RENATO CABRINI/FUTURA PRESS
RENATO CABRINI/FUTURA PRESS

Em meio ao caos no Espírito Santo, só loja de armas abre

Medo e falta de transporte prejudicam comércio; federação do setor estima prejuízo de R$ 25 milhões no Estado

Márcio Dolzan, enviado especial, e Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2017 | 03h00

VILHA VELHA E RIO - A falta de transporte público e o medo da violência afetaram muito o comércio da Grande Vitória. Desde o início da semana, poucas lojas arriscaram abrir as portas. Além da ameaça de assaltos e saques, as pessoas não conseguem chegar aos locais de trabalho. Assim, quase ninguém compra ou vende alguma coisa na região metropolitana. 

Em Vila Velha, uma única loja estava aberta nesta quinta-feira, 9, em um raio de três quarteirões. O estabelecimento é especializado em armas, artigos de defesa pessoal e vestuário para agentes e seguranças.

Cinco vendedoras e um segurança trabalhavam na loja por volta do meio-dia. A responsável pelo estabelecimento estava sorridente. Mas era apenas cortesia. No meio do caos, as vendas estão ruins até mesmo para quem comercializa material para segurança pessoal. No momento em que a reportagem esteve no local, apenas uma senhora idosa e o filho dela olhavam algumas camisetas.

“Nosso movimento caiu muito desde a semana passada”, afirmou a gerente, que se recusou a dar o nome. “Já tive problemas no passado por causa disso”, declarou.

Ela contou que mantém a loja aberta por estes dias porque, apesar da paralisação dos policiais militares, consegue se sentir segura. “As pessoas até ligam para cá perguntando sobre armas ou coisas do tipo, mas são muito poucas as que acabam vindo até a loja, por causa do medo”, lamentou a gerente.

A responsável pela loja lembrou, contudo, que pouca gente conseguiria comprar algo mais poderoso para se defender do que um spray de gengibre, que causa irritação nos olhos. “Nem mesmo spray de pimenta é permitido vender sem autorização”, ressaltou.

Solidariedade. Em Cachoeiro de Macacu, o dono de uma vidraçaria se comoveu com a situação dos comerciantes da cidade que tiveram seus estabelecimentos destruídos e ofereceu a recuperação das vitrines a preço de custo. “O que vimos foram cenas de terrorismo. As pessoas perderam loja, perderam tudo. O que não conseguiram carregar, quebraram”, afirmou Guilherme Freitas Teixeira, da Vidraçaria Teixeira. Com a promoção, os comerciantes economizariam entre 40% e 60% do custo.

A Federação do Comércio do Estado informou que pelo menos 300 lojas já foram saqueadas, arrombadas ou sofreram depredação. O prejuízo é de R$ 25 milhões. Comerciantes perderam ainda pelo menos R$ 180 milhões por manterem os estabelecimentos fechados.

ENTENDA A CRISE NO ESPÍRITO SANTO

Familiares e amigos de policiais militares no Espírito Santo começaram, na noite de sexta-feira, 3, a fazer manifestações impedindo a saída das viaturas para as ruas e afetando a segurança dos municípios.  Sem reajuste há quatro anos, os PMs reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho.

O motim dos policiais levou a uma onda de homicídios e ataques a lojas. Com medo, a população passou a evitar sair de casa e donos de estabelecimentos fecharam as portas. Os capixabas já estocam comida

Na segunda-feira, 6, a prefeitura de Vitória suspendeu o funcionamento das escolas municipais e de  unidades de saúde. 

Também na segunda, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para reforçar o policiamento nas ruas de cidades do Espírito Santo. Apesar do reforço, o clima de tensão se manteve no Estado. 

A morte de um policial civil na noite de terça-feira, 7, motivou uma paralisação da categoria na quarta, agravando ainda mais a crise de segurança no Espírito Santo. 

Para tentar conter o motim, o governo criou na quarta-feira, 8, um comitê de negociação com representantes do movimento que impede a saída de policiais militares dos batalhões das principais cidades do Estado.

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