Reuters/Ricardo Moraes
Reuters/Ricardo Moraes

Em mês de quarentena, polícia do Rio mata quase seis pessoas por dia

É o segundo maior número de mortos na série histórica iniciada em 1998

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 20h17

RIO - Apesar da quarentena e do menor movimento nas ruas em função da pandemia de covid-19, 177 pessoas foram mortas pelas polícias Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro durante o mês de abril, segundo dados oficiais divulgados nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão subordinado ao governo do Estado do Rio.

Isso corresponde a quase seis pessoas mortas por dia, ou uma pessoa morta pela polícia a cada 4 horas. É o segundo maior número de mortos na série histórica iniciada em 1998. O recorde é de 195 mortes, registradas em julho de 2019, quando o movimento de pessoas pelas ruas era normal.

De janeiro a abril de 2020, as polícias Civil e Militar do Rio mataram 606 pessoas, 46 a mais do que no mesmo período de 2019, ano em que se registrou o recorde de mortes, com 1.810 ao longo dos 12 meses. Se essa tendência se mantiver, será estabelecido um novo recorde.

A polícia matou 152 pessoas em janeiro e 164 em fevereiro deste ano. Em março, mês em que começaram as medidas de isolamento devido ao coronavírus, os policiais mataram 113 pessoas, o menor número da gestão do governador Wilson Witzel (PSC), iniciada em 2019. Witzel defende a morte de pessoas que estejam carregando fuzis – “a polícia vai mirar na cabecinha e... fogo”, afirmou ao Estadão, logo após ser eleito.

Em relação a março, o número de mortos aumentou 56,6% em abril. Em relação a abril de 2019, quando foram mortas 124 pessoas, o aumento foi de 42,7%.

O Observatório da Segurança do Rio de Janeiro, que monitora a atividade policial no Estado, ressaltou em nota que “o 7º Batalhão (situado em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio), onde o menino João Pedro, de 14 anos, foi morto há uma semana, foi responsável em 2020 por 48,13% das mortes ocorridas naquela Área Integrada de Segurança Pública (AISP)”. A entidade destacou ainda que “o 41º Batalhão, onde o jovem Iago Cesar, de 21 anos, foi morto um dia antes de João Pedro, foi responsável por 58% das mortes ocorridas na área desse Batalhão”, que abrange Irajá e Acari, na zona norte da capital.

Resposta. Em nota, a secretaria estadual de Polícia Militar afirmou que “as ações da corporação no enfrentamento ao crime organizado são planejadas com base em informações de inteligência, tendo como preocupação central a preservação de vidas. O confronto é uma opção dos criminosos, que, de posse de armas de alto poder de destruição, disparam tiros em direção à tropa sem medir consequências”. A nota segue: “Além das novas e complexas demandas operacionais surgidas em função da pandemia, os policiais militares não deixaram de atuar em ambiente extremamente hostil, precisando intervir em guerras violentas travadas por grupos criminosos rivais que disputam territórios para instalar bases de suas atividades ilícitas. Essa intervenção, aliada a outras estratégias, tem sido fundamental para a redução expressiva dos indicadores criminais mais impactantes para a sociedade. A Polícia Militar apreendeu, entre 1° de janeiro e a manhã do dia 25 de maio, 2.938 armas de fogo, entre as quais 148 fuzis. Nesse período, 14.182 pessoas foram conduzidas às unidades da Polícia Civil – 12.243 adultos presos e 1.939 adolescentes apreendidos”, conclui a pasta. A reportagem também procurou a Polícia Civil, que não havia se manifestado até a publicação desta reportagem.

Outros números. Os roubos de cargas, de veículos e os roubos de rua (que incluem roubo a transeunte, roubo de aparelho celular e roubo em coletivo) caíram em abril em relação ao mês anterior e ao mesmo mês de 2019, no Estado do Rio. Segundo o ISP, foram 337 roubos de carga em abril, contra 366 em março e 667 em abril de 2019. Os roubos de veículo foram 1.847 em abril, contra 2.450 em março e 3.755 em abril de 2019. Os roubos de rua foram 4.021, contra 6.941 em março e 11.040 em abril de 2019.

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