Leonardo Augusto
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Em Barão de Cocais, MG, a primeira casa no caminho da lama caso a barragem da Vale se rompa

A propriedade do operário Ademir Pereira de Jesus, que vive com sua família, fica às margens do Rio São João, caminho natural da lama na hipótese da represa se romper

Leonardo Agusto, Especial para

01 de junho de 2019 | 22h00

Barão de Cocais. A família do operário do setor de montagem industrial Ademir Pereira de Jesus, de 53 anos, moradora do bairro Três Moinhos, em Barão de Cocais (MG), voltou a se reunir na última quarta-feira, 29. Ademir tinha emprego no Rio Grande do Sul. Pediu contas e retornou para a mulher, o filho e a filha. O operário estava preocupado e cheio de razão para isso. Sua casa será a primeira da cidade a ser atingida pela lama de rejeitos de minério de ferro da Vale caso a barragem Sul Superior, da empresa no município, se rompa.

A propriedade da família fica às margens do Rio São João, caminho natural da lama na hipótese da represa se romper. Está a 50 metros da barreira montada pela Defesa Civil de Minas para proibir o acesso à estrada que dá aos distritos de Cocais, como Socorro e Piteiras, já evacuados. 

Praticamente ao lado do muro da casa de Ademir, lê-se em placa "Posto de bloqueio da Defesa Civil. Não ultrapasse". No local há ainda uma guarita com seguranças e dois veículos com equipamento de som que serão usados para emitir o aviso para que a população saia de casa se a barragem ruir.

A previsão da Defesa Civil é que, rompida a represa, a lama atingirá a cidade, e, portanto, a casa da família de Ademir. O percurso da lama até o local deve ser de 1h12min. "Fiquei agoniado com isso. Com a família aqui sozinha", disse o operário, que não pensa em deixar a casa. "Se tivesse outra aqui, até que poderia ser", ponderou. Apesar de o medo em Barão de Cocais perdurar desde 8 de fevereiro, quando ocorreu a evacuação de moradores dos distritos de Barão de Cocais, Ademir só decidiu voltar para cada depois do anúncio pelas autoridades de que o talude da mina de Gongo Soco, de onde era retirado o minério cujo rejeito ia para a barragem da Vale no município, começou a desmoronar.

O principal impacto disso seria o rompimento da barragem, provocado por um possível abalo sísmico, que seria gerado caso volume maior do talude caia. Na sexta-feira, 31, por volta das 5h, monitoramento apontou desmoronamento maior do o que vinha ocorrendo. Não houve, segundo a Vale, impacto na barragem, estrutura que já passa por problemas de estabilidade. Em 22 de março, a represa foi colocada em nível 3 de segurança, que alerta para a possibilidade de ruptura a qualquer momento.

Ademir de Jesus acredita que não terá problemas em salvar sua vida e a de sua família caso a lama desça. Ele confia no alarme a ser dado pelos veículos de apoio será suficiente. Conforme orientação das autoridades, os moradores de Barão de Cocais precisam sair imediatamente de suas casas ao ouvirem o sinal e devem se dirigir a um dos pontos de segurança da cidade. 

No caso da residência dele, o ponto mais próximo fica distante seis minutos de caminhada. "Pego minha moto e saio", avisou o filho do operário, Davi Pereira de Jesus, de 19 anos. A orientação da Defesa Civil, no entanto, é que os moradores saiam a pé de casa. O objetivo é evitar congestionamento, o que colocaria em risco ainda maior a vida das pessoas.

A família mora ali há 12 anos. A residência tem quatro quartos, três banheiros e um enorme quintal com pés de manga, abacate, banana e mamão. Um regato corta a propriedade e deságua no São João. "Investi todas as minhas economias aqui", lamentou o operário, que agora procura emprego na cidade. A mulher dele, Lucilene Rodrigues, de 48 anos, afirma ter condições de suportar o momento. "A religião ajuda", justificou a dona de casa, que é evangélica. 

De partida

Mas em Barão de Cocais há quem fica e há quem vai. A dona de casa Emilaine da Cruz, de 39 anos, também morava próximo ao São João, numa área mais próxima ao centro da cidade. Ela dividia o lar com dois filhos, um de quatro anos e outro de apenas um, e se mudou neste sábado, 1, para uma casa que considera mais segura. "É uma área de risco, mas, com crianças, as coisas ficam mais difíceis. E se tivermos que sair à noite, por exemplo?", questionou. 

Emilaine afirma que já queria ter deixado a casa em que vivia. "Mas não achava outro lugar para morar", logo respondeu. "Vamos ver se mais pra frente teremos uma tranquilidade maior". O que Emilaine espera para o futuro, hoje, é algo raro em de Cocais. As conversas nas ruas, praças e comércio invariavelmente recaem na possibilidade de ruptura da barragem.

A movimentação de veículos da Vale e autoridades também sinaliza o tempo todo para um possível desastre provocado pela lama na cidade. Neste sábado, 1º, um efetivo de 31 bombeiros e 11 viaturas foi colocado no município para acompanhamento de obras que a Vale faz para tentar conter a lama, caso a barragem se rompa.

Na expectativa do rompimento da tragédia, vivem o casal Ademir e Lucilene Pereira, além dos filhos Lívia e Davi e a cadela Xispita. 

 

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