Em discurso, líder dos sem-teto evidencia ´descaso´ do governo

?A gente vai brincar de casinha lá?? Foi assim que começou o discurso da líder do movimento sem teto que invadiu um prédio no centro de São Paulo na noite de terça-feira, 10. As palavras, com intenção de encorajar os manifestantes, traduzem bem o sentimento e os ideais da organização. Durante concentração no prédio onde é sediado o Fórum dos Cortiços, a coordenadora do movimento, Verônica Kroll, deixou bem clara toda a indignação que as manifestações dessa noite carregam. ?Estamos fora da constituição deste País? (...) pagamos altos impostos, nós é que mantemos a burguesia desse País?, disse. Antes de saírem do pequeno sobrado na Rua Bento Freitas, no centro de São Paulo, os integrantes do movimento rezaram uma oração pela moradia e um pai nosso. ?Nós aqui não podemos errar?, disse Verônica em seu discurso. Em meio aos que ouviam, estava Iraci Montenegro, de 74 anos. Aposentada pela prefeitura, teve sua propriedade confiscada e integrou-se ao movimento. A engajada senhora, fundadora do PT, desceu com dificuldade as escadas rumo ao prédio da Rua João Guimarães Rosa, próxima à Praça Roosevelt, no centro da capital paulista. Portando sua bengala, parou na porta para ver a ocupação do edifício na noite desta terça-feira, mas não entrou. Durante o trajeto, Verônica explica que é a "negociadora" do movimento, estando à frente para dialogar com o governo, falando o que a população que ganha até três salários mínimos tem pra dizer. Ela evidencia que os integrantes do movimento não querem morar de graça, mas apenas que o governo federal possibilite moradias a preços acessíveis. Na porta do antigo prédio do Banco Nacional da Habitação, que seria ocupado, é nítida a dificuldade de Zilda Roca, cadeirante e integrante do movimento há quatro anos. Após quase serem arrombados, os portões foram abertos pelo vigia do local, expulso em seqüência. Zilda ficou desalojada após o vencimento da Bolsa Aluguel e esperava ter direito à moradia, assim como todos deficientes deveriam ter. Sua maior dificuldade era a de locomoção, tendo sido empurrada pelo filho na cadeira de rodas durante toda ocupação. Outro que perdeu a moradia por causa do fim do programa Bolsa Família foi Antônio Gomes Rodrigues, que após 10 anos de movimento sem teto, também participava da ocupação com dificuldades de locomoção. Andando com ajuda de muletas, o pai de duas filhas pequenas avaliava o evento como ?um protesto, mais pra chamar a atenção das autoridades?. Ao ser perguntado se a polícia invadiria o local, já ocupado pelos manifestantes, disse que não acreditava na possibilidade. Domingas Maria da Conceição, 63 anos, já sabia que esperaria ali por um bom tempo. Descansava em uma cadeira no canto, lendo seu livro de orações. No movimento desde 2004, levou água, achocolatado e bolachas para aliviar a espera. Em menos de uma hora e meia de invasão, a Força Tática da Polícia Militar, conhecida como Tropa de Choque, entrou em ação, arrombando os fundos do prédio e invadindo o local. Os integrantes do movimento já tinham ordem de deixar o local caso os policiais entrassem. Foi o que fizeram. Na porta, ironizaram os policiais com palmas, evidenciando que o problema era com o governo federal. Os líderes do Fórum dos Cortiços e Sem-Teto de São Paulo esperavam resistir no local até a manhã do outro dia para negociar com o governo federal. A invasão do prédio no centro de São Paulo não foi isolada. Em outros diversos pontos da capital e na Grande São Paulo, e até em Brasília, outras manifestações ocorreram simultaneamente.

Agencia Estado,

11 Abril 2007 | 03h57

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