Em Ilhota, mortos foram enterrados sem identificação

A cada pouso de helicóptero no campo de futebol municipal, no Centro de Ilhota, a multidão corre até a cerca. O barulho das aeronaves traz também o desespero, a dor e um sentimento de impotência entre os moradores. Os sobreviventes descem sujos de lama, com o rosto cheio de espanto e sofrimento.Nesse município, cortado pelo Rio Itajaí-Açú e com cerca de 12 mil habitantes, as chuvas mataram pelo menos 18 pessoas até agora. Na sua margem esquerda está a catástrofe, onde fica a região rural e o Morro do Baú. As casas em volta foram atingidas pelo deslizamento de terra e os corpos encontrados foram enterrados lá mesmo. Não houve nem velório, o que deixa os moradores que estão do outro lado da cidade - e não foram atingidos - ainda mais apreensivos. Ninguém sabe exatamente os nomes das vítimas nem quantas são.A Defesa Civil estima que ainda estejam esperando resgate - que só pode ser feito por helicóptero - pelo menos 60 pessoas. Outras 14 estão desaparecidas. Bombeiros, sobreviventes e a população em geral falam que o número de soterrados ainda pode subir, pois não têm notícias de outras famílias que estariam isoladas. Sentada na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Ilhota, que virou um dos oito abrigos municipais improvisados, a funcionária pública Terezinha Marthendal, de 38 anos, parecia ter testemunhado uma guerra. Emocionada, ela, o marido, Gilnei Hentchen, de 33 anos, e uma filha de 4 anos foram resgatados ontem de manhã, de helicóptero, do Morro do Baú."Tudo começou com chuva e temporal ainda na quarta-feira (da semana passada). Na quinta-feira, escutei um estrondo grande no piso e comentei: ?Que coisa estranha, mexeu a terra?. No sábado à tarde, o Baú começou a desmoronar e sumiu no meio das terras", conta Terezinha. Ela perdeu parentes e amigos. "Foi muito desespero, nunca tinha visto nada parecido na vida. É pior do que uma guerra. Eu prefiro correr de uma enchente, de um incêndio, mas nunca correr da terra. Ela puxa a gente."A funcionária pública ainda não consegue nem imaginar o que fará a partir de agora e onde vai morar. "Só sei que não volto nunca mais para o Baú. Lá só ficou uma lembrança ruim, um aterro. Parece que soltaram uma bomba ali."

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