Em Ferraz, sem máfia, de 2,6 mil CNHs para 52

Investigação mostra que fiscais de Ciretrans eram cooptados por grupo

Bruno Tavares e Valéria França, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

A máfia fez explodir o número de carteiras de habilitação emitidas pela Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, considerada o "quartel general" da quadrilha. A Ciretran era comandada pelo delegado Juarez Pereira Campos, preso na Operação Carta Branca. As estatísticas mensais revelam que, antes da operação, a Ciretran de Ferraz chegou a confeccionar 2.685 habilitações em março deste ano, ficando atrás apenas da capital paulista. Em junho, quando o esquema foi desarticulado, a unidade expediu 52 CNHs - menos de 2% das emissões de março.Outras 15 Ciretrans do Estado investigadas por promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de Guarulhos e pela Polícia Rodoviária Federal também apresentaram queda na emissão de carteiras após as prisões, embora inferior à registrada em Ferraz. Pela análise das estatísticas é possível até detectar o provável período em que a quadrilha responsável pelas vendas e fraudes de CNHs começou a agir ou mesmo intensificou a emissão de documentos irregulares.De janeiro de 2003 a fevereiro de 2007, a Ciretran de Ferraz expediu, em média, 600 habilitações por mês. De fevereiro para março de 2007, o número de CNHs feitas na cidade saltou de 567 para 1.014 - aumento de quase 79%. Depois disso, a média de emissões passou a ser de 1,5 mil carteiras, chegando ao pico de 2.685 em março.As investigações revelaram que os responsáveis por fiscalizarem o funcionamento das Ciretrans haviam sido cooptados pela quadrilha. Na casa do investigador Aparecido da Silva Santos, o Cido, os policiais apreenderam uma lista da propina. Em duas agendas havia anotações com nomes e lugares ao lado de valores. Junto à palavra "corregedoria" estava, por exemplo, um preço: R$ 30 mil. Após a descoberta do esquema, a Secretaria da Segurança Pública determinou a substituição de três delegados da corregedoria do Detran - entre eles o próprio corregedor Francisco Norberto Rocha de Moraes. Os outros dois delegados - Vlademir Constantino de Oliveira e Francisco Gastão Luppi de Castro Filho - foram remanejados para delegacias do Departamento de Polícia Judiciária da capital.A Assessoria de Imprensa do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) informou que a atual corregedora, delegada Maria Inês Trefiglio Valente, continua trabalhando no caso, mas não dá entrevistas.Já o presidente do Sindicato das Auto-Escolas e Centros de Formação de Condutores do Estado de São Paulo, José Guedes Pereira, disse acreditar que a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, de conceder liberdade a 17 acusados de integrar a máfia das carteiras, vai prejudicar as investigações. "Não dá para discutir uma decisão judicial, mas acredito que a medida vai atrapalhar. O processo ficará mais moroso". Como a decisão foi tomada pela mais alta Corte do País, não cabem recursos. "A possibilidade de a decisão ser reformada pela turma existe, mas é quase impossível", disse o promotor Marcelo Oliveira, do Gaeco.

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