Em busca de espaço, violonistas se unem no Comboio de Cordas

Grupo de 16 músicos paulistanos ou radicados na cidade permite intercâmbio entre os antigos e a nova geração

Filipe Vilicic - O Estado de S. Paulo,

08 de março de 2010 | 08h47

O violonista Muari Vieira percebeu que seus colegas músicos tinham uma reclamação em comum: "Sempre acompanhamos um cantor e raramente temos oportunidade de mostrar nosso trabalho solo". Realmente são raros os violonistas que se destacam na cena apenas tocando seus instrumentos. "Temos o caso, de exceção, de Yamandu Costa", lembra Muari. "Mas, normalmente, mesmo os profissionais experientes ficam na sombra de famosos." Para solucionar esse problema, ele teve a ideia de montar um grupo de violonistas da cidade de São Paulo que, juntos, batalham para ganhar mais notoriedade. Assim surgiu, em outubro do ano passado, o Comboio de Cordas.  

 

 

 

No Comboio, há 16 violonistas da cena paulistana. Tem veteranos - como Zé Barbeiro, de 57 anos, que aprendeu sozinho a tocar o violão de sete cordas e é especialista em chorinho - e novatos - caso de Leonardo Costa, de 27 anos, idealizador do projeto ao lado de Muari, de 29. Todas as terças, integrantes (normalmente dois) se apresentam no Teatro da Vila (Rua Jericó, 256, Vila Madalena, a partir das 20h30). O ingresso é no esquema "pague quanto quiser". Após os shows, os artistas servem salgadinhos e bebidas para a plateia e promovem discussões sobre música.

A primeira temporada do grupo no Teatro, no ano passado, atraiu cerca de 50 pessoas por sessão. Amanhã, tem início a segunda leva de shows, que deve durar até novembro, com os mestres do choro Zé Barbeiro e Alessandro Penezzi. "Unidos, conseguimos mais força para divulgar o trabalho de cada um de nós", diz Leonardo Costa. "Somamos público. A plateia fiel do Barbeiro, por exemplo, passa a ouvir os outros do Comboio. Também conseguimos mais repercussão na mídia e opções de casas para tocar." Todo dinheiro arrecadado com patrocínios e "passando o chapéu" nos espetáculos é usado para projetos do grupo.

"Nosso primeiro objetivo é consolidar apresentações diárias pela cidade e gravar um CD e um DVD", planeja Muari. "Ainda queremos formar um nicho de pessoas que gostam e consomem arranjos instrumentais." Mesmo violonistas já consagrados tiram proveito do projeto. Zé Barbeiro, que acompanhou famosos como Elizeth Cardoso, Zeca Pagodinho e Leci Brandão, vê vantagens. "Dá para mostrar minhas composições", conta. "Encontrar com os colegas é ainda uma forma de se divertir e trocar experiências. Ensino e aprendo com os jovens."

A iniciativa já deu resultados. O assistente acadêmico Caio de Andrea foi ao seu primeiro show no ano passado por indicação de amigos. Tornou-se um habitué e, hoje, sugere a todos que compareçam ao Teatro da Vila para escutar os violonistas. "É bom saber que há artistas preocupados em oferecer som de qualidade à cidade", afirma. "Músicos ousados, sem medo de tentar realizar algo diferente e avesso ao que a típica indústria cultural propõe."

Além dos shows, o público também é atraído pelas conversas com os músicos após o espetáculo. "É um diferencial, se comparado a outros espetáculos", diz Caio de Andrea. "Dá para entender melhor o processo criativo e de composição da obra." Os integrantes do Comboio adotaram o papo, que é regado a refrigerantes e salgadinhos, como forma de aproximar, entender e fidelizar o público. "Assim, podemos saber se o que tocamos, que é diferente do que costumam ouvir por aí, é compreendido e aceito", acrescenta o violonista Muari.

PARA MARCAR NA AGENDA

Os shows do Comboio de Cordas ocorrem às terças no Teatro da Vila (Rua Jericó, 256, V. Madalena), a partir das 20h30 A entrada é gratuita. Mas os músicos pedem na porta alguma colaboração para o projeto (e é de bom tom deixar algo)

Amanhã, quem se apresenta é a dupla de chorinho Zé Barbeiro e Alessandro Penezzi. Parceiros, eles costumam tocar juntos em bares paulistanos

 

Está marcado para o dia 16 o show do gaúcho Cau Karam, que dedilha violão, violão de 7 cordas, viola de 10 cordas e cavaquinho, e Paulo Ribeiro, especialista em MPB

Na semana seguinte, sobem ao palco Leonardo Costa, um dos fundadores do movimento e com um trabalho de composições instrumentais, e Alexandre Cueva, que já acompanhou famosos, como o cantor Zeca Baleiro

Muari Vieira, idealizador do projeto, e o elogiado violonista austríaco Michi Ruzitschka - radicado em São Paulo - fecham a agenda de março no dia 30. Ambos têm influências de jazz e MPB. Ultimamente, Ruzitschka tem dedicado seus estudos à música africana

A temporada do Comboio de Cordas está prevista para seguir até o mês de novembro

 

'A UNIÃO FAZ A FORÇA' - Grupo posa para foto no palco do Teatro da Vila, na Vila Madalena: shows são realizados todas as terças-feiras e a temporada deste ano vai até novembro

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