Em 21 dias, maranhenses só ganharam 2 cestas básicas

Ontem, mãe teve a ajuda de outros flagelados para alimentar filhos

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

07 de maio de 2009 | 00h00

Todos os 14 mil moradores do bairro de Trizidela do Vale, em Bacabal, 250 quilômetros ao sul de São Luís, tiveram de abandonar suas casas no dia 20 de abril, por causa das enchentes do Rio Mearim. As famílias foram abrigadas em hospitais, igrejas e na feira de exposições agropecuárias. Quase três semanas depois, vivendo em condições as mais precárias, afirmaram ter recebido, até agora, apenas duas cestas básicas: uma do governo federal e outra da prefeitura. Nesse período, tiveram ainda a visita da governadora Roseana Sarney (PMDB). Nos abrigos, crianças se misturam a cachorros, bodes e gatos, resgatados da enchente com móveis como televisões, sofás, cadeiras e fogões. O gás de Cleudima Santos, de 26 anos, mãe de três filhos, acabou quando ela fervia água para o café, na manhã de ontem. Desempregada, sem dinheiro, Cleudima não teve como comprar um novo gás. As crianças, porém, almoçaram arroz e feijão dados por vizinhos solidários, também vítimas das enchentes. É enjoado o passar do tempo nos acampamentos improvisados. Aretuza Souza, de 27 anos, resolveu gastar as horas de outra forma à tarde. Pegou uma faca, tirou as escamas de alguns peixes pescados no Rio Mearim, o mesmo das águas que a desabrigaram, e foi assá-los na calçada de casa. "Não posso entrar, mas vou fazer uma festa na calçada." Aretuza caminhou pelas águas, que já começam a ficar perigosas, cheias de detritos. A prefeitura tenta evitar uma epidemia de dengue. Outras cidades já começam a caminhar para um drama igual ao de Bacabal. É o caso de Itapecuru-Mirim. O rio do mesmo nome transbordou, invadiu bairros e a zona rural - e ameaçava cortar a BR-222 ontem. Os trens que levam combustíveis para o Piauí tiveram de parar. Uma composição inteira aguardava que as águas baixassem. Cerca de 50 quilômetros ao sul, caminhoneiros que há 14 dias aguardam a reconstrução de uma ponte na BR-316, a principal ligação do Nordeste com o Norte, interromperam o tráfego para exigir pressa na recuperação da estrada. Depois de negociar com a Polícia Rodoviária Federal, passaram a permitir só carros com doentes ou crianças, e ambulâncias. Todo o trânsito para o Piauí foi interrompido e um desvio só ficará pronto dentro de 15 dias - se parar de chover. Ao todo, 52 municípios do Maranhão já foram atingidos pelas enchentes, elevando para 137 mil o número de pessoas diretamente atingidas.

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