Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Tiago Queiroz/ESTADÃO
Tiago Queiroz/ESTADÃO

Em meio à pandemia, drag queen Tchaka encontra outras maneiras de viver o carnaval

Artista vive da personagem há 21 anos e precisou ressignificar a profissão

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2021 | 05h00

Acostumada a passar o carnaval na rua, de bloco em bloco, a drag queen Tchaka já decretou: neste ano a folia é em casa. Conhecida como a “Rainha das Festas”, ela tem buscado formas alternativas para exercer a profissão em que atua há 21 anos — e no carnaval não é diferente. 

Ela protagonizou uma foto veiculada na capa do Estadão no carnaval de 2017. Neste ano, a imagem mostra Tchaka na mesma janela de seu apartamento na Rua Augusta, onde mora há duas décadas, mas com a rua vazia abaixo dela. “Ouvir o silêncio da Augusta é muito triste”, diz.

Em 2020, Tchaka estreou o bloco com o nome dela nas ruas de São Paulo. Neste ano, o show será virtual. Ela vai encerrar o festival “Tô Me Guardando”, uma série de lives organizada pela Prefeitura. A apresentação está marcada para o dia 28, às 20h. 

Em entrevista ao Estadão, ela falou da expectativa para o carnaval deste ano e o que vem fazendo para se manter financeiramente durante a pandemia. Leia abaixo trechos da conversa. 

Como é viver esse carnaval dentro de casa?

No sábado aconteceram muitas lives. Me deu uma dor no coração ver as artistas grandes, as rainhas, as poderosas tirando uma força sobrenatural para dar essas pílulas de felicidade. É um carnaval que a gente não quer, que não representa a alegria, o Brasil, o nosso povo, a nossa cultura. Mas estamos muito confiantes de que a vacina vai chegar para todos e que teremos escola de samba e blocos no ano que vem. Para que durante esses dias a gente tenha um respiro e não precise pensar, por exemplo, em decretos que liberam mais armas.

E o que esperar da sua participação no festival “Tô Me Guardando”?

O bloco da Tchaka vai ser de alento e de alegria. Vai ter muito glitter e muita festividade. Tem muita gente morando sozinha, principalmente aqui no centro de São Paulo. Mas você vai ver que consegue fazer seu bloco com seu pet, suas plantas, seu bichinho de pelúcia. É possível fazer na varanda, na tela do celular, do computador. É possível e necessário termos um carnaval diferente neste ano.

Tem muita gente se aglomerando em praias e festas clandestinas...

Na quinta-feira eu decretei que o carnaval é dentro de casa. Se você tem a possibilidade de ter uma casa, é mais do que um dever ter responsabilidade sobre a sua saúde e a da coleguinha. Para as pessoas que estão fazendo carnaval (com aglomerações), vocês são como o Bolsonaro. Vocês são irresponsáveis. Vocês têm o discurso de genocida. Quando perceberem que (o vírus) chegou na sua casa e bateu, não adianta fazer textão. São escolhas e consequências.

Como a pandemia afetou você e o seu trabalho?

Logo nos primeiros 40 dias fiquei introspectivo. Entrei numa bolha. Pensei: ‘o mundo vai acabar. O que posso fazer senão esperar?’. Moro na Augusta há 20 anos. Ouvir o silêncio da rua é muito ruim. Foi aí que veio a ideia: eu precisava ouvir pessoas. Comecei a fazer lives em uma série chamada Muita Tchaka Nessa Hora. Já foram mais de 300.

Quem você ouve nas lives?

Todo mundo. Já conversei com o Padre Júlio Lancelotti, com atores globais, com pessoas anônimas… Toda quarta-feira eu abro um espaço para que empreendedores divulguem o seu trabalho. E surge muita história boa. Um rapaz, homem transgênero, de Recife, fez uma live com Tchaka. Disse que queria trabalhar fazendo camiseta personalizada, mas precisava de uma máquina específica. Uma socialite viu o pedido e doou todo o valor, R$ 1,5 mil, e ele comprou o equipamento.

Quando essas lives se tornaram uma fonte de renda para você?

Durante esse percurso, empresas começaram a mandar “recebidos” (produtos enviados por empresas a influenciadores digitais para divulgação). Vi que tinha uma abertura de empresa para essa comercialização. Eles me viam como um potencializador para a marca chegar a outras bolhas que ainda não estava. Hoje há seis empresas patrocinando as minhas lives.

Como era sua vida antes da covid? Você já tem planos para o pós-pandemia?

Eu tenho uma agência de eventos e fazia cerca de 30 por mês com minha equipe. Já fiz de tudo: casamento, entrega de carros, evento motivacional em fábrica, telegrama animado... A maioria (da equipe) segue trabalhando na área, tem uma só que desistiu de ser artista. Eu só consigo ser o que sou: artista. Mas a gente ainda não sabe como vai ser o pós-vacina. Vou viver um dia após o outro. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.