Em meio a críticas, governador promete mais ações policiais

Organizações de defesa dos direitos humanos querem investigar a atuação policial em operações em favelas

TALITA FIGUEIREDO, do Estadão, e RAYMOND COLITT, REUTERS

19 Outubro 2007 | 15h43

Dois dias após uma megaoperação com mais de 200 homens da polícia civil do Rio de Janeiro, em que 12 pessoas morreram, entre elas um garoto de apenas 4 anos, está crescendo a pressão em torno do governador Sérgio Cabral Filho. Organizações de defesa dos direitos humanos, entre elas a Organização das Nações Unidas (ONU), reivindicam um procedimento para investigar a conduta de policiais envolvidos em operações, como a que aconteceu na Favela da Coréia, em Senador Camará.   Veja também: Operação do Bope deixa dois mortos na Cidade de Deus OAB cobra apuração de mortes em tiroteio na Favela da Coréia Jobim elogia opção do Rio pelo 'enfrentamento' Mãe de menino assassinado elogia policial 'Bandido que não tem medo não conheceu o Bope', diz ex-comandante  Imagens da operação na Favela da Coréia    Pressionado, Cabral Filho afirmou, mais cedo, que a polícia vai continuar a combater o tráfico em favelas cariocas e ironizou as críticas de ONGs e da OAB-RJ sobre a ação da polícia. "Se eu pudesse chegar para esses marginais e pedir: olha aqui, me devolve o fuzil, a (metralhadora) ponto 30 que derruba helicóptero, a granada. Ou (se eu pudesse) fazer um seminário para discutir como os senhores podem devolver a granada, o fuzil, a ponto 30, eu ficaria feliz da vida. Mas infelizmente não é assim", disse.   O governador deu as declarações pela manhã, durante evento da campanha "Imprudência, não", no Cristo Redentor. "Sou um governador extremamente consciente de que em um problema como esse, toda sociedade tem que participar e discutir. A OAB é uma instituição das mais respeitadas do nosso estado e do Brasil. Eles têm opinião e eu tenho que fazer o meu trabalho. E o trabalho será o mesmo durante quatro anos: combater à criminalidade".   Imagens chocantes As imagens da ofensiva no Rio foram chocantes até para os moradores locais, acostumados com a violência. Um menino de 4 anos, um policial e 10 suspeitos foram mortos na operação na quarta-feira.  "Não queremos incidentes dolorosos envolvendo crianças e pessoas de bem. Mas precisamos desarmar urgentemente os traficantes", disse o secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, no enterro do policial morto na operação. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, também elogiou a operação, afirmando que o governo tomou a decisão certa em "buscar o confronto e abandonar a conciliação". Os comentários foram criticados pelas entidades de defesa dos direitos humanos, que consideram a violência policial excessiva. "As mensagens dando apoio a assassinatos tão violentos e aleatórios ressaltam a negligência do governo e a possível ignorância sobre o modo como tratar o crime", disse Tim Cahill, da Anistia Internacional. "Essas operações são feitas para a TV. Onde estão as políticas sociais para conter a criminalidade?" Outros ativistas também concordam que são os pobres que levam a pior no combate ao crime. "O governo do Rio, agora aparentemente com o apoio de Lula, está pondo em prática uma política de limpeza social", disse Sandra Carvalho, chefe do grupo Justiça Global, referindo-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "A vida do pobre não vale nada - uma operação como aquela em Ipanema provocaria escândalo internacional", disse ela. Um grupo de 35 outras ONGs exigiu uma investigação sobre o caso e a punição dos responsáveis. "Há 10 meses a população do Rio vem assistindo a execuções arbitrárias de supostos traficantes", disseram os grupos numa declaração. Lula aumentou a ajuda ao combate ao crime pelos governos estaduais depois de ter sido acusado de não tomar providências suficientes para combater a violência urbana. Cerca de 1.200 integrantes da unidade da Força Nacional de Segurança Pública enviada para o Rio de Janeiro antes dos Jogos Pan-Americanos, em junho, ainda patrulham as ruas da cidade. Esta força é composta por policiais e outros agentes de órgãos de segurança pública estaduais. Jobim declarou na quinta que quer rever a política que impede os soldados do Exército de policiar as ruas no país. "Não tenho dúvida de que as Forças Armadas melhorariam a percepção de segurança no Rio", disse o ministro. E não é só o Rio de Janeiro que contará com o patrulhamento da força nacional. Nesta sexta-feira, as cidades-satélite de Brasília, que estão entre as mais violentas do país, receberam o primeiro contingente de uma mobilização do grupo, que terá um total de 500 membros trabalhando na região. A base deles será em Luziânia (GO).

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