ANDRE DUSEK/ESTADAO
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Na Câmara, ex-gays dizem que nunca foram homossexuais de fato

Para uma plateia formada por parlamentares evangélicos, a maioria dos depoentes atribuiu a mudança na sexualidade a Deus

Carla Araújo, O Estado de S. Paulo

24 de junho de 2015 | 19h32

BRASÍLIA - "Nós existimos". Foi com essa frase que o pastor e escritor Joide Pinto Miranda começou e encerrou sua exposição durante a audiência pública que ouviu depoimentos de ex-homossexuais na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, 24. Levantando uma foto antiga em que mostrava sua fase de travesti e depois mostrando um cartaz ao lado de sua família, Miranda disse ainda que sua experiência pode provar que ninguém nasce gay. "É uma conduta que pode ser desaprendida", afirmou. 

Para uma plateia formada por parlamentares evangélicos, a maioria dos depoentes atribuiu a mudança na sexualidade a Deus. Eles disseram que apenas na igreja encontraram o amparo necessário para superar os traumas que os levaram a ter relações com pessoas do mesmo sexo. Alguns criticaram o Conselho Federal de Psicologia, que proíbe que se trate homossexualidade como doença e que psicólogos ofereçam "a cura gay". 

Em comum, todos relataram que foram vítimas de abuso, e que a violência a que foram submetidos foi a principal razão para continuar as práticas homossexuais. Todos afirmaram que "nunca foram" e "nem nasceram" e sim "estavam" gays. "Hoje sofro preconceito quando digo que sou ex-gay. Na verdade nunca fui gay, nasci heterossexual, mas a vida me levou para esse caminho", disse Miranda, que diz ter sofrido abuso aos seis anos de idade e apontou influência também da ausência paterna. 

A estudante de psicologia e radialista, Raquel Celeste Vasconcelos Guimarães disse que desenvolveu uma repulsa por homens após ter sido abusada dos 8 aos 15 anos e que começou a sentir desejo por mulheres aos 11 anos. "Isso foi se desenvolvendo e me assumi, achei que tinha encontrado a felicidade", disse, ressaltando que é feliz mesmo atualmente ao estar casada com um homem. "Deixei essa opção sexual. Nunca fui homossexual, foi devido à situação que me aconteceu", afirmou. 

O pastor Robson dos Santos Alves, ao começar seu depoimento, disse que estava vivendo na audiência desta quarta uma "coisa sobrenatural". "É um marco o que está acontecendo", disse. Ao contar sua história, Alves afirmou que, após ser abusado, "se sentia sujo" para se relacionar com mulheres. "Deixei a prática homossexual com a ajuda de Deus e da fé. A verdade é que nunca fui gay", disse. 

A audiência teve ainda o depoimento da esposa de um ex-gay. Ana Paula Cavalari disse que o marido é um pai exemplar e que "nunca foi verdadeiramente gay". "Ele sempre foi heterossexual. Ele foi levado para o homossexualismo por conta de abusos e traumas", disse. "Sou esposa de um ex-gay, somos felizes e casados há 20 anos e também sofro preconceito. Existo também", disse. 

O também pastor e radialista Arlei Lopes Batista disse que seu processo de construção da homossexualidade começou no ventre da sua mãe. "Minha mãe não desejou um homem, ela me desejou mulher. Ela me vestia de mulher até os quatro anos e isso me deixou confuso", disse. Batista, que também disse ter sido abusado, afirmou que continua sofrendo preconceitos por conta dos seus trejeitos femininos. "Se a minha mão mexe para lá ou para cá, ela não define quem eu sou. O que define quem eu sou é o que eu acredito. E eu sou homem", disse.

Oxalá. O pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que fez o requerimento para a audiência pública, disse que toda a sociedade precisava assistir aos depoimentos. "Oxalá que toda a sociedade estivesse assistindo", afirmou, pedindo aos deputados que procurassem o vídeo e gravassem 5 mil cópias em DVD de "alta resolução para esparramarem" pelo País. 

Feliciano negou que a realização da audiência seja uma tentativa de ressuscitar o projeto que ficou conhecido como "cura gay". "Não existe cura, porque não é doença. É um fenômeno de comportamento", afirmou. "Homossexualidade se tornou um modismo".

Coube ao deputado Adelmo Carneiro Leão (PT-MG) uma das falas contrárias a dos parlamentares evangélicos. O petista disse que era errado afirmar que todos os gays sofreram abuso sexual. "Não podemos dizer que todos sofreram abusos, certamente não foi. Nem que o abuso leva a homossexualidade. Não é", disse. 

Presente na audiência, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) chegou a fazer uma intervenção para pedir que o presidente da Comissão, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), se declarasse impedido de conduzir os trabalhos. O pedido foi indeferido pelo petista, que disse que, apesar de ter sido contrário à realização da audiência, estava tendo um comportamento isento. "Não me julgue por aquilo que vocês eventualmente façam", disse a Bolsonaro. 

Os deputados Erika Kokay (PT-DF) e Jean Jean Wyllys (Psol-RJ), defensores da causa gay, foram bastante criticados por não estarem presentes na audiência. O deputado Major Olímpio (PDT-SP) disse que os críticos à audiência são "covardes e omissos". "Sabem nos denominar a bancada da bala, a bancada da bíblia, mas não têm moral de olhar no olho e debater", disse. 

Apesar do tema polêmico, a plateia em sua maioria apoiou o tema e aplaudiu os depoimentos e as falas dos deputados da bancada evangélica. Um pequeno grupo de simpatizantes da causa gay, com bandeiras coloridas, assistiu à audiência, tentou fazer algumas intervenções e chegou a bater boca com alguns parlamentares e presentes. Já no fim, eles aplaudiram e gritaram frases de "me representa" ao deputado Adelmo Carneiro Leão (PT-MG), que discursou ponderando opiniões dos parlamentares anteriores. 

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