Bruno Ribeiro / Estadão
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Risco de rompimento de barragem esvazia reservatório

Ação determinada por juiz preocupa população em cidade mineira; barragem de Germano, da Samarco, ainda ameaça ruir

Bruno Ribeiro, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

30 Novembro 2015 | 05h00

Atualizada às 12h46

MARIANA - O reservatório da usina hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga), em Santa Cruz do Escalvado, a 100 quilômetros de Mariana (MG), está sendo esvaziado às pressas, por causa do risco de rompimento da barragem de Germano, estrutura da empresa Samarco que ainda ameaça ruir. A ação deixou a população local perplexa e traz preocupação. 

“Conforme a água está descendo, está acontecendo erosão da terra bem embaixo da Estrada de Santana”, conta o técnico em mecânica Jarbas Antônio Lopes, de 54 anos, que havia levado parentes para ver a represa na manhã de ontem. “Se despencar mais um pouco, vai bloquear a estrada”, diz, referindo-se a uma estrada rural usada por moradores e trabalhadores das fazendas de gado ao redor da barragem. “O reservatório estava cheio antes de acontecer isso. No dia em que a lama chegou, até aqui ficou com pó”, conta o técnico, nascido na região, que costuma visitar familiares no fim de semana.

A ideia é que, caso Germano estoure, o reservatório de Candonga, que tem capacidade para 544 milhões de metros cúbicos, sirva como barreira de contenção para a lama, impedindo que ela siga pelo Rio Doce, a exemplo do que ocorreu com os rejeitos das Barragens Fundão e Santarém, da Samarco.

No centro de Santa Cruz do Escalvado, cidade de 8 mil habitantes distante cerca de 5 quilômetros da barragem, moradores dizem não acreditar que o reservatório será esvaziado. “Não pode. Muita gente pescava por lá até a lama chegar. Se essa barragem de Mariana estourar e a lama vir toda para cá, quem garante que a represa vai dar conta? Se der, a lama toda vai ficar aqui para sempre?”, indagou o ajudante-geral Jeferson Rodrigues, de 22 anos.

Na usina, poucos carros e funcionários podem ser vistos do portão para fora. As comportas já estavam abertas desde o dia 7, dois dias depois do acidente em Mariana, e a produção de energia estava suspensa. A usina tem capacidade para produzir 140 MW/hora, cerca de um sexto o que pode produzir, por exemplo, a usina Henry Borden, da Represa Billings, na região sul da capital paulista.

Barragem. O esvaziamento emergencial foi decidido na sexta-feira, quando o juiz Michel Cury e Silva, da 1.ª Vara da Fazenda, teve acesso a relatório produzido pelo Centro de Apoio Técnico do Ministério Público Estadual. O relatório atesta comprometimento da barragem de Germano e foi feito com base em informações prestadas por empresas contratadas pela própria Samarco. A Justiça deu prazo de dois dias para o esvaziamento da represa.

Até sexta-feira, o consórcio que administra a usina (formado pela Vale, uma das donas da Samarco, e pela Cemig, empresa de energia de Minas) informou que não havia sido notificado sobre a decisão da Justiça. A Samarco foi questionada sobre o caso, mas não respondeu. O consórcio que cuida da represa não atendeu nenhum de seus telefones ontem.

Anteontem, a Samarco divulgou nota em que afirma estar retirando peixes vivos, com ajuda de empresas terceirizadas e pescadores locais, do canal de adução da represa de outra usina hidrelétrica, Aimorés, também em Minas, que fica entre Governador Valadares (MG) e Colatina (ES). “Depois de recolhidos, os peixes são encaminhados para outros cursos d’água, que possuem as mesmas características de seu hábitat original”, diz a nota. 

Justiça também avalia situação de outras 3 represas. Pela decisão, tomada a pedido do Ministério Público de Minas Gerais e do governo do Estado, a Samarco também fica obrigada a informar o quadro de estruturas de apoio das represas chamadas Sela, Tulipa e Selinha. A mineradora terá também de prever “consequências e medidas emergenciais concretas”, executar “integralmente as medidas emergenciais apresentadas nos estudos anteriormente citados, em caso de rompimento, bem como eventuais recomendações técnicas do Estado e do DNPM (órgãos federal de fiscalização”. Prevê-se multa diária de R$ 1 milhão para caso de descumprimento. 

Resumo. Além de destruir o distrito de Bento Rodrigues, a tragédia em Mariana já tem confirmadas 11 mortes. Cinco funcionários da Samarco e três moradores do vilarejo estão desaparecidos e dois corpos aguardam identificação. Há uma semana, a lama que vazou da barragem, e atingiu o Rio Doce, chegou à foz do curso d'água, no distrito de Regência (ES).

Confira a seguir a íntegra da nota do Consórcio Candonga, divulgada nesta segunda-feira:

"O Consórcio Candonga informa que até o momento não foi notificado pelo Ministério Público de Minas Gerais a respeito da liminar deferida para ações para possíveis cenários em caso de rompimento da barragem Germano em Mariana (MG).

Desde que tomou conhecimento do rompimento da barragem de uma mineradora, na região de Mariana, 5/11, a Usina acionou imediatamente o seu plano de emergência e está liberando a água do reservatório, de maneira controlada, desde essa data, regulando o nível dentro dos padrões operacionais.

Este procedimento levou a redução do volume de água acumulado no reservatório, que pode ser observado nos dias que sucederam o episódio. A geração de energia está suspensa desde o dia 6/11.

A Usina reforça que atua em conformidade com a legislação e que segue as orientações dos órgãos reguladores. Está também monitorando a situação e segue em contato permanente com as entidades e autoridades envolvidas."

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