Em 73 dias, Espanha veta 1/3 do total barrado em 2007

Até ontem, 950 brasileiros foram mandados de volta ao País; na Câmara, já surgem propostas de retaliação

William Glauber, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

A Espanha barrou a entrada de 950 brasileiros no país, de janeiro até ontem. Em pouco mais de dois meses, o número de inadmitidos pela Imigração no Aeroporto de Barajas, em Madri, já equivale a quase um terço do total de deportados ao longo de todo o ano passado, quando 3.013 brasileiros foram impedidos de entrar na Europa pela Espanha. Informações do Consulado-Geral do Brasil em Madri registram que, neste ano, 340 brasileiros foram barrados em janeiro, 452 em fevereiro e 158 em março.Com base nesses dados, constata-se que a Espanha impediu a entrada, em média, de 396 brasileiros na Europa por mês, em janeiro e fevereiro deste ano. No ano passado, a média era de 251 pessoas barradas mensalmente. Ambos os números superam significativamente a média de 20 brasileiros inadmitidos por mês em Barajas em 2006.O cônsul-geral do Brasil em Madri, Gelson Fonseca Júnior, explica que os números são contabilizados pelo governo espanhol e repassados às autoridades brasileiras. "Esse é um procedimento administrativo. Desse total, são poucos os brasileiros que buscam ajuda no consulado. Atendemos todos os que nos procuram. Nenhum brasileiro está abandonado", garante Fonseca, em resposta às queixas da mestranda em Física pela USP Patrícia Magalhães, retida por três dias em Madri.Tanto no caso da estudante da USP como no dos mestrandos do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Pedro Lima e Patrícia Rangel, Fonseca lembra das solicitações encaminhadas às autoridades espanholas para que permitissem a entrada dos brasileiros. As gestões, porém, foram frustradas. "Diálogo existe, mas a polícia espanhola tende a não considerar os argumentos. Não atendem nossas intervenções, na maioria das vezes", lamenta. Fonseca ainda afirma que ao processo judicial de deportação não cabe recursos. "A polícia espanhola age para evitar a imigração ilegal. No caso dos estudantes, estava claro que não imigrariam, mas eles não consideraram nossos apelos. Geralmente, dizem que não cumprem com a apresentação de algum documento", diz o cônsul.RETALIAÇÃONo rastro das desavenças diplomáticas envolvendo Brasil e Espanha, com cidadãos dos dois países sendo barrados e deportados nos aeroportos, ontem figuras políticas de Brasília começaram a opinar sobre o assunto. O deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança do Rio, propôs retaliação às empresas espanholas que atuam no Brasil.Itagiba disse que executivos das multinacionais estariam trabalhando no Brasil com o visto de turista. "Pelas informações que recebi, são todas, as de gás, telefone, setor financeiro e de pedágio em rodovias", disse Itagiba ao Estado. Ele ainda defendeu retaliação. "A PF e as autoridades de imigração brasileira devem tratar com a mesma moeda os espanhóis." O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) disse que os brasileiros devem deixar de usar os serviços do Santander e da Telefônica. "Se a Espanha não mudar, o País deve fazer campanha para que os brasileiros fechem suas contas no Santander e mudem de telefônica."De Lisboa, o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse, ontem, que sem respeito não é possível uma "associação estratégica" para superar a atual crise entre Brasil e Espanha. "Existem leis, e cada país admite ou não a entrada de estrangeiros. Mas não faz sentido cientistas brasileiros em trânsito na Espanha serem retidos por dias", disse Chinaglia. Ele afirmou também que não é possível prever a evolução da crise, mas ele espera que a Espanha mude a sua atitude.Empenhada na redução da crise, a embaixada espanhola não quis se pronunciar a respeito das propostas. Conforme entendimentos entre os ministros das Relações Exteriores de Brasil e Espanha, Celso Amorim e Miguel Ángel Moratinos, haverá uma reunião, depois da Semana Santa, em Madri, para dar fim ao impasse. COLABOROU JOÃO DOMINGOS, COM EFE

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