Em comício, Lula oferece asilo a iraniana

Ele disse que apelaria ao 'amigo' Ahmadinejad, em favor de Sakineh, condenada à morte por apedrejamento em razão de suposto adultério

Evandro Fadel / CURITIBA, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu, ontem, durante comício em prol da candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência da República, em Curitiba, abrigo humanitário para a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, condenada à morte por apedrejamento, em razão de suposto adultério.

"Eu tenho de respeitar a lei de um país, mas se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã (Mahmoud Ahmadinejad) e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a receberíamos no Brasil", afirmou.

O presidente tocou no assunto quase ao fim do discurso, após fazer uma crítica aos Estados Unidos por repudiar sua tentativa de negociar a paz no Oriente Médio. "Parece que tem mais gente trabalhando contra a paz do que trabalhando pela paz", destacou. "Já que minha candidata é uma mulher eu queria fazer um apelo a meu amigo Ahmadinejad, ao líder supremo do Irã e ao governo do Irã."

Logo depois, Lula explicou a centenas de pessoas que se postaram na Boca Maldita - no centro de Curitiba - para ouvi-lo, que, no Irã, o adultério é punido com a morte por apedrejamento. Ele reconheceu que estava em situação difícil porque se tratava de falar da soberania de um país. Na quarta, o presidente havia dito que não tomaria nenhuma atitude em relação à iraniana, justificando que as leis de cada país precisam ser respeitadas sob risco de virar "avacalhação".

"Acho que é coisa muito grave o que está acontecendo", disse. "Nada justifica o Estado tirar a vida de alguém, só Deus dá a vida e só Ele é que deveria tirar a vida." Lula afirmou que já tinha feito outros apelos a favor de brasileiros condenados à morte, de uma francesa também no Irã e de americanos. "Mas os americanos também têm de liberar companheiros do Irã", defendeu.

Campanha. Mas Lula não deixou de atacar a oposição, principalmente ao pedir voto para candidatos dos partidos que o apoiam. "É preciso que tenha mais rigidez na escolha de candidatos a deputado e deputada para que o presidente não tenha a vida dificultada nos grandes projetos que o Brasil precisa."

As críticas maiores foram contra os senadores. "Peço a Deus que esta companheira (Dilma) não tenha o Senado que eu tive, que seja mais respeitador, que não ofenda o governo." Ele reclamou, também, do fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que teria tirado R$ 40 bilhões da saúde. "Eles, quando estavam no governo, usaram durante oito anos o dinheiro e, quando eu cheguei, eles derrubaram."

Em seu discurso, Dilma também atacou os adversários, começando pelo vice de José Serra (PSDB), deputado Índio da Costa (DEM-RJ). "Eu tenho um vice capaz e competente, que é o Michel Temer (PMDB-SP), não um vice inexperiente e incapaz", afirmou. E mirou na gestão dos tucanos: "Eles, quando puderam mais, fizeram menos." Para ela, os maiores cortes aconteceram na área de educação. "E trataram professores a cassetete."

A coordenação da campanha no Paraná espera que Dilma venha mais vezes, para tentar diminuir a desvantagem para o adversário tucano, que é uma das maiores entre todos os Estados.

Herança. Durante sua apresentação, a candidata do PT disse que todos ficarão tristes quando Lula deixar o cargo. "Mas vai estar passando a minhas mãos a herança dele, o que ele mais ama, que é o povo", afirmou. "Uma mulher pode cuidar do povo dele, pode apoiar o povo dele."

Lula disse que muitos perguntam o que ele fará quando sair do governo. "Eu quero ensinar um ex-presidente da República a ser um ex-presidente e não dar palpite a quem está governando", disse. "Tenho consciência de que esta companheira tem de montar o governo com a cara dela e não com a cara do Lula e, por ser mulher, sei que tem de colocar mais mulher no governo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.