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Em busca da São Paulo esquecida

Na internet, Douglas Nascimento cataloga a cidade que pode sumir

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

A lente de câmera digital bem pequenininha que Douglas Nascimento sempre carrega no bolso já está treinada para traduzir o descaso em beleza. Todo santo sábado de madrugada, quando a cidade ainda acorda, o fotógrafo paulistano de 34 anos percorre os mais escondidos cantos de São Paulo em busca de ruínas, sujeira, abandono, degradação. São tijolos desgastados, reboco caindo, janelas quebradas. Esqueletos de concreto. Imóveis com janelas eternamente fechadas. Memórias simplesmente esquecidas. Ainda assim, Douglas e sua diminuta Lumix FV28 registram tudo, fotografam todos os detalhes, anotam os mais discretos contornos. E, no final das contas, dão sentido para algo em que ninguém mais repara.

Douglas é editor de um site chamado São Paulo Abandonada (saopauloabandonada.com.br), espécie de canal virtual de fiscalização que ele criou em janeiro para inventariar e preservar o que restou do patrimônio paulistano. São fotos de casas, fábricas e galpões abandonados, muitos dos quais correm o risco iminente de desabar ou de serem demolidos para dar lugar a mais um daqueles espigões residenciais com detalhes neocoloniais. Até agora, ele já visitou e fotografou 120 endereços - são capítulos importantes da história de São Paulo, casos flagrantes de patrimônio invisível, bens tombados imperceptíveis, que estão ali mas ninguém se dá conta.

"Sempre gostei de fotografar fachadas, casas, então comecei a montar um arquivo pessoal com essas imagens", conta ele. "Certo dia percebi que vários imóveis que havia registrado já não existiam mais. Um amigo meu me indicou um site de Portugal, o "Lisboa Abandonada", e achei que era hora de fazer um aqui, até para evitar que outras casas desaparecessem. Agora tiro a foto do local, peço ajuda de uma amiga historiadora para levantar a memória do endereço, e ainda localizo num mapa para que qualquer pessoa encontre. Principalmente, para que a Prefeitura encontre e faça alguma coisa."

No site é possível conhecer palacetes entregues à própria sorte na região central, antigos cinemas que viraram estacionamento, teatros fechados, hospitais esquecidos, edifícios que se transformaram em cortiços, casarões que já sumiram do mapa, vilas operárias centenárias que parecem cidades fantasmas. Há um óbvio fio condutor - mudam-se os endereços, os bairros e as zonas, mas fica evidente que a falta de uma política eficiente de preservação se repete por toda a cidade.

"Já vi de tudo por aí, na semana passada mesmo descobri uma casa bandeirista que já era dada como demolida", diz. "Tenho uma câmera profissional, mas prefiro usar uma digital bem pequena que carrego no bolso para onde for, e aí dá para fazer todos os flagras. Além disso, também sempre tenho um gravador à mão, porque vejo vários exemplos de patrimônio abandonado quando estou dirigindo, mas não tenho tempo de parar. Junto tudo isso, faço uns roteiros prévios, e vou no sábado às 5 horas percorrer e fotografar os lugares. É bom ser sábado de manhã, porque alguns endereços são na periferia, são perigosos, mas descobri que vagabundo e criminoso não acordam cedo."

Nos últimos meses, com o sucesso do site e com a inclusão de um canal para denúncias anônimas, o trabalho de Douglas aumentou exponencialmente. "São quase mil visitas diárias, e às vezes tenho de desligar o celular porque não paro de receber novas denúncias", conta. "Acho que hoje está aumentando o interesse pelo patrimônio. O meu interesse por esse assunto surgiu por causa do fotógrafo Augusto de Azevedo, que foi um dos únicos a retratar a transformação da cidade no fim do século 19. Se não fossem as fotos dele, não saberíamos como era São Paulo. Até o túmulo dele no Cemitério da Consolação estava abandonado. Quero agora fazer o mesmo trabalho, quero que no futuro peguem minhas fotos e vejam um registro da São Paulo que acabou sendo demolida."

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