Andre Dusek/AE
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Em 5 minutos, Dilma aceitou carta de demissão

Presidente avisou Temer ainda na terça-feira que PMDB deveria buscar substituto para Novais, que se disse 'vítima de calúnias'

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2011 | 00h00

Durou cinco minutos a tensa conversa do ministro do Turismo, Pedro Novais, com a presidente Dilma Rousseff, na noite de ontem. Furiosa com a sucessão de denúncias envolvendo Novais, Dilma recebeu a carta de demissão do auxiliar pouco antes das 18 horas , no Palácio do Planalto. O encontro no qual a presidente convidou o deputado Gastão Vieira (MA) para a cadeira de Novais, porém, teve até mesmo momentos de descontração.

Apenas o vice-presidente Michel Temer presenciou as duas reuniões. Novais alegou ter sido "vítima de calúnias e difamações". Na carta, porém, o ministro só agradeceu a confiança de Dilma. Ao contrário do ex-ministro da Agricultura, Wagner Rossi (PMDB) - que caiu no mês passado acusando um "importante político" por sua desgraça -, ele apresentou um texto curto e formal. Não explicou a avalanche de denúncias nem disse que iria se defender depois, fora da Esplanada.

Dilma segurou Novais o quanto pôde, para não abrir nova crise com o PMDB, mas avisou a Temer, ainda na terça-feira, que o partido precisava apresentar logo outro nome para o Turismo. "A situação é insustentável", afirmou ela.

Na tentativa de encontrar uma solução para o problema, Dilma conversou com o presidente do Senado, José Sarney (AP). Foi daí que surgiu a indicação de Gastão Vieira (MA).

O impasse sobre a definição do novo ministro se prolongou até tarde da noite, com várias reuniões no Planalto. A saída do terceiro ministro filiado ao PMDB - e quinto do governo Dilma - provocou queda de braço entre as alas do partido, de olho na vaga.

Padrinho político de Novais, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), passou o dia tentando emplacar o deputado Marcelo Castro (PI). Dilma vetou o nome, alvo de investigações no Tribunal de Contas, na Polícia Federal e no Ministério Público. Depois, circulou a informação de que o mais cotado era Manoel Junior (PB), mas o Planalto descobriu que ele também tinha "telhado de vidro".

Gastão Vieira foi o escolhido por ter sido avalizado pelo presidente do Senado e por Temer. Dilma disse à cúpula do PMDB que o sucessor de Novais deveria ter "ficha limpa". Às 21 horas, antes da definição de Vieira, um ministro resumiu assim a situação: "A demora é porque os indicados, até agora, não resistem a uma pesquisa no Google".

Antes de Temer chegar na tarde de ontem a Brasília, vindo de São Paulo, o novo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, já havia recebido a tarefa de adiantar as negociações para a troca de Novais. Coube ao líder do PMDB a missão de dizer ao afilhado que era preciso pedir demissão. Na avaliação de Dilma, Novais já deveria ter feito isso há mais tempo, para evitar constrangimentos.

Diante da briga no PMDB, o governo avisou a Alves que, se não houvesse acordo, o indicado seria o senador Eduardo Braga (AM). Era tudo o que a bancada da Câmara não queria.

Enquanto Alves convencia Novais a sair, o presidente interino do PMDB, Valdir Raupp (RO), conversava com Dilma. À saída do encontro, ele não deixou dúvida de que Novais já estava rifado pelo partido. Disse que o uso de dinheiro público para pagamento de despesas pessoais era "indefensável". Reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou ontem que o então ministro usava um servidor remunerado pela Câmara como motorista particular de sua mulher.

Novais também havia pago salários de uma governanta de sua casa com dinheiro público, por sete anos, quando era deputado. O que mais irritou Dilma foi o fato de o auxiliar continuar cometendo irregularidades quando já estava no ministério.

No mês passado, o Turismo foi alvo de operação da Polícia Federal, que investigou desvios de recursos na pasta e prendeu 36 pessoas, entre elas o secretário executivo Frederico Costa. Em dezembro, antes da posse de Dilma, o Estado revelou que Novais havia pago despesas de motel com verba da Câmara.

"Ninguém pode dizer que a imagem do PMDB está comprometida por causa de uma pessoa. Problemas assim acontecem no Japão, na Inglaterra, em qualquer lugar", amenizou Raupp.

Insustentável

VALDIR RAUPP

SENADOR (RR) E PRESIDENTE INTERINO DO PMDB

"Ninguém pode dizer que a imagem do PMDB está comprometida por causa de uma pessoa. Problemas assim acontecem no Japão, na Inglaterra, em qualquer lugar"

DILMA ROUSSEFF

PRESIDENTE DA REPÚBLICA, EM CONVERSA COM MICHEL TEMER

"A situação é insustentável"

POLÊMICAS

Dezembro de 2010

Depois de exercer o mandato de deputado por 6 legislaturas, é convidado a assumir o Ministério do Turismo (pela cota do PMDB)

Logo após a nomeação, o Estado revelou que Novais havia usado dinheiro público para pagar despesas de um motel, em junho daquele ano

Agosto de 2011

Uma operação da PF, que investigou um esquema de desvio de recursos na pasta, prendeu o número 2 do Turismo, o ex-secretário executivo Frederico Costa (foto)

Estado revela que cúpula do Turismo articulou para segurar a liberação de uma emenda para preservar a imagem do deputado Marcelo Castro (PMDB-PI), que era alvo de denúncias

Setembro de 2011

Na terça-feira, denúncias indicaram que Novais teria usado dinheiro público para pagar o salário da sua governanta entre 2003 e 2010. A revelação foi feita pelo jornal Folha de S.Paulo

Uma nova denúncia publicada ontem no jornal mostrava a mulher do ex-ministro usando irregularmente um servidor da Câmara como motorista particular

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