Em alta, os prédios ''com design''

Edifício de Isay Weinfeld não é caso isolado em São Paulo, que tem outros projetos ousados

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

07 Fevereiro 2009 | 00h00

O edifício 360°, criado por Isay Weinfeld e premiado nesta semana com o Future Projects Awards, da revista inglesa Architectural Review, não é um caso isolado no futuro breve de São Paulo. Como ele, outros prédios residenciais com arquitetura ousada e contemporânea estão sendo ou serão erguidos na cidade até 2010. E, também como ele, estão obtendo sucesso comercial mesmo em tempos de crise, porque caíram no gosto de um público bem informado, aberto à estética, que tem crescido muito. Cada vez mais os prédios "com design" ou "com assinatura" mostram que são viáveis numa cidade que ainda se caracteriza por empreendimentos ditos "neoclássicos".A mesma incorporadora responsável pelas obras do 360°, Zarvos Idea, participa com a parceira CP3, dos irmãos Rafael e Tonico Canto Porto, e com o escritório Axpe Imóveis, do publicitário José Eduardo Cazarin, do que chamam de "Movimento Um" - uma série de construções projetadas por arquitetos talentosos e preocupadas com uma ocupação urbana mais humana e sustentável. São prédios em geral mais baixos, com oito andares, que pretendem estar mais valorizados com o passar dos anos graças à linguagem não convencional. "Há um interesse crescente por arquitetura contemporânea de qualidade", diz Cazarin, "por parte de um público que é mais viajado e acha graça na inovação".Entre os prédios, alguns dos quais podem ser vistos em croquis nesta página, estão trabalhos de escritórios de arquitetura em ascensão como Triptyque, Grupo SP, Gui Mattos e Andrade Morettin. É deste último, por sinal, o primeiro que ficou pronto, na Rua Aimberê, no Sumaré. O arquiteto Marcelo Morettin, de 39 anos, sócio de Vinicius Andrade, de 40, conta que o escritório vem sendo cada vez mais procurado para esse tipo de projeto. "Alguma coisa está mudando", diz. "Existe um público em São Paulo que não se sente representado pelo tipo de arquitetura que é praticado pelo mercado imobiliário. Percebendo isto, alguns incorporadores com uma visão mais cosmopolita da vida urbana se organizaram para lançar edifícios que respondessem a essa demanda."Os projetos todos dão muito valor à variedade de texturas e materiais e a fachadas cheias de ritmos e recortes. Além de formas assimétricas, cores marcantes e baixa estatura, eles têm em comum a intenção de que os apartamentos tenham ótima luminosidade, jardinagem distribuída, varandas amplas e plantas flexíveis - como se fossem casas. Dificilmente há dois apartamentos iguais, pois são adaptáveis às necessidades de cada morador. No caso do Aimberê (escolhido pela Editora Phaidon para integrar um livro sobre arquitetura atual), alguns apartamentos são de fato casas, pois têm um quintal, ou seja, uma fração da área do térreo. IDENTIDADEOutro ponto comum é que a maioria se localiza na zona oeste, em bairros como Vila Madalena, Alto de Pinheiros, Vila Romana e Pompeia, para onde a cidade tem se desenvolvido. Bolados com a consciência desse entorno, eles aumentam a identidade da região ao dialogar com um público jovem, que gosta de arte e diversão. Mas há exemplos em outras regiões, como na Rua Itacolomi, em Higienópolis, com projeto do Grupo SP. Álvaro Puntoni, um dos arquitetos, destaca o extenso banco voltado ao exterior para se contrapor a essa "cidade de grades" que é São Paulo, na definição de Lina Bo Bardi.Se metragem, localização e acabamento costumam compor o preço de um apartamento, o fato de trazer uma arquitetura mais inventiva não o encarece? Otávio Zarvos, proprietário da incorporadora, diz que não. "Os preços são competitivos, e além disso a chance de valorização é muito maior." Isso explicaria o êxito desses projetos ainda na pré-venda. O prédio da Rua Simpatia, projetado pelo Grupo SP, já foi 90% vendido. No da Fidalga, do escritório franco-brasileiro Triptyque, só existem mais duas unidades à venda. E mais de 60% dos 62 apartamentos criados por Weinfeld já têm donos. "O que é único e bacana vende primeiro e pelo melhor preço, pois não há concorrência em termos de oferta", resume Cazarin. "É uma lógica linear."Zarvos atribui a procura a um "enriquecimento cultural" de parcela dos brasileiros, que leem sobre arquitetura e design em sites, livros e revistas internacionais e valorizam o desenho em produtos de tecnologia como os da Apple. Cazarin, que viaja constantemente para países próximos como Argentina, México e Chile para acompanhar as novidades arquitetônicas, diz que há "prédios maravilhosos" sendo construídos ali e no mundo todo. "Essa demanda por arquitetura de vanguarda já existe há duas décadas. Agora chegou aqui." Puntoni lamenta o nível ainda baixo da média das construções novas em São Paulo, mas comemora a tendência: "Já estava na hora de superar o ?neo-neo?, de ter uma arquitetura mais humana."ALIENAÇÃONão que os prédios "neoclássicos" - simétricos e grandalhões, com colunas e ornamentos antigos misturados a vidros azuis ou verdes - estejam com os dias contados. "Eles são a emulação de uma herança e de um refinamento clássico que não nos pertencem", diz Cazarin. "Tudo nesses edifícios é falso, inclusive a suposta sofisticação e luxo." Mas já começa a deixar de ser tão dominante. Morettin diz não duvidar se "em alguns anos ele passar a ser associado ao mau gosto ou, no mínimo, a uma certa alienação cultural". Zarvos diz que esses prédios foram e são construídos para atender o gosto massificado, embora ache "incrível" como as coisas estão mudando. "Na Europa o neoclássico se restringe mais e mais aos subúrbios." Ele acredita que os resultados comerciais da nova arquitetura possam inspirar outros incorporadores - e os arquitetos dizem que já têm sido procurados por eles - a fazer projetos diferentes. E alerta: "Esse tipo de arquitetura é mais complexo e envolve tempo, envolve planejamento. Mas todos saem ganhando com isso, a começar pela cidade. É uma espécie de idealismo com resultados".

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