo Nunes, está sendo realizada sob apenas um inquérito, "já que os crimes estão interligados". "Sabemos que traficantes ligados a Cláudio Campanha estão dando ordens de dentro do presídio para que comparsas realizem os atentados", afirmou. "Estes também poderão ser transferidos para presídios federais em outros Estados", ameaçou Nunes.

O governador Jaques Wagner (PT) ressaltou que a tática de repressão ao crime organizado adotada no Estado, baseada na prisão dos acusados de serem os líderes do tráfico de drogas, será mantida. Ele admite, porém, que a administração pública estuda a possibilidade de desativar as base policiais permanentemente. "Estamos fazendo experiências apenas com rondas em alguns bairros, o que pode ser uma alternativa." Wagner também disse que a sensação de insegurança que vive a cidade não tem base nos dados da SSP. De acordo a secretaria, o número de homicídios registrado em Salvador no primeiro semestre deste ano (997) é 12% menor que o verificado no mesmo período de 2008 (1.130).

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