Em Davos, venezuelano deixa chanceler brasileiro em saia-justa

Economista questiona apoio do País a governos autoritários e omissão diante de violação dos direitos humanos

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2011 | 00h00

Com menos de um mês no cargo, o chanceler Antônio Patriota já teve de explicar diante de uma plateia internacional, durante uma sessão sobre perspectivas do Brasil, por que o governo brasileiro apoia governos autoritários e silencia diante da violação de direitos humanos. A pergunta, em tom de cobrança, foi feita pelo economista venezuelano Ricardo Hausmann, professor de Harvard e veterano frequentador dos encontros anuais do Fórum Econômico Mundial.

Até a questão embaraçosa, os expositores brasileiros - o próprio chanceler, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o presidente do Citigroup, Vikram Pandit - haviam vendido com aparente sucesso a imagem de um país com economia saudável, rico de oportunidades e preparado para um papel internacional construtivo.

Patriota ouviu a pergunta sem alteração visível. Hausmann detalhou a questão: lembrou o silêncio do governo brasileiro diante do apoio venezuelano às Farc, o comentário de Lula sobre a morte de um oposicionista cubano em greve de fome (comparou os presos políticos a bandidos nas cadeias brasileiras) e o silêncio diante das violações de direitos humanos praticadas por governos autoritários, como o iraniano.

O chanceler repetiu a resposta padrão de seu antecessor, o ministro Celso Amorim, acentuando dois pontos: a ação silenciosa pode ser mais eficaz que a censura pública e a diplomacia brasileira valoriza a ação conciliadora e a Unasul (União das Nações Sul-americanas) tem servido a esse propósito. E foi um pouco além. Mencionou os progressos na proteção interna dos direitos, a existência de secretarias dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial e a eleição de uma mulher para a Presidência - neste caso, uma vítima da tortura.

Ação repetida. Hausmann repetiu o discurso do ano passado, quando ele foi escalado para ser moderador dos debates numa reunião a respeito do Brasil. As discussões se concentraram em questões como impostos e oportunidades de negócios até o professor venezuelano abandonar a posição neutra de moderador e mestre de cerimônias e passar a questionar as autoridades.

Na época, a resposta foi dada pelo ex-ministro do Desenvolvimento Luiz Furlan. Segundo ele, o governo dava preferência ao lado venezuelano, na disputa com a Colômbia, porque o Brasil vendia mais à Venezuela do que ao mercado. Era uma questão de pragmatismo, segundo Furlan. Ontem, como no ano passado, Hausmann classificou a resposta como insatisfatória.

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