Em cartaz, a arqueologia paulistana

Exposição na casa bandeirista Sítio Morrinhos conta o passado da cidade desde a época dos caçadores nômades

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

A casa bandeirista do Sítio Morrinhos, no Jardim São Bento, zona norte da capital, recebeu a missão de contar a história dos primeiros moradores de São Paulo. Não, não estamos falando dos jesuítas que, capitaneados pelos padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, aqui fundaram um colégio em 1554. Estamos falando dos caçadores nômades que, por diversas épocas, se estabeleceram no planalto paulista, desde 25 mil anos atrás. Resgatar a pré-história de São Paulo - e atiçar a curiosidade da população para a arqueologia - é o objetivo da mostra Escavando o Passado, em cartaz a partir de hoje no Sítio Morrinhos. "Fizemos uma linha do tempo desde as primeiras ocupações da região até a formação do núcleo urbano", explica a arqueóloga Cintia Bendazzoli, curadora da exposição, que terá cerca de 300 peças.Todo esse material foi selecionado do acervo de 100 mil itens do Centro de Arqueologia da Cidade de São Paulo, órgão vinculado ao Departamento de Patrimônio Histórico (DPH). A única exceção é uma urna funerária utilizada por índios ceramistas, estima-se, há pelo menos oito séculos. O objeto pertence à coleção do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP). "O interessante é que ele foi encontrado por um coveiro, em 1896, no cemitério da Quarta Parada", comenta Cintia. "Ou seja: o homem sempre escolheu os mesmos lugares para enterrar seus mortos."As peças mais antigas da exposição são artefatos feitos de pedra lascada, utilizadas pelos ancestrais que viveram entre 25 mil e 5 mil anos atrás. "Há pontas de flecha e instrumentos usados para cortar e furar", exemplifica a arqueóloga. A grande fonte desse material é o Sítio Lítico do Morumbi, perto do Clube Paineiras. Acredita-se que ali tenha funcionado uma "oficina" de produção de ferramentas, graças à abundância de rochas boas para tal uso. Nos anos 60, a região foi escavada e o material, retirado. O espaço montado na exposição simula como era esse sítio arqueológico.Em outro módulo, estão fragmentos de piso, adornos e pedaços de vestimentas encontrados durante a reforma, concluída no ano passado, da capela de São Miguel Paulista, a mais antiga da cidade, fundada em 1622. Há também um espaço dedicado a contar a história das casas bandeiristas, por meio de objetos como ferraduras e telhas. O próprio Sítio Morrinhos é uma atração à parte. A casa, construída provavelmente em 1702, serviu como sede da propriedade rural que existia ali. "Passou por vários proprietários, até ser adquirida pelos religiosos do Mosteiro de São Bento", conta a historiadora Maria Lúcia Perrone Passos, do Centro de Arqueologia da Cidade. "Funcionava como casa de repouso e retiro espiritual dos monges."Nos anos 50, as terras foram compradas por empreendedores imobiliários. Do loteamento, surgiu o bairro, batizado com Jardim São Bento em homenagem aos beneditinos. A casa bandeirista, preservada em um terreno de 8,8 mil m², foi entregue à Prefeitura. Após duas obras de restauração, em 1984 e 2000, o Sítio Morrinhos integra o complexo chamado de Museu da Cidade de São Paulo, com 11 casas históricas mantidas pelo DPH. A exposição deve se prolongar por, no mínimo, seis meses. É a primeira atividade do Centro de Arqueologia. "Mostrar esses objetos à população é uma maneira de dar a ela um retorno do nosso passado", acredita a arqueóloga responsável pelo recém-criado órgão, Lúcia Oliveira Juliani. Aliás, o Centro de Arqueologia só nasceu por causa de um episódio nocivo à história, ocorrido em um passado recente. O Sítio Lítico do Morumbi acabou na mão de três empresas do ramo imobiliário que, na construção de edificações, o danificaram. O Ministério Público Federal comprou a briga e, em 2006, as empresas foram obrigadas a compensar o estrago ressarcindo a memória paulistana. Elas bancaram obras de conservação e manutenção do Sítio Morrinhos e custearam a implementação do Centro de Arqueologia. Missão cumprida, a cidade agradece.Serviço: Exposição Escavando o Passado Sítio Morrinhos, Rua Santo Anselmo, 102, Jardim São Bento. Fone: (0xx11) 2236-6121. Grátis

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